Lições para o meu filho, Gabriel

Demorei a perceber que o abraço é mais efetivo do que o dedo do meio. É um conselho que gostaria de dar a meu terceiro filho, a caminho
 (MirageC/Getty Images)
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Por Felipe MirandaPublicado em 19/05/2022 05:34 | Última atualização em 18/05/2022 18:05Tempo de Leitura: 5 min de leitura

Minha mulher está grávida de meu terceiro filho. Ele vai se chamar Gabriel. Penso no que posso ensinar a ele. Penso nos erros que cometi. Penso em uma história que não me sai da cabeça. Lyndon Johnson era um coitado — pelo menos sob uma determinada ótica. Vice-presidente de John F. Kennedy no começo dos anos 1960, era desprezado por ele. Não era convidado para o Salão Oval. Não entrava no Air Force One. Kennedy negou um escritório e uma equipe para Johnson.

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 A entourage de Kennedy tratava Johnson como um caipira. Kennedy era filho de um embaixador americano em Londres e foi a Harvard, como a maioria de seus assessores. Johnson era filho de fazendeiros do Texas. Só havia sido escolhido para vice porque Kennedy precisava ganhar no Sul e, especialmente, no Texas. Após pouco tempo, não era segredo para ninguém que Kennedy e Johnson se odiavam. Até que, em 22 de novembro de 1963, em Dallas, Kennedy levou um tiro na cabeça. Ao contrário de todas as expectativas, Johnson abraçou aqueles que o desprezavam. Como escreveu Bill Clinton: “É maravilhoso ver como a confiança se espalhou entre os sobreviventes chocados do time de Kennedy quando eles perceberam que Johnson tinha mais capacidade de conquistar votos na Câmara e no Senado do que qualquer outro presidente da história”.

 Qual era a mágica de Johnson? Ele desprezava a violência verbal. Nunca passou pela sua cabeça deixar a mágoa ou o sentimento de vingança tomar conta. Não por superioridade moral. Por pragmatismo. Quando Johnson disse que queria aprovar o que acabou sendo a Lei dos Direitos Civis de 1964, talvez a peça legislativa mais famosa da história dos Estados Unidos depois da Constituição, foi amplamente desestimulado. O projeto previa a proibição da segregação racial em repartições públicas e da discriminação por cor na hora de contratar funcionários. Um aliado disse que Johnson queimaria seu capital político em uma lei que nunca chegaria a ser votada. 

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Mas Johnson seguia o que Blaise Pascal disse 350 anos atrás: “Para dizer a alguém que ele está errado, primeiro diga que está certo”. Se o sujeito era um nacionalista, Johnson falava sobre a importância patriótica da legislação. Se fosse um tradicionalista apaixonado pela Constituição, ele dizia como aquilo falava diretamente ao espírito de George Washington. Johnson sabia que nada realmente interessa aos homens exceto eles próprios. É preciso falar sobre o interlocutor, mais do que para o interlocutor. Há coisas que se aprende melhor nas ruas do Texas do que em Harvard. “Ele sabia exatamente como chegar até você”, escreveu Clinton. “Ele elogiava o interlocutor de maneira precisa, específica. Era um gênio para convencer.” 

O caminho para mudar a opinião de seus críticos não é começar uma guerra com eles. Isso fala muito alto para mim. Por alguns anos, a minha empresa, a Empiricus, foi criticada e, por um bom tempo, não rea­gimos como Johnson. Eu mesmo respondi com desprezo. Não fiz um movimento de aproximação, e sim de afastamento. Posso ter escrito coisas grosseiras sobre os críticos. Demorei a perceber que o abraço é mais efetivo do que o dedo do meio. Só depois entendi a frase de Mario Puzo, o autor de O Poderoso Chefão, sobre Don Corleone: “Ele acreditava na amizade e ele estava disposto a mostrar sua amizade primeiro”. 

Estou lançando no dia 19 de maio, em São Paulo, um novo livro, pensando nos meus filhos: além de Gabriel, tenho João, de 10 anos, e Maria, de 1 aninho. A obra se chama O Filho Rico e foi escrita com o jornalista Ricardo Mioto. Ela já está em pré-venda na Amazon. São os conselhos que eu gostaria de dar para os meus filhos sobre criação de patrimônio e a busca por uma carreira de sucesso, sim, mas acima de tudo sobre como se relacionar. Não há sucesso, inclusive profissional, sem habilidades interpessoais.

Gosto da história de quando o fundador do eBay, Pierre Omidyar, foi apresentar seu site para investidores de venture capital, em 1997. Na sede da Benchmark,­ bem na hora em que Omidyar foi abrir o site em uma imensa tela, os frágeis e sobrecarregados servidores do eBay desmaiaram. Quanto mais Omidyar tentava em vão carregar o site, mais constrangido ficava. Todo mundo entendeu o que estava acontecendo, mas Bruce Dunlevie, sócio da Benchmark e um gentleman da maior estirpe, interrompeu: “Nossa conexão com a internet é instável... Peço sinceras desculpas por isso”.

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Pedir dinheiro para desconhecidos já é angustiante o suficiente. Qual poderia ser o maior sinal de maturidade do que tirar o peso das costas de um desesperado fundador que vê sua apresentação desmoronar? Pouco depois, Omidyar decidiria que queria a Benchmark como sua principal investidora, mesmo tendo recebido propostas financeiras muito mais vantajosas de outras firmas. A Benchmark multiplicou seu capital centenas de vezes, no aporte de mais sucesso da história do venture capital até então.

A gentileza não é sinal de fraqueza, e sim um ativo empresarial. Na Empiricus, perceber que muitas das críticas eram justas nos permitiu transformá-la, e creio que esse tenha sido um dos elementos que abriram caminho para que nossa empresa tenha sido recentemente incorporada ao BTG Pactual. Eu espero que meus filhos aprendam esta lição (está lá, no capítulo 10 de O Filho Rico): não leve críticas para o lado pessoal. Nunca entre na defensiva. Elogie de modo honesto as pessoas o máximo que puder: a taxa de retorno sobre esse investimento é tão alta que me surpreende que, digamos, ele não seja o padrão do mercado.

Se meus filhos demorarem para entender isso, eis uma segunda lição do papai: sempre é tempo. 

 

(Leandro Fonseca/Exame)