J.R. Guzzo — A fantasia do Aécio intocável acabou

Agora que Aécio Neves virou réu, os argumentos do PT de que a Justiça serve apenas às “elites” para perseguir Lula acabaram
 (Jefferson Rudy/Agência Senado)
(Jefferson Rudy/Agência Senado)
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J.R. Guzzo

Publicado em 26/04/2018 às 05:00.

Última atualização em 26/04/2018 às 05:00.

E por que “não pegam o Aécio?”, perguntavam até ontem os defensores de Lula, para mostrar que a Justiça brasileira era apenas um instrumento das elites dedicado a impedir sua volta à Presidência da República. Só combatiam a corrupção de um lado; deixavam sossegados os adversários do PT. Mas acabam de pegar “o Aécio” — que, após decisão por 5 a zero numa das turmas do Supremo Tribunal Federal (STF), será enfim processado ali mesmo pelos crimes de corrupção passiva e obstrução de Justiça.

Como é que fica, então? Fica que a situação está se tornando cada vez menos segura e menos saudável para todos os políticos e administradores públicos brasileiros. O grande sonho de “zerar tudo”, como pretendiam 99% de nossos peixes graúdos, parece ter se transformado numa miragem cada vez mais distante. A mudança começou anos atrás, com o “mensalão”, que colocou a claro a roubalheira pavorosa que estava se formando já nos primeiros instantes do governo Lula. Como pouca gente acreditou que isso fosse dar em alguma coisa mais séria, continuaram a roubar com um desespero, uma agressividade e um descuido jamais notados antes. Passou-se, então, à Operação Lava-Jato — e, aí, a casa começou definitivamente a cair.

Agora ficou muito complicado “segurar” as coisas e ganhar no tapetão dos tribunais superiores. Lula, que era Deus no céu menos de um mês atrás, hoje é um presidiário em Curitiba. Toda uma tropa de intocáveis está no xadrez, alguns já há bom tempo, com possibilidades escassas de sair amanhã ou depois. As últimas decisões da Justiça, da primeira instância aos tribunais mais altos, estão tomando cada vez mais a mesma direção — contra os réus, apesar das imensas pressões feitas por Lula e seu sistema. Safar-se “lá em cima”, como prometem os advogados milionários de Brasília, não é mais coisa garantida. Agora, com Aécio indiciado num processo penal que poderá levá-lo à prisão, mais uma tranca foi passada na porta.

Quem diz “Aécio” diz “um monte de gente”. Estão na fila, para ser processados criminalmente no STF, os senadores petistas Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias, ambos por ladroagem generalizada (Farias, já condenado duas vezes na Justiça do Rio de Janeiro, é acusado até de roubar leite das crianças de Nova Iguaçu). É curioso: os dois, por incrível que pareça, operam hoje como líderes do PT e aparecem no noticiário entre os principais propositores de baderna, violência e ações criminosas para “soltar Lula”. Soltar como, se eles próprios estão ameaçados de lhe fazer companhia no futuro? A esperança deles era que Aécio e assemelhados continuassem sem problemas, para poderem reivindicar o mesmo “tratamento”.

Essa fantasia acaba de falecer. O bicho está roncando, também, para os lados dos senadores Romero Jucá e Eunício de Oliveira — isso para não falar dos ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco, e ainda muito menos do ex-deputado e ex-ministro (de Lula e Michel Temer) Geddel Vieira Lima, este preso há sete meses depois de ser flagrado com mais de 50 milhões em dinheiro vivo entesourados num apartamento de Salvador.

Há muitos outros, ainda, sem contar os que já estão presos, como Geddel — os conhecidos Eduardo Cunha, Antonio Palocci, Sérgio Cabral e um cardume de peixes mais magros, além dos meliantes empresariais e os bas-fonds do PSDB de São Paulo. Tentam e tentam sair pela porta dos fundos do STF, com a ajuda dos ministros Marco Aurélio, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes e Dias Toffoli, mas não têm conseguido. Seu grupo, ali, ficou em minoria (temporária e frágil, mas minoria), e todas as últimas decisões têm sido ruins para eles.

Pior para eles e pior, também, para Lula — quanto maior o número de safados que se juntarem a ele, mais difícil será dizer que está sendo perseguido sozinho. Já não cola hoje. Promete colar cada vez menos. Pelo andar da carruagem, a única esperança, agora, seria o Congresso Nacional aprovar uma lei decretando a anistia ampla, geral e irrestrita para todos os crimes de corrupção cometidos nos últimos 30 anos. Quem sabe?