A quem apelar?

Os jornalistas econômicos brasileiros vêm tentando sanar sua ignorância recorrendo aos ensinamentos dos mais importantes economistas do país e do exterior. Tem sido, por enquanto, um convite para o desastre

São Paulo - Há muitas críticas hoje em dia contra os jornalistas brasileiros. Estão envolvidos, segundo queixas do mundo político, numa competição para ver quem publica mais notícias sobre escândalos no governo e consegue, com isso, derrubar mais ministros.

Deploram-se sua indiferença diante do aumento da renda nacional e o fato de não manifestarem o justo reconhecimento que seria devido às autoridades da República pelos benefícios que têm concedido à população deste país. São acusados de moralismo.

Não têm conseguido se adaptar às crescentes exigências impostas aos meios de comunicação pelo avanço da vida digital. As críticas, enfim, são muitas — e entre elas, é duro registrar, observa-se que os jornalistas não entendem nada de economia.

Não entendem, provavelmente, de muita coisa; mas em matéria de economia, de acordo com a opinião de muita gente boa, são realmente uma negação.

Os esforços feitos pelas redações brasileiras com o objetivo de sanar essa deficiência têm tido, até agora, resultados pouco conclusivos. É verdade que já se pode notar uma frequência menor na troca de milhões por bilhões, ou vice-versa; é mais raro, também, topar com afirmações dizendo que a produção disso ou daquilo caiu 150%, por exemplo, ou enfrentar outros maus momentos com a aritmética.

Mas a situação, de um modo geral, permanece insatisfatória — e uma boa razão para isso é que os jornalistas têm se equivocado na procura do remédio. Para compensar sua ignorância em economia, vão perguntar as coisas para os economistas. O resultado é que juntam o que não sabem com o que os economistas acham que sabem — e que em geral está errado. É uma tristeza.

Vem daí, possivelmente, a constante sensação de que o noticiário econômico vive falando uma coisa e, no mundo dos fatos, acontece o contrário, ou algo completamente diverso. Um dos temas mais repetidos na mídia, para ficar num exemplo clássico, é que a economia dos Estados Unidos acabou; está em ruínas, e deixou de ter qualquer relevância para o mundo atual.

Naturalmente, basta olhar 5 minutos para Nova York, ou ir do ponto “A” ao ponto “B” no território americano, para se constatar que não pode ser nada disso. Ou, então, basta lembrar os anúncios de falecimento que vêm sendo publicados há 50 anos sobre a vida econômica dos Estados Unidos.


Já se garantiu que o Japão era a nova potência do planeta, ou que o dólar estava liquidado como moeda aceita nas transações internacionais, ou que o naufrágio do mercado de hipotecas, em 2008, eliminava qualquer dúvida que ainda pudesse existir sobre o fim da economia americana.

Mas os Estados Unidos continuam aí, perfeitamente vivos. Ninguém, ao que se saiba, está rasgando nota de dólar. As notícias mais recentes, por sinal, mostram que sua recuperação diante dos problemas dos últimos três anos está sendo mais vigorosa do que indicavam todos os prognósticos.

Não se pode dizer que os jornalistas, nessa tentativa de remediar sua falta de conhecimentos com a importação da sabedoria dos economistas, estejam falando com qualquer zé-mané. Ao contrário, entrevistam prêmios Nobel de Economia. Ouvem professores com renome, águias do mercado financeiro e estrelas das mais prestigiadas empresas de consultoria do mundo.

Falam com ministros de Estado e autoridades econômicas, ases das agências internacionais de rating e capitães de indústria. Mas as coisas não melhoram. O que adianta, por exemplo, entrevistar executivos de uma Lehman Brothers, com seus 160 anos de majestade na finança mundial, se no dia seguinte a casa vem abaixo, com débitos de 600 bilhões de dólares?

Qual a utilidade de ouvir o ministro da Fazenda, Guido Mantega, teoricamente a autoridade econômica número 1 do país? A Folha de S.Paulo publicou há pouco as seis principais previsões que o ministro fez para a economia brasileira em 2011; as seis estavam erradas. É por aí que segue a procissão. 

Vai ser duro, desse jeito, melhorar o jornalismo econômico — neste país e neste mundo.

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