A Nextel está pronta para o ataque

Depois de vencer o leilão de 3G em dezembro, a Nextel começa a mapear as cidades que serão atendidas — um movimento que já começa a preocupar a concorrência

Uma vez por semana, a sala de reuniões localizada no 11º andar da sede da Nextel, no bairro de Cerqueira César, região central de São Paulo, transforma-se em central de inteligência. Seis diretores das áreas de marketing, de engenharia e comercial reúnem-se na tentativa de decifrar uma gigantesca equação matemática composta de 100 variáveis. O objetivo é mapear as 1 200 cidades que serão atendidas pelo serviço de banda larga móvel oferecido pela operadora a partir de abril deste ano. Em tese, a fórmula é capaz de cruzar dados como renda per capita, potencial de consumo, qualidade do serviço prestado pelas concorrentes — e seus resultados determinam onde, quando e como a Nextel iniciará sua cobertura. Vencedora do último leilão de frequências 3G realizado pela Anatel, em dezembro, a operadora é atualmente a que mais cresce no Brasil, com uma taxa de expansão de 40% ao ano e um faturamento de 4,2 bilhões de reais. Depois de vencer o leilão da banda H em dezembro, a meta é dobrar de tamanho em 2012. “Passamos o último ano nos preparando para esse salto”, diz Sérgio Chaia, presidente da Nextel. “Ter chegado a esse mercado depois dos concorrentes nos permitiu aprender com os erros deles.”

A preparação da Nextel para montar uma operação capaz de brigar com as quatro grandes operadoras de celular no país — Vivo, Claro, Oi e TIM — começou em setembro do ano passado, ainda antes do leilão. Na época, a empresa fechou pré-contratos com fornecedores de equipamentos e proprietários de terrenos onde pudesse instalar antenas, de modo a garantir os preços caso saísse vitoriosa da disputa. “Precisávamos nos cercar de todos os lados”, diz Chaia. “Não podíamos correr o risco de vencer o leilão e não ter como oferecer o serviço depois.” Em janeiro, entrou em operação a área de inteligência. Paralelamente, a empresa contratou 120 funcionários para cuidar da área de internet móvel. Outros 380 devem ser recrutados até o final do ano. Finalmente, para acelerar a preparação de sua infraestrutura, a Nextel converteu parte de suas 3 600 torres 2G, de voz, para 3G (a instalação de uma torre nova dessa tecnologia leva até quatro meses). A previsão é que o novo serviço seja lançado tão logo seja assinado o contrato com a Anatel, a agência que regulamenta o setor, no início de abril. “Como foi a última a entrar nesse mercado, a Nextel precisa correr”, afirma Luis Minoru, diretor da consultoria Promon Logicalis, especializada em telecomunicações.

Existem outras duas razões que provocam a pressa da Nextel. A primeira é a necessidade de fazer valer o investimento no país. Subsidiária da americana NII, com atuação em cinco países da América Latina, a Nextel desembolsou 1,2 bilhão de reais apenas para adquirir o direito de oferecer internet pelo celular em 22% dos municípios brasileiros. Outros 5 bilhões de reais serão gastos até 2015 na construção de antenas, cabeamento de cidades, compra de equipamentos e contratação de pessoal — um investimento recorde para a operação brasileira. O segundo motivo está relacionado ao potencial de crescimento da banda larga móvel. Enquanto o mercado de celulares está próximo da saturação, com 106% de penetração, o de internet móvel engatinha. Dos 205 milhões de aparelhos em operação no país, apenas 10% possuem tecnologia 3G. “Além de ser um mercado gigantesco, esse tipo de serviço proporciona margens de lucro até três vezes maiores”, diz um analista especializado em telecomunicações.


Mesmo se tratando de uma operadora minúscula para os padrões brasileiros — 3,5 milhões de clientes, ante 60 milhões da Vivo, a maior operadora do país —, a participação da Nextel no leilão das últimas frequências 3G, realizado em dezembro, gerou enorme desconforto entre os concorrentes. A história tem origem no primeiro leilão de terceira geração, realizado em 2007, quando Vivo, Claro, Oi e TIM desembolsaram 5,3 bilhões de reais pelas licenças. Segundo uma determinação da Anatel, no leilão seguinte teriam preferência as empresas que ainda não atuavam no mercado de 3G. A Nextel era a única operadora em atuação no Brasil que se encaixava na regra. Diante da impossibilidade de concorrência no leilão, as quatro grandes operadoras solicitaram à agência a impugnação do edital de licitação. O pedido, porém, foi recusado. Ao final do processo, a Nextel pagou um ágio de apenas 11% pelo direito de oferecer banda larga móvel nas maiores cidades do país. “Fizemos tudo dentro do que previa a regulamentação da Anatel”, diz Chaia.

Preço a pagar

A vitória da Nextel lhe garantiu a oportunidade de participar de um jogo muito maior, mas impõe alguns desafios. Um dos principais diz respeito à sua estrutura de custos. Por utilizar uma tecnologia baseada no rádio, a operadora encaixava-se numa categoria diferente das demais empresas do setor. Isso a eximia de pagar os altos custos de interconexão, cobrados sempre que um cliente de uma operadora faz uma ligação para um de outra. Agora, esse custo passa a existir. A expectativa de Chaia é que a rentabilidade da operação compense esses gastos — a receita média por usuário da Nextel é da ordem de 110 reais, quatro vezes maior que a da Vivo. As grandes operadoras de celular, claro, não pretendem facilitar a vida da nova concorrente. Em meados de 2010, a TIM colocou no ar uma campanha em que oferecia aos clientes três meses de ligações gratuitas para números Nextel — em setembro, o filme foi suspenso pelo Conar, órgão de autorregulamentação da publicidade no Brasil. Recentemente, a operadora italiana deu o troco. Em fevereiro, a TIM entrou com uma reclamação no Conar exigindo que a Nextel exibisse, nos comerciais estrelados pelo ator Fábio Assunção, as restrições legais para a compra de aparelhos por parte de pessoas físicas. (Até que os serviços de 3G comecem a ser oferecidos, os aparelhos Nextel só podem ser comprados por empresas.) Chaia diz estar pronto para a briga. Mas é bom que saiba que ela está só no começo.

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