Pop

Além do 'Made in China': como a Labubu ajudou o país a ditar tendências de consumo

Fenômeno criado pela Pop Mart já responde por 40% da receita no exterior e simboliza ascensão do soft power chinês, disseram fontes à CNBC

Labubu: sucesso global das bonecas garante resultado da Pop Mart (MediaNews Group/Orange County Register via Getty Images / Colaborador/Getty Images)

Labubu: sucesso global das bonecas garante resultado da Pop Mart (MediaNews Group/Orange County Register via Getty Images / Colaborador/Getty Images)

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 18 de agosto de 2025 às 06h35.

A Labubu, mais do que aumentar os lucros da Pop Mart, também tem desempenhado um papel geopolítico. A personagem se tornou uma embaixadora cultural inesperada da China, ajudando a transformar sua imagem de “fábrica de produtos baratos” em um país criador de marcas desejadas.

Criada pelo artista de Hong Kong, Kasing Lung, e popularizada pela Pop Mart, a boneca de aparência “feia-fofa” conquistou fãs de diferentes idades e virou acessório de moda em bolsas de Rihanna, Lisa (do Blackpink), Dua Lipa, Kim Kardashian e até do ex-jogador David Beckham.

As vendas internacionais da Pop Mart cresceram mais de 480% no início de 2025, com o mercado externo já representando 40% da receita total, segundo a CNBC. Hoje, a companhia mantém mais de 500 lojas na Ásia, Europa e América do Norte.

O momento decisivo

Esse alcance global não foi resultado de campanhas oficiais, mas de um movimento orgânico de celebridades e fãs em redes sociais.

Analistas disseram à CNBC que o momento decisivo ocorreu em 2024, quando Lisa apareceu com a Labubu em vídeos de compras e postagens no Instagram. “Lisa foi o ponto de virada. A partir dali, a Labubu deixou de ser um brinquedo de nicho e virou símbolo de status global”, afirmou Yaling Jiang, analista de consumo e fundadora da plataforma Aperture China.

Pouco depois, Rihanna exibiu a boneca presa a uma bolsa da Louis Vuitton, gesto que, segundo especialistas, “validou a Labubu como item aspiracional no mundo da moda de luxo”, disse Michelle Cheng, co-líder da equipe de pesquisa de consumo da Ásia no Goldman Sachs.

A adesão de nomes como Dua Lipa e Kim Kardashian ampliou a base de fãs adultos colecionadores, enquanto David Beckham atraiu novos públicos ligados ao esporte. “Quando figuras tão diferentes começam a aparecer com o mesmo produto, a mensagem para o consumidor é clara: trata-se de um símbolo cultural universal, não apenas de um brinquedo”, disse Cheng.

A onda de visibilidade fez com que algumas versões fossem revendidas por valores até 741% superiores ao preço original, em episódios que geraram filas, aglomerações e até restrições de vendas em cidades fora da China.

O sucesso também está ligado ao formato das blind boxes, embalagens-surpresa que exploram a expectativa do consumidor. “A psicologia do desconhecido transforma cada compra em uma experiência. O momento de abrir uma caixa virou conteúdo compartilhável, alimentando milhões de vídeos virais no TikTok e no Instagram”, observou Jiang.

Esse mecanismo não apenas impulsiona a recompra, mas também fortalece comunidades digitais, nas quais fãs trocam edições limitadas, produzem conteúdo próprio e até personalizam as bonecas. Para Jiang, “a Labubu não é mais só um brinquedo. Ela é identidade, pertencimento e estilo de vida, comparável a ícones globais como Hello Kitty ou Pokémon”.

De 'feito' para 'desejado'

O fenômeno da Pop Mart ilustra o movimento de transição da imagem chinesa de “Made in China” para “Desired from China”. Essa transformação acompanha a ascensão de outros produtos chineses, como o videogame Genshin Impact, que arrecadou US$ 2 bilhões em seu primeiro ano de mercado, e Black Myth Wukong, que vendeu 20 milhões de cópias em apenas um mês.

Esse conjunto de fatores ajudou a China a subir para a 2ª posição no Soft Power Index de 2025, superando o Reino Unido e atrás somente dos Estados Unidos. A consultoria Brand Finance aponta que o avanço está relacionado à força das novas marcas culturais, ao foco em sustentabilidade e à reabertura do país ao turismo após a pandemia.

A trajetória da Labubu é ainda mais relevante porque não foi planejada pelo Estado, ao contrário de estratégias governamentais como o “Cool Japan” ou a onda cultural sul-coreana conhecida como K-Wave. Seu impacto surgiu de maneira espontânea, sustentado pelo entusiasmo dos consumidores e pelas redes digitais, o que garante autenticidade e aproximação cultural, segundo os analistas do mercado.

Para especialistas, esse pode ser o caminho mais promissor para a China consolidar seu poder de influência: menos iniciativas de cima para baixo e mais confiança no mercado.

Acompanhe tudo sobre:Brinquedos

Mais de Pop

'O Diário da Princesa 3' mostrará Mia Thermopolis como rainha de Genovia

Dua Lipa processa Samsung por uso indevido de imagem em caixas de TV

Netflix anuncia nova série do universo de 'La Casa de Papel'

Dia das Mães: veja a lista de 10 filmes para assistir em família (e disponíveis no streaming)