Ciência

Estudante cria prótese 100% brasileira usando plástico PET

Aos 24, Lucas Strasburg se prepara para entrar no mercado e quer enfrentar as concorrentes internacionais com um produto acessível e de qualidade.

Lucas Strasburg, criador da Revo Foot, empresa brasileira de próteses (Acervo Pessoal)

Lucas Strasburg, criador da Revo Foot, empresa brasileira de próteses (Acervo Pessoal)

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Da Redação

Publicado em 17 de abril de 2016 às 09h00.

São Paulo - Há sete anos, em Novo Hamburgo (RS), os estudantes Lucas Strasburg e Eduardo Trierweiler Boff viram ao longe alguém caminhando de maneira estranha. Era um rapaz amputado na altura da canela, que precisava parar e se escorar na muleta para comer. “Aí acendeu uma lâmpada: há tanto avanço na medicina mas ainda não colocamos um paciente andando direito?”, resume Lucas, hoje com 24 anos.

A dupla decidiu criar um novo tipo de prótese como projeto de conclusão do ensino técnico em mecânica da Fundação Liberato. Pesquisaram sobre o setor e descobriram que o Brasil não fabrica próteses de qualidade e que esse mercado é dominado por produtos importados.

“A prótese de madeira oferecida gratuitamente pelo SUS é rígida e não permite a transferência de energia do calcanhar para a ponta do pé”, diz Lucas. O objetivo da Revo Foot passou a ser entregar uma prótese nacional, de qualidade similar às estrangeiras feitas de fibra de carbono e acessível para quem precisa.

Para substituir a fibra por algo mais barato, a Revo Foot usa um material plástico injetável. “A biomecânica é similar e isso favorece a localização espacial, porque você consegue sentir todas as fases da marcha: apoio, balanço e equilíbrio.” As ideias inovadoras da dupla, como usar garrafas PET na fabricação dos modelos iniciais, renderam prestígio dentro e fora do país, como prêmios da Braskem e do Massachussetts Institute of Technology (MIT).

Diferenças

Lucas, que hoje toca a Revo Foot sozinho, estuda Engenharia Mecânica na Unisinos e segue incubando o projeto no laboratório da universidade. Entre os estudos e o desenvolvimento do produto – que inclui design, análise de performance e cálculo estrutural –, ele espera que o produto chegue ao mercado até o segundo semestre de 2017.

“Aliar as propriedades mecânicas de um material com a estrutura e a biomecânica de um ser humano caminhando é complexo”, diz ele, que se empolgou de vez quando constatou que o protótipo criado pela dupla aguentava 400 quilos de carga. Atualmente, há um paciente pioneiro que ajuda dando seu feedback.

Outro plano em curso é o desenvolvimento da estratégia de entrada no mercado. A ideia é oferecer algo entre 30% e 40% mais barato que a concorrência internacional e com crédito facilitado. “Se uma prótese fosse vendida a R$ 2 mil reais e paga em prestações, seria possível tirar grande parte dos pacientes da fila e oferecer um produto de qualidade sem explorá-los”, explica Lucas.

Não existem informações exatas sobre quantos brasileiros tiveram membros amputados, mas é possível ter noção do tamanho da situação. Em 2011, por exemplo, das 49 mil amputações realizadas pelo SUS, cerca de 94% foram num membro inferior. Estima-se também que, pelo país, 85% de todas as amputações sejam deste tipo.

Burocracia

Um dos obstáculos enfrentados tem sido obter a certificação necessária. Lucas explica que a prótese precisa ser certificada pelos órgãos apropriados, mas como o Brasil sempre importou próteses ortopédicas e aceita as certificações internacionais, está criando as normas necessárias agora – a pedido de Lucas e seus apoiadores, inclusive.

Captar investimento, aliás, é outro ponto delicado. “Há uma febre tremenda em relação aos apps e o investidor quer algo assim porque o desenvolvimento e a monetização são muito mais rápidos”, diz ele. “Para nós na área da indústria, é preciso ter documentações aprovadas, comprar maquinário, fazer moldes, pagar funcionários, encontrar mão de obra qualificada, matéria prima, fornecedor… O investimento é muito mais alto.”

Não é algo que o impede de tentar. Além de voar para São Paulo duas vezes ao mês, onde quer estabelecer um outro escritório, Lucas fechou parceria com uma empresa médica especializada e planeja um crowdfunding. “Como não estou vendendo o produto ainda, a geração de caixa é zero”, explica. “E como as transações jurídicas levam meses, precisamos de um montante de recursos para adiantar o processo.”

Ao mesmo tempo em que se prepara para deixar o ambiente universitário e entrar de fato no mundo dos negócios, Lucas desenha futuras possibilidade ergométricas, como joelhos e tornozelos, num caderno de esboços. Chegou a rejeitar uma proposta de emprego no Canadá para desenvolver seu sonho no Brasil. “O que mais quero é colocar esse produto no mercado e ter uma renda que é fruto de ajudar as pessoas”, conclui.

*Este artigo foi originalmente publicado pelo Na Prática, portal da Fundação Estudar.

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