Conseguir aportes é mais difícil para negócios de negros do que de brancos

Nos Estados Unidos, em média, 17% dos financiamentos para startups brancas vieram de investidores. Para as fundadas por negros, só 1,5%

A ideia de Marceau Michel para uma nova empresa de funcionários sob demanda, a Werkhorse, foi boa o suficiente para ganhar uma competição de startups e um lugar cobiçado em uma incubadora de tecnologia em Portland, no Oregon, há dois anos. Mas, não importava o que fizesse, Michel não conseguia o financiamento de que precisava.

Quando se encontrava com investidores brancos, suspeitava que não estivesse recebendo a atenção justa. “Era aquela situação delicada de ser um empresário negro. Continuei recebendo orientações que mais pareciam entraves.”

Disseram-lhe que ele deveria primeiro tentar obter mais dinheiro da família e dos amigos. Ou oferecer mais provas de que sua ideia realmente funcionaria. Ou vir conversar novamente em um futuro próximo.

Depois de meses de frustração, Michel deu um grito de revolta material: uma camiseta com a frase Black Founders Matter e o desenho de um punho em riste. Não havia nenhum plano por trás disso, e ele tinha pouco tempo para se dedicar à venda das camisetas. Então, criou um sistema de e-commerce no Shopify para automatizar suas vendas e voltou seu foco para a Werkhorse.

Enquanto ele estava distraído, essas camisetas mudaram o curso de sua carreira: foram as catalisadoras de um novo fundo de investimento dedicado a empresas de propriedade de negros, que o capitalista de risco acidental vê como entrelaçadas com a justiça racial.

Mesmo com a pandemia derrubando a economia, Michel levantou 1 milhão de dólares ao longo de um mês em meados deste ano. Essas contribuições foram chegando à medida que os protestos proliferavam pelos Estados Unidos em resposta à morte de George Floyd, o negro que morreu depois que um policial de Minneapolis, em Minnesota, passou mais de 8 minutos ajoelhado em seu pescoço.

A meta de 10 milhões de dólares do fundo é modesta em comparação com as estabelecidas pelos investidores do Vale do Silício — o tamanho médio dos fundos de capital de risco recentemente foi de 100 milhões de dólares, de acordo com dados da Pitchbook —, mas Michel planeja colocar seus recursos em empresas que ele vê como fortalecidas pelos obstáculos que precisam superar.

Em média, 17% dos financiamentos para startups brancas vieram de investidores, em comparação com 1,5% para os fundadores negros

Os negros fundadores de startups enfrentam muito mais dificuldade em levantar dinheiro do que seus concorrentes brancos. A Fundação Ewing Marion Kauffman, instituição de caridade com sede no Missouri que promove educação e empreendedorismo, entrevistou mais de 500 fundadores e descobriu que investidores externos colocam cerca de dois terços do dinheiro de que os proprietários de startups brancas precisam para começar seus negócios, enquanto os proprietários negros tiveram de colocar mais da metade do próprio bolso.

Em média, 17% dos financiamentos para startups brancas vieram de investidores, em comparação com 1,5% para os fundadores negros.

“Vejo a dor e a frustração de: ‘Você está me vendo? Sou viável.’ As iniquidades estão lá há muito tempo”, disse Philip Gaskin, vice-presidente de empreendedorismo da fundação, que trabalha com empresários negros para ajudá-los a levantar capital.

Vários grupos, como o Black Angel Tech Fund e o New Voices Fund, já se concentram especificamente em apoiar os proprietários negros de negócios, e eles são muito maiores do que a modesta operação de Michel.

O New Voices, por exemplo, dedicou todo o seu peso de 100 milhões de dólares para financiar startups de pessoas de cor. E neste momento de atenção redobrada sobre a equidade racial, a comunidade de capital de risco em geral tem se apressado em prometer apoio adicional para empresas de minorias.

Mas raramente um fundo é iniciado por alguém como Michel. Ele não dispõe de grande riqueza e não conta com o sucesso de uma startup. Em vez disso, está transformando as frustrações que enfrentou com sua primeira empresa em uma maneira de ajudar os outros a superar os mesmos desafios.

E, mais do que a maioria dos capitalistas de risco, Michel pode se ver nos donos de negócios que procura apoiar. Filho de imigrantes haitianos, ele cresceu em Nova York em uma família financeiramente segura, mas que não tinha muito dinheiro para investimentos especulativos como a Werkhorse. “Meus pais vieram da pobreza, por isso fizeram de tudo para atingir a estabilidade e me criar em um ambiente assim. Eles não tinham capital que pudessem me dar para investir.”

Mas, mesmo que as barreiras típicas que as startups de pessoas negras enfrentam estivessem atrasando a Werkhorse, o Black Founders Matter estava ganhando força.

Rick Turoczy, um dos fundadores do Portland Incubator Experiment, onde a Werkhorse estava baseada, exibiu as camisetas do Black Founders Matter em seu blog, o Silicon Florist. Até agora, Michel conseguiu cerca de 10.000 dólares com elas.

Ele começou a contar sua história para publicações de negócios locais, e isso teve repercussão. “Não havia muitas vozes, vozes negras, que se afirmavam nesse espaço. Aconteceu que fui um dos que chamaram a atenção.”

Uma reportagem da Black Enterprise Magazine foi vista pela mãe de uma repórter do TechCrunch, que então entrou em contato com Michel para um artigo. “Essa foi a entrevista que mudou o futuro do Black Founders Matter, porque ela perguntou o que eu queria fazer além de vender camisetas”, disse ele.

Sem hesitar, ele revelou a ideia de criar um fundo de risco para startups de propriedade de negros. Quando a repórter perguntou quanto dinheiro levantaria, ele escolheu um número — 10 milhões de dólares — e ficou surpreso quando isso se tornou a manchete.

Os conselheiros de Michel — incluindo Turoczy — viram uma oportunidade para ele. “Eles disseram: ‘Adoramos o que você está fazendo e queremos ajudar'”, contou Michel. Ele colocou a Werkhorse em modo de espera, e os líderes do Portland Incubator Experiment o apresentaram ao diretor gerente de um fundo de capital de risco com sede em Portland, o Rogue Venture Partners. Michel passou seis meses no Rogue absorvendo os costumes e procedimentos de investimento de capital de risco.

Em 14 de março de 2019 — seu 35º aniversário —, Michel estava pronto para apresentar seu fundo de risco. Ele o fez em um teatro lotado em Portland no festival anual da incubadora: o Pie Day, o evento máximo da cena das startups de Portland.

Michel explicou à plateia como os obstáculos que os empresários negros enfrentam tornam seus negócios mais resilientes e seguros para os investidores. Apontou que apenas 1% do investimento em startups de tecnologia foi para empreendedores negros e que, embora as mulheres negras possuíssem 12,5% de todos os negócios nos Estados Unidos, elas conseguiram apenas 0,02% do investimento.

E destacou exemplos de fundadores negros que se sobressaíram — e ganharam muito dinheiro para os investidores que se atreveram a ajudá-los. “Investir nos negros é financeiramente viável”, disse ele à audiência. Então, anunciou a criação do fundo Black Founders Matter.

Os últimos meses viram surgir obstáculos para o fundo de Michel, mas também um senso de propósito renovado. “Depois do início da pandemia, tudo parou para o fundo. Senti que talvez não fosse o momento certo para fazer isso”, afirmou ele.

Então, em maio, Floyd foi morto. De repente, a ideia de Michel não era mais um sussurro à margem da indústria de capital de risco, mas parte de uma discussão mais ampla sobre equidade racial.

Michel começou a participar de protestos em Portland e falou em algumas das reuniões. Ele acredita que acabar com a brutalidade policial é apenas o primeiro passo para a igualdade racial. “Se os policiais não matam mais negros, isso significa que a vida dos negros está inerentemente melhor?”, questionou.

Michel afirma que, sem melhores oportunidades para os negros americanos construírem sua riqueza, “ainda os estaremos apartando da prosperidade”.

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