Roberto Oliveira, da Blip: "Mais do que escolher entre pessoas ou IA, o desafio é orquestrar os recursos certos para cada momento da jornada" (showcake/Shutterstock)
Redação Exame
Publicado em 5 de julho de 2026 às 10h05.
Existe uma tendência recorrente no mercado de tecnologia: toda vez que surge uma inovação relevante, a atenção costuma se concentrar na ferramenta – e não no problema que ela almeja resolver.
Estamos vendo isso acontecer novamente com a inteligência artificial.
A cada semana, novos agentes, modelos e capacidades técnicas surgem no mercado. Mas enquanto muita gente debate se tal solução é melhor do que a concorrente, há uma pergunta estratégica que recebe menos atenção do que deveria: como transformar toda essa inteligência em resultados concretos para empresas e consumidores?
Nos últimos anos, a capacidade de conversar foi o grande diferencial da IA. Assistentes virtuais ficaram mais sofisticados e a experiência conversacional evoluiu rapidamente.
Depois de anos acompanhando bilhões de conversas digitais, uma conclusão ficou clara: conversar nunca foi o objetivo final. Empresas não investem em tecnologia para ter uma boa prosa.
Elas investem para vender mais, atender melhor, reduzir custos, aumentar eficiência e gerar crescimento.
É por isso que acredito que estamos entrando em uma nova etapa. O valor da IA não estará em responder perguntas de forma mais natural, mas em sua capacidade de gerar resultados.
Essa mudança exige uma visão mais ampla sobre o papel da tecnologia. O debate atual muitas vezes sugere que agentes generativos substituirão todas as outras formas de interação.
Na prática, não é bem assim. Há situações em que agentes são a melhor alternativa. Em outras, fluxos determinísticos ou a participação humana seguem sendo mais eficientes.
A própria evolução da IA reforça essa necessidade de escolha. O custo computacional continua sendo um fator relevante, o que torna ainda mais importante utilizar a tecnologia nos pontos da jornada em que ela realmente gera valor.
Mais do que escolher entre pessoas ou IA, o desafio é orquestrar os recursos certos para cada momento da jornada.
Acredito que essa capacidade de orquestração será um dos principais diferenciais competitivos dos próximos anos.
O futuro não será composto por um único agente responsável por toda a experiência. Será formado por agentes, modelos, sistemas e equipes trabalhando de forma coordenada para entregar uma experiência consistente.
Além da orquestração, vejo outra transformação acontecer nos bastidores. Até aqui, grande parte do mercado concentrou seus esforços na otimização das experiências conversacionais.
Agora, começamos a enxergar a conexão entre dois mundos que historicamente evoluíram de forma separada: a geração de demanda e a experiência do cliente.
Empresas investem em campanhas para atrair consumidores e constroem jornadas de atendimento, engajamento e conversão. A IA cria a oportunidade de conectar esses dois ciclos em um processo contínuo de aprendizado.
As informações geradas durante as conversas podem retroalimentar campanhas. As campanhas podem atrair usuários mais qualificados para as conversas.
Quanto melhor a experiência, mais dados são gerados. Quanto melhores os dados, mais eficiente se torna a aquisição de clientes. Surge, então, um ciclo permanente de otimização que conecta aquisição, conversão e retenção.
É em contextos como esse que a IA revela seu potencial. As conversas com clientes melhoram o atendimento, aceleram o desenvolvimento das jornadas e permitem que empresas evoluam mais rapidamente.
O resultado é uma mudança de paradigma, em que campanhas e experiências conversacionais deixam de operar separadamente e passam a evoluir juntas.
Não que a conversa não seja fundamental. O ponto é que ela não é o destino final da jornada, mas sim uma parte de uma engrenagem maior, construída para gerar valor de negócio.
Um ciclo único em que campanhas alimentam conversas e conversas alimentam campanhas.
Por isso, acredito que a pergunta mais importante sobre IA não é quantos agentes teremos nem quão potente será o próximo modelo lançado pelo mercado. O desafio está em como usar toda essa capacidade a serviço do crescimento.
No fim das contas, falar é fácil. Difícil é gerar resultado.
*Roberto Oliveira é cofundador e CEO da Blip, principal plataforma de inteligência conversacional. Estudou Educação Executiva, Inovação e Empreendedorismo na Universidade de Stanford e é graduado em Engenharia Elétrica e de Telecomunicações pela UFMG. Lança e desenvolve empresas de tecnologia, é co-fundador da Confrapar e da Minu, além de investidor-anjo em outras startups.