Negócios

Justiça ameaça anular aquisição da Ferrous pela Vale

Juíza do DF bloqueou as negociações até a mineradora apresentar um plano de compliance ambiental após desastres de Brumadinho e Mariana

Vale: se mineradora não apresentar o documento nos próximos 30 dias, justiça determinou anulação da aquisição (Pilar Olivares/Reuters)

Vale: se mineradora não apresentar o documento nos próximos 30 dias, justiça determinou anulação da aquisição (Pilar Olivares/Reuters)

EC

Estadão Conteúdo

Publicado em 7 de novembro de 2019 às 17h22.

São Paulo - A juíza federal substituta Diana Wanderlei, da 5ª Vara Federal do Distrito Federal, bloqueou as negociações de aquisição da Ferrous pela Vale até a mineradora apresentar um plano de compliance ambiental após os desastres de Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais.

O documento ainda deverá ser aprovado pela União para as negociações continuarem. Se a mineradora não apresentar o documento nos próximos trinta dias, a justiça determinou a anulação da aquisição.

A Vale planejava ampliar sua participação com a compra da Ferrous, autorizada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em julho passado. A manobra, no entanto, foi alvo de ação civil pública ajuizada pela senadora Soraya Thronicke (PSL-MS), que pedia à suspensão da compra "até a Vale comprovar que pagou as indenizações às vítimas, restaure os desastres ambientais, reconstrua as cidades afetadas e o comércio local".

Em julho, a juíza Diana emitiu liminar obrigando a Vale a apresentar uma proposta de compliance ambiental voltado para reparações e indenizações. À época, a magistrada permitiu a continuação da aquisição da Ferrous, mas afirmou que posição seria revista se a mineradora não apresentasse o documento ou o apresentasse com argumentos precários.

Ao não receber a proposta, a juíza reviu o pedido de liminar e determinou nesta quarta, 6, que a apresentação do programa de governança, que deverá ser aprovado pela União. Na sentença, Diana determina que a Advocacia-Geral da União deverá comandar o procedimento de aprovação do documento e que, poderá, 'ao seu critério', contar com a colaboração e participação interdisciplinar de vários órgãos.

"Até a aprovação da compliance ambiental da VALE S/A, não será possível a mineradora efetivar nenhuma medida de aquisição da FERROUS", determina a juíza. "Se em 30 dias a VALE S/A não apresentar ao juízo documentos que demonstrem que está organizando a implantação da sua compliance ambiental, nos moldes internacionais, ou está contratando empresa para tal finalidade, a aquisição será de plano anulada", conclui.

Inicialmente, o caso tentou ser resolvido por meio de audiências de conciliação entre Soraya e a Vale. Segundo a juíza Diana, a mineradora "expressamente informou que não teria interesse em firmar nenhuma proposta de acordo judicial".

"Na audiência de conciliação e instrução realizada pelo juízo, restou evidente que a VALE não possui uma estrutura preventiva organizacional adequada para a amplitude da atividade que exerce no Brasil, tudo a ensejar gravosa repercussão na esfera ambiental, e consequentemente, nos desastres a envolver várias vidas humanas", apontou a magistrada. "A política de governança e de compliance ainda não está implantado no âmbito de atuação da Vale no Brasil, embora passe impressão distinta à opinião pública em propaganda noticiada", continuou.

"Péssimo negócio"

Autora da ação civil pública contra a negociação, a senadora Soraya Thronicke classificou o autorização do Cade como "falha" por não considerar os impactos ambientais com efeitos socioeconômicos nas comunidades de Brumadinho e Mariana, ambos na região central de Minas Gerais. Os municípios registraram rompimento de barragens que deixaram mais de 270 mortos, incluindo funcionários da empresa.

Nos autos, a parlamentar afirma que a Vale foi um "péssimo negócio para Brumadinho", cidade que registrou em janeiro deste ano o rompimento de uma barragem da mineradora. O colapso provocou uma enxurrada de mais de 12 milhões de metros cúbicos de rejeito. O desastre também atingiu matas e rios da região.

Segundo a parlamentar, o município teve ainda consequências econômicas com a atividade da mineradora, visto que recebeu R$ 62,4 milhões a título de Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais no ano de 2018. A compensação é uma contrapartida paga por empresas a municípios em que atuam na extração de minérios. Soraya afirma nos autos que o valor pago pela Vale é "uma fração ínfima do valor necessário para recuperar" a cidade de Brumadinho.

Outro lado

A mineradora adotou o seguinte posicionamento: "A Vale não foi intimada da decisão e no momento adequado adotará as medidas cabíveis".

Acompanhe tudo sobre:ValeMariana (MG)Brumadinho (MG)

Mais de Negócios

Com receita secreta há 180 anos, bebida italiana quer repetir no Brasil sucesso que faz na Argentina

Ele transformou uma distribuidora do interior num supermercado de R$ 7,8 bi em Goiás

Após quebrar com o dólar em 2001, empresário criou operação logística que movimenta R$ 200 milhões

Arapuã: como a maior varejista de eletro do Brasil nos anos 1990 quebrou duas vezes