Homem de Ferro da Nestlé quer ser o Nespresso dos nutrientes

Companhia está criando um Nespresso para oferecer suplementos personalizados de acordo com as necessidades de cada indivíduo
Nespresso servindo um café: Nestlé quer servir também suplementos (Neilson Barnard/Getty Images)
Nespresso servindo um café: Nestlé quer servir também suplementos (Neilson Barnard/Getty Images)
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Matthew BoylePublicado em 23/06/2014 às 14:26.

Londres - A Nestlé ganhou bilhões de dólares servindo deliciosas doses de cafeína com as cafeteiras Nespresso. Agora, seus cientistas querem fornecer vitaminas e minerais muito mais necessários para pessoas de todo o mundo de um modo parecido.

O Nestlé Institute of Health Sciences (NIHS), um braço de pesquisa da maior empresa de alimentos do mundo, está desenvolvendo ferramentas para analisar e medir os níveis de dezenas de nutrientes essenciais das pessoas.

O objetivo é oferecer suplementos personalizados de acordo com as necessidades de cada indivíduo, possivelmente através de um aparelho não muito diferente das máquinas Nespresso – mas é possível que ainda demorem muitos anos para desenvolvê-lo.

O programa, com o codinome “Homem de Ferro”, é parte das iniciativas da empresa suíça para tratar desordens metabólicas, cerebrais e gastrointestinais com novos alimentos e bebidas.

No NIHS, mais de 110 cientistas estão trabalhando em projetos que envolvem de biomarcadores moleculares de obesidade ao descobrimento de conexões entre a deficiência de vitaminas e minerais e doenças como a diabetes, o câncer ou enfermidades cardiovasculares.

“O Homem de Ferro é uma análise do que está faltando na nossa dieta e um produto, personalizado para você, que ajudará a compensar essa diferença”, disse Ed Baetge, diretor do NIHS, durante um almoço na cafeteria do Instituto Federal de Tecnologia de Lausanne, Suíça, onde estão os pesquisadores da Nestlé.

“Antes, a comida era só comida. Agora estamos indo em uma nova direção”.

Qualquer produto derivado do Homem de Ferro seria mais eficaz do que os suplementos multivitamínicos vendidos nas farmácias, que não são ajustados a necessidades específicas, disse Baetge.

Em dezembro, o periódico Annals of Internal Medicine publicou um editorial dizendo que esses suplementos “não oferecem um benefício evidente e podem até ser prejudiciais”.

Tratamento para Alzheimer

O Nestlé Health Science já faz produtos nutricionais para diversas doenças, como Alzheimer e distúrbios genéticos que afetam o modo em que o organismo processa os alimentos.

A unidade é dirigida por Luis Cantarell, que também chefia o segmento de nutrição da Nestlé, de US$ 11 bilhões, e trabalhou no marketing de café previamente em sua carreira.

O Homem de Ferro, que começou no fim do ano passado e agora envolve quase 15 cientistas, tem uma missão muito mais abrangente do que as ofertas atuais de nutrição médica da Nestlé.

A pesquisa da Nestlé sobre nutrição personalizada poderia levar a “propostas de negócios que não poderíamos imaginar hoje”, disse Cantarell.

Ele reconhece, no entanto, que a era de alimentos completamente personalizados está muito mais longe do que os cinco a dez anos que os pesquisadores da Nestlé preveem – um ceticismo que é compartilhado, e amplificado, por alguns cientistas de fora.

“Não acho que a nutrição personalizada chegue ao nível dos indivíduos”, disse Ian Macdonald, diretor da Faculdade de Biociências da Universidade de Nottingham. “Se eles quiserem uma solução de alta tecnologia para o problema, não vai dar certo”.

Máquinas de US$ 500.000

Os cientistas do NIHS dizem que praticamente qualquer pessoa poderia se beneficiar ao saber mais sobre seu próprio “perfil nutricional”, uma marca exclusiva, como uma impressão digital, que contém informações sobre deficiências e excessos.

Criar essa marca é caro – entre US$ 50 e mais de US$ 200 por cada nutriente medido, de acordo com pesquisadores da Universidade de Minnesota –, então um perfil completo custaria muito mais de US$ 1.000.

Hoje, o NIHS começará a trabalhar com a Waters Corp., fabricante de equipamentos científicos com sede em Milford, Massachusetts, para decifrar os perfis nutricionais de indivíduos ou grupos.

Jornada nas estrelas

Há uma “necessidade real” de modos confiáveis e baratos para medir a deficiência de diversos nutrientes de uma vez, de acordo com Rolf Klemm, sócio sênior da Faculdade de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg.

Usando esses métodos, os pesquisadores poderiam medir a prevalência de carências e ajudar as pessoas a obterem os nutrientes específicos que elas necessitam.

A Nestlé prevê carregar os perfis nutricionais em uma máquina que poderia criar alimentos ou suplementos personalizados com as quantidades certas de, por exemplo, zinco ou vitamina K.

Os nutrientes poderiam vir em pó ou em uma cápsula, como os cafés Nespresso.

Embora demore anos de desenvolvimento, Baetge, diretor do NIHS, disse que o aparelho seria parecido com o “replicator”, que sintetizava as refeições a pedido no seriado de televisão “Jornada nas estrelas”.

“A comida sai depois de apertar um botão”, disse Baetge. “Se tivermos sucesso, esse poderia ser o próximo micro-ondas na sua cozinha”.