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Por dentro da Gomo Coop, o mercado onde todo cliente é sócio e funcionário

Um grupo de paulistanos juntou R$ 500 mil para criar o primeiro mercado cooperativo do Brasil, que estreou na primeira semana do ano; modelo usa do trabalho em comunidade para abaixar custos

Gomo Coop, em São Paulo: mercado cooperativo abriu as portas oficialmente no dia 06 de janeiro de 2026 (Camilla Almeida/EXAME)

Gomo Coop, em São Paulo: mercado cooperativo abriu as portas oficialmente no dia 06 de janeiro de 2026 (Camilla Almeida/EXAME)

Laura Pancini
Laura Pancini

Repórter

Publicado em 12 de janeiro de 2026 às 06h00.

Última atualização em 12 de janeiro de 2026 às 09h08.

Na Gomo Coop, mercado recém-inaugurado no centro de São Paulo, o cliente não só faz a compra do mês: ele também repõe itens nas prateleiras, ajuda a descarregar caminhão ou até passa um pano no chão. Em troca, tem acesso a produtos orgânicos e sem qualquer agrotóxico por um preço competitivo.

Todo cooperante, como são chamados, paga uma cota-parte de R$ 100 para virar dono do mercado. O modelo é conhecido como mercado cooperativo, e é o primeiro no Brasil e na América Latina. A ideia é que o trabalho da comunidade ajuda a baixar custos operacionais e, portanto, o preço final dos produtos.

Em Nova York, Paris e Madri, esse tipo de loja já existe há décadas. Na cidade americana, por exemplo, a Park Slope Food Coop tem cerca de 16 mil participantes e mais de cinquenta anos de história. Um balanço financeiro divulgado na metade de 2024 mostrava vendas líquidas na faixa dos US$ 55 milhões.

O crescimento em números não veio sem desafios: segundo o jornalista Pete Wells ao New York Times, o Park Slope é conhecido por brigas internas e regras complicadas, mas, claro, também pelas frutas frescas e leite orgânico barato. "Se a experiência provou alguma coisa, é que quando os membros têm voz na gestão do negócio, muitos a usam, e alguns a usam de forma alta e agressiva", escreveu.

Cooperativa à brasileira

Um dos idealizadores do projeto, Chico Lima, chegou a conhecer o Park Slope. “É uma bagunça muito organizada”, conta. O ator ficou inspirado e, quando fez uma aula sobre cooperativismo em São Paulo em 2021, se juntou aos outros 30 e poucos participantes para pensar em como replicar o modelo no Brasil.

Foram quatro anos de reuniões online, planilhas e estudo de cooperativismo até que o grupo fundador juntasse dinheiro e encontrasse um imóvel. No meio do caminho, consultas com cooperativas irmãs da Europa e dos Estados Unidos ajudaram a desenhar o modelo.

Para tirar o projeto do papel, o grupo levantou cerca de R$ 430 mil em empréstimos entre os próprios idealizadores — dinheiro que começa a ser pago de volta em cinco anos — e fez ainda uma campanha de financiamento coletivo que arrecadou outros R$ 100 mil, usada para a primeira grande compra de produtos.

Hoje, a segurança de caixa vem também do chamado capital social: cada cooperante compra uma única cota-parte de R$ 100 ao entrar na Gomo, valor que pode ser devolvido se a pessoa decidir sair no fim do ano fiscal.

“Quanto mais gente, mais baixo o preço consegue ser”, diz Lima. Por enquanto, a Gomo Coop tem 358 cooperantes (ou seja, já conquistaram perto de R$ 36.000 somente em cota-parte) e quer chegar a 700 nos próximos meses. Apesar de ter feito alguns testes em dezembro, abriu as portas oficialmente na primeira semana de 2026.

Caixotes da Gomo Coop:

Caixotes da Gomo Coop: ideia é ter até 700 cooperantes nos próximos meses (Camilla Almeida/EXAME)

Como funciona?

As regras são simples: quem entra na cooperativa participa de uma reunião de boas-vindas, compra a cota de R$ 100 e já sai de lá com o primeiro turno agendado. Todo dia alguém veste o avental e se dedica a tarefas como organização de estoque, limpeza do ambiente ou atendimento no caixa.

Fora do mercado, vivem uma vida que não tem nada a ver com varejo: são atores, professores, designers, psicólogos e mais. Eles trabalham em conjunto com uma das únicas quatro pessoas contratadas, que recebem hoje R$ 4 mil por 36 horas semanais.

Para manter as portas abertas nesse início de projeto, o mercado atende tanto os cooperantes quanto o público geral. Há uma diferença mínima de valores nos produtos, entre R$ 1 a R$ 3 a mais para quem não faz parte da Gomo. A entrada liberada é para garantir capital de giro e, quem sabe, novos cooperantes.

Cada cooperante se compromete a trabalhar três horas a cada 28 dias, em troca de preços mais baixos nas prateleiras e poder de decisão sobre os rumos do mercado. Uma vez por ano, participam da Assembleia Geral anual para prestar contas e decidir quem vai compor os conselhos administrativo e fiscal.

Na primeira Assembleia, marcada para daqui a alguns meses, a ideia é discutir se a operação segue aberta ao público ou passa a atender apenas cooperantes, como fazem as cooperativas que inspiraram o projeto lá fora. Já o dia a dia, como toda boa comunidade brasileira, segue sendo organizado pelo grupo no WhatsApp.

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