Empresas acreditam que esse valor é importante, mas não cumprem

Ainda que o assunto seja importante para diretores de recursos humanos, as políticas são vagas e têm pouco impacto, diz pesquisa

São Paulo – Diversidade é um tema constante na pauta das empresas. De propagandas a campanhas internas, o assunto está na boca dos gestores. Empresas chegam a afirmar que, sem um time diverso, é impossível criar produtos que atendam ao público, que também é bastante diferente.

Mais do que isso, para a Mastercard e a SAP, diversidade é um valor que pode até aumentar o lucro da companhia.

No entanto, as políticas para aumentar a diversidade têm pouco impacto no dia a dia da companhia e o preconceito contra quem é diferente permanece.

É o que descobriu uma pesquisa feita pela consultoria brasileira 4CO. Bruno Carramenha e Thatiana Cappellano, sócios da organização, entrevistaram gestores e funcionários de 11 das 20 maiores empresas do Brasil, de acordo com o levantamento da Forbes.

Segundo eles, diversidade é um tema difícil para as empresas por ser amplo – e exigir transformações profundas em diversos processos corporativos. O estudo considerou diversos aspectos da diversidade, como gênero, orientação sexual, religião, cor e pessoas com deficiência.

A pesquisa foi qualitativa, composta por longas entrevistas. Nelas, os entrevistados disseram que “diversidade, ao menos atualmente, é mero modismo nas empresas”. “O tema existe, mas as empresas não têm preparo para lidar com ele”, afirmou Cappellano.

Outro estudo, feito nos Estados Unidos, descobriu que as empresas não querem sequer relevar se estão tendo sucesso nessa área ou não. Apenas 45% das empresas revelam o gênero de diretores, e cerca de 40% revelam a raça ou etnia, de acordo com a consultoria Equilar, de documentos regulatórios de 500 das maiores empresas de capital aberto negociadas nos EUA.

Os discursos da gestão são vazios e as políticas para aumentar a diversidade são vagas, de acordo com a consultoria 4CO. Assim, muitas vezes, o que se vê nos cartazes preparados pelo departamento de Recursos Humanos não é a prática das equipes.

“Quando presenciam situações de discriminação, muitos gestores não se posicionam, porque não querem ter envolvimento no assunto sem o respaldo da alta liderança”, disse Carramenha.

Ainda que existam políticas internas, poucas mudanças são feitas na prática e esse tema não é levado em conta na hora de planejar produtos e atendimento. Até o Google, empresa tida como exemplo no tema, foi processado por pagar menos a mulheres do que pagava a funcionários homens.

Como consequência, os resultados dessas políticas não são sentidos pelos funcionários. De acordo com um relatório do The Boston Consulting Group (BCG), 84% dos gestores pesquisados disseram que sua organização estava se empenhando para melhorar a diversidade de gênero. Mesmo assim, entre as mulheres pesquisadas, 44% afirmaram que suas empresas não tinham boa diversidade de gênero na equipe de alta gestão.

Assim, o preconceito continua latente entre os funcionários. Gestores e colaboradores continuam comentando nos corredores sobre o jeito de um funcionário ou sobre a vida pessoal de uma colaboradora.

Um entrevistado pela consultoria 4CO disse que, ainda que a empresa tenha políticas para acolhimento de Pessoas com Deficiência (PCD), esses funcionários são excluídos do convívio social e não são convidados para o almoço, por exemplo. Outro entrevistado afirmou que uma gestora fazia piadas sobre PCDs, sem se dar conta que isso atingia a própria funcionária.

Ainda há um longo caminho para percorrer para que a diversidade de torne um valor intrínseco à companhia, ao invés de um discurso vazio, diz a pesquisa.

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