Anderson Marques, da Nova Saúde: “Em saúde, crescer rápido demais pode ser tão arriscado quanto não crescer. Preferimos previsibilidade em vez de volume” (Divulgação/Divulgação)
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Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 13h51.
A saúde suplementar brasileira atravessou, nos últimos anos, um ciclo de retração. Operadoras reduziram portfólios, desaceleraram investimentos e recuaram em novos mercados diante do aumento de custos, da judicialização e da pressão sobre margens.
Foi nesse cenário adverso que a Nova Saúde nasceu — e cresceu em ritmo oposto ao do setor.
Fundada em outubro de 2024, a operadora saiu do zero para uma projeção de R$ 100 milhões em receita anual em apenas 14 meses.No mesmo período, registrou crescimento de 230% na receita, ultrapassou 25 mil beneficiários e ampliou em 67% sua base de vidas em 12 meses. Enquanto concorrentes encolhiam, a empresa mais que dobrou seu quadro de colaboradores, saltando de 30 para 140 pessoas.
Por trás dos números está uma aposta clara: reorganizar o cuidado antes de escalar o negócio.
Para Anderson Marques, CEO da Nova Saúde, o desempenho acelerado não é resultado de movimentos pontuais, mas de uma decisão estrutural tomada desde o início.
“A Nova Saúde nasceu em um momento em que o setor já dava sinais claros de esgotamento do modelo tradicional. Isso nos obrigou a começar pelo que normalmente é deixado para depois: a organização do cuidado”, afirma.
Desde o primeiro dia, a atenção primária foi desenhada como eixo central da operação, com acompanhamento contínuo, vínculo com o paciente e decisões clínicas mais previsíveis.
Em vez de crescer vendendo planos para depois lidar com o aumento de custos assistenciais, a empresa estruturou um modelo capaz de sustentar a expansão.
“O mais difícil foi conter a velocidade”, diz o executivo. “Em saúde, crescer rápido demais pode ser tão arriscado quanto não crescer. Tivemos oportunidades de expansão mais acelerada, mas que exigiriam renunciar ao controle assistencial e operacional. Preferimos previsibilidade em vez de volume.”
Essa escolha aparece menos nos números de curto prazo, mas, segundo Marques, é o que garante sustentabilidade no médio e no longo prazo.
Antes de liderar a Nova Saúde, Anderson Marques construiu uma trajetória executiva ligada à saúde suplementar e à gestão de operações, com passagem por posições de liderança que o colocaram diretamente em contato com os gargalos estruturais do setor.
Além disso, atuou como CEO da SAMIG Saúde e como gerente de contratos na Cedae Saúde, onde participou de processos de expansão, relacionamento com fornecedores e organização de estruturas operacionais.
Essa vivência moldou a visão que daria origem à Nova Saúde. Formado em Administração e com pós-graduação em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas, Marques defende que a saúde precisa ser pensada como um sistema de longo prazo, no qual prevenção, atenção primária estruturada e previsibilidade assistencial caminham juntas.
A decisão de fundar a Nova Saúde, em outubro de 2024, surgiu justamente da percepção de que o modelo tradicional estava esgotado.
Em vez de reproduzir uma lógica centrada em volume e reação a custos, o executivo optou por desenhar um negócio ancorado em vínculo, organização do cuidado e disciplina operacional — escolhas que, meses depois, se refletiriam nos números.
Não houve um momento único de virada, mas um conjunto de indicadores que mostrou que o modelo estava funcionando. A maior parte das demandas passou a ser resolvida na atenção primária, com redução consistente de idas desnecessárias ao pronto atendimento e maior adesão dos beneficiários ao acompanhamento contínuo.
“Quando cuidado e gestão caminham juntos, os números passam a confirmar a estratégia”, afirma o CEO. A melhora na experiência do paciente veio acompanhada de maior previsibilidade financeira, um dos pontos mais sensíveis da saúde suplementar.
Em vez de uma expansão nacional acelerada, a Nova Saúde apostou em um crescimento regional. A operação começou no Rio de Janeiro e avançou para Espírito Santo, Pernambuco, Maranhão, Distrito Federal e Goiás.
No Espírito Santo, a empresa já opera quatro clínicas exclusivas, em Cariacica, Vitória, Serra e Vila Velha. Duas delas contam com pronto atendimento por 12 horas, sete dias por semana, peça-chave no modelo de cuidado contínuo.A estratégia regional permitiu adaptar o cuidado às características de cada localidade e organizar uma rede credenciada que hoje soma mais de 2.600 pontos de atendimento.
“Operar regionalmente não é pensar pequeno. É pensar com precisão”, diz Marques. “Cada região tem seu jeito, sua demanda e seu ritmo, e nosso papel é entregar exatamente o que aquele público precisa.”
Segundo o executivo, entender o território reduz desperdícios, aumenta eficiência e diminui riscos na hora de escalar.
Embora sejam vistas como um investimento elevado, as clínicas exclusivas ocupam papel central no modelo da Nova Saúde. Mais do que espaços físicos, funcionam como centros de coordenação do cuidado.
“É nelas que o paciente cria vínculo, onde o histórico clínico é acompanhado de forma contínua e onde decisões mais qualificadas são tomadas”, afirma o CEO. Esse acompanhamento reduz exames desnecessários, internações evitáveis e o uso inadequado da rede.
Do ponto de vista financeiro, o retorno não vem apenas da receita direta das unidades, mas da eficiência que elas geram em toda a operação.
A tecnologia entrou como ferramenta de apoio à decisão clínica e à gestão do cuidado. A operação digital integra histórico clínico, dados assistenciais e resultados de exames, permitindo identificar riscos mais cedo e organizar fluxos assistenciais.
A parceria com a operadora de saúde Dasa ampliou o acesso à telemedicina 24 horas e reforçou a atuação preventiva. “Usamos tecnologia para prever riscos, reduzir a necessidade de deslocamentos e melhorar o cuidado. É tecnologia que aproxima, não que substitui a relação entre médico e paciente”, diz Marques.O avanço operacional exigiu investimentos em infraestrutura, tecnologia, rede assistencial, marketing e vendas.
O crescimento levou a empresa a gerar 120 empregos diretos e mais de 100 indiretos, além de reaquecer o mercado de vendas para administradoras e corretoras que haviam perdido opções de operadoras para ofertar.
“Conseguimos acelerar, gerar empregos e movimentar toda a cadeia de distribuição em um período em que muitos estavam recuando”, afirma o executivo.
“São Paulo exige preparo, estrutura e responsabilidade. É o maior mercado de saúde do país e não é um local para testes ou improvisos”, diz Marques. A estratégia é replicar, com disciplina, um modelo já validado em outras regiões, sem priorizar crescimento acelerado em detrimento da sustentabilidade.
Caso os indicadores não performem como esperado, ajustes de ritmo, escopo ou desenho da operação fazem parte do plano. “Sustentabilidade vem antes de volume”, afirma.
Além de São Paulo, a Nova Saúde planeja, para 2026, a abertura de novas clínicas exclusivas e lojas de atendimento em outras capitais. A meta é alcançar 50 mil vidas até o fim do primeiro trimestre de 2026.
Para Anderson Marques, crescer em saúde vai além de ganhar escala.
“O grande desafio do setor não é crescer, é crescer de forma coerente com o cuidado”, diz. “Construímos uma base sólida antes de acelerar. É isso que permite manter qualidade assistencial mesmo em ciclos de crescimento rápido.”