Thais Nolasco (esquerda) e Rafaela Helbing (direita), fundadoras da Data Rudder: empresa quer dobrar a capacidade de processamento e chegar a até 20% do volume total de Pix no Brasil (Data Rudder/Divulgação)
Repórter
Publicado em 30 de dezembro de 2025 às 16h35.
Em um ano em que golpes digitais e tentativas de fraude pelo Pix se tornaram rotina no noticiário, uma empresa de 40 pessoas em Florianópolis dobrou de tamanho: a Data Rudder, especializada em tecnologia antifraude, encerrou 2025 com alta de 131% no faturamento, monitorando cerca de R$ 40 bilhões por mês em transações.
O crescimento veio puxado por um avanço de 248% em novos negócios e de 224% na base de clientes em relação a 2024 – hoje, a empresa atende mais de 200 instituições, incluindo 60% dos maiores players de banking as a service (BaaS) do país, modelo em que empresas oferecem infraestrutura bancária a outras marcas.
No coração da operação está o DeLorean, sistema antifraude transacional criado para o Pix que analisa, em até 200 milissegundos, o risco de uma transferência, do cash-in ao cash-out.
Baseada em modelos de inteligência artificial treinados individualmente para cada cliente, a plataforma cruza histórico de comportamento, relação entre contas e regras do Banco Central, além de apoiar instituições na adequação à Resolução Conjunta nº 6, que trata de prevenção à fraude e lavagem de dinheiro.
O DeLorean, carro-chefe da companhia, recebe múltiplas camadas de dados – transacionais, cadastrais, de dispositivo e até sinais “fora do padrão”, como alterações específicas no celular que possam indicar comprometimento da biometria.
Diferente de muitos sistemas fechados, a plataforma já nasce preparada para ingerir novos tipos de informação sem exigir integrações demoradas sempre que surge uma modalidade inédita de fraude. Isso permite que clientes criem regras e políticas com rapidez, à medida que descobrem novas maneiras de ataque.
Para acompanhar esse movimento, a Data Rudder mantém um time dedicado de cientistas de dados e especialistas. São nove profissionais focados em monitorar operações, detectar novas modalidades de fraude e apoiar instituições na resposta a incidentes. Ao todo, a empresa soma cerca de 40 colaboradores.
Por trás dos algoritmos está a curitibana Rafaela Helbing. A carreira na estatística começou no banco HSBC e terminou no empreendedorismo. Hoje CEO da Data Rudder, a jovem se mudou para Santa Catarina, conheceu o ecossistema de startups e nunca mais olhou para trás.
Em Florianópolis, Rafaela conheceu a sócia Thais Nolasco (hoje diretora de operações) em um contexto improvável: as duas formaram uma banda de rock, com Rafaela no baixo e Taís na bateria, tocando clássicos como Beatles e The Smiths em bares da cidade – só depois descobriram que trabalhavam na mesma empresa de tecnologia.
A afinidade musical virou discussão sobre dados, usabilidade e risco no sistema financeiro e desembocou na ideia de criar um produto que tornasse inteligência artificial e machine learning mais fáceis de aplicar para times de risco e fraude.
A Data Rudder começou a ser desenhada em 2020, com foco em risco de instituições financeiras. A guinada definitiva veio em 2023, quando a empresa decidiu concentrar esforços em fraude transacional, mirando o crescimento acelerado do Pix e o aumento da pressão regulatória sobre bancos, cooperativas e novas instituições de pagamento.
A executiva faz questão de frisar o “DNA brasileiro” como diferencial competitivo. Os principais concorrentes diretos são estrangeiros, com produtos adaptados ao Pix, enquanto a Data Rudder nasceu precisamente para endereçar esse tipo de fraude.
Entender na prática como funcionam golpes de WhatsApp, sequestros-relâmpago digitais e engenharia social voltada à realidade local, segundo ela, torna a calibração dos modelos de risco mais eficaz. “É a minha avó que pode cair num golpe de WhatsApp. Sabemos como isso acontece aqui”, diz.
Se a primeira fase da empresa foi entender cada transação em tempo real, a próxima aposta mira o que Rafaela chama de “risco sistêmico”.
Em testes para lançamento em 2026, um novo módulo passa a analisar o ecossistema inteiro do cliente – e não apenas transferências isoladas – para identificar ataques em que milhares de operações pequenas, como Pix de R$ 200, se somam a um rombo de bilhões.
A proposta é mapear padrões que, vistos individualmente, não chamariam atenção, mas que em conjunto denunciam invasões coordenadas a APIs e sistemas de pagamento.
A meta é crescer com “pé no chão”. A Data Rudder quer dobrar a capacidade de processamento e chegar a até 20% do volume total de Pix no Brasil. Tudo sem perder o foco em um ponto sensível: a confiança de quem transfere dinheiro em segundos, mas espera que a proteção seja igualmente rápida.