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Do improviso ao topo: Arquiteto de Bolso cresce com IA treinada no Brasil

Arquiteto de Bolso nasceu num trailer improvisado e hoje é uma das principais referências em inteligência artificial aplicada ao mercado imobiliário na América Latina

Daniel Alves e Márcia Monteiro, da Arquiteto de Bolso: empresa já captou mais de R$ 20 milhões em quatro rodadas (Divulgação/Divulgação)

Daniel Alves e Márcia Monteiro, da Arquiteto de Bolso: empresa já captou mais de R$ 20 milhões em quatro rodadas (Divulgação/Divulgação)

Karla Dunder
Karla Dunder

Freelancer

Publicado em 23 de novembro de 2025 às 08h03.

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“Tudo sempre foi mais difícil, levou mais tempo e custou mais caro do que imaginávamos. Mas toda vez que enfrentamos um desafio, saímos maiores do outro lado.”

A frase de Daniel Alves, cofundador do Arquiteto de Bolso, resume o espírito de uma empresa que nasceu dentro de um trailer improvisado e hoje se posiciona como uma das principais referências em inteligência artificial aplicada ao mercado imobiliário na América Latina.

O lançamento recente do Meu Decorado, ferramenta de ambientação digital hiper-realista para construtoras, incorporadoras e imobiliárias, marca a entrada definitiva da empresa na fronteira entre tecnologia e design.

A solução recebeu R$ 7 milhões em investimentos e chega em um momento estratégico para o setor.

Enquanto a consultoria McKinsey estima que a IA generativa possa gerar até US$ 180 bilhões no mercado imobiliário global, apenas 19% das imobiliárias brasileiras utilizam alguma forma de IA, segundo Brain/Abrainc.

O vácuo é enorme, e o Arquiteto de Bolso está entre os primeiros a ocupar esse espaço.

A chegada do produto acontece em meio a números inéditos para a empresa: mais de 100 mil ambientes reais transformados por arquitetos, 300 mil ambientes gerados por IA, e resultados expressivos nos parceiros — como a Lello Imóveis, que registrou um aumento de 72,1% de usuários ativos e 68,8% mais acessos aos imóveis tratados com IA.

A jornada: do trailer na Vila Madalena ao maior player da América Latina

A história do Arquiteto de Bolso começa de forma tão inusitada quanto simbólica.

Em 2017, com um investimento inicial de R$ 300 mil, os cofundadores estacionavam um trailer adaptado em bairros de São Paulo para oferecer consultorias rápidas de design de interiores.

A operação exigia montar e desmontar o espaço diariamente — e rendeu episódios que se tornaram folclóricos dentro da empresa. Em um deles, o trailer começou a descer uma ladeira na Vila Madalena.

“A Márcia correu para tentar segurar o trailer com as mãos. Eu fui atrás — já sabendo que não ia resolver nada — mas não ia deixar minha sócia sozinha”, recorda Daniel. “Por sorte, apareceu um homem enorme que segurou o trailer sozinho.”

Perrengues à parte, o modelo revelava um ponto crucial do mercado: o brasileiro deseja ajuda profissional para reformar, mas sente que esse serviço não cabe na sua realidade. E os dados confirmam: 90% das reformas no país são feitas sem acompanhamento técnico, embora 70% das pessoas gostariam de ter suporte especializado.

Aos poucos, a empresa estruturou uma metodologia própria e transformou o trailer em uma operação digital.

Nascia a consultoria online de 90 minutos, com três versões de solução, layout 2D, imagem 3D, tour 360°, lista de compras com comparador de preços, guia de obra e acesso opcional a crédito para reforma. O preço parte de R$ 199 ou pode ser oferecido gratuitamente por imobiliárias parceiras.

“Arquitetura não é estética. É ciência do bem-estar”, explica Márcia Monteiro.

“Cores, luz, acabamentos e disposição dos móveis interferem diretamente na saúde e na performance das pessoas. A nossa missão sempre foi democratizar esse acesso.”

Da consultoria ao produto de IA

Ao longo de oito anos, o Arquiteto de Bolso acumulou mais de 100 mil ambientes reais projetados, que geraram um banco de 2 milhões de imagens — uma base proprietária que nenhuma outra empresa do setor possui.

Esse acervo serviu de combustível para treinar a IA que hoje compõe o Meu Decorado. Segundo Daniel, o treinamento só começou a mostrar resultado realmente robusto quando ultrapassou a marca de 1 milhão de imagens.

A solução vai além da renderização tradicional: utiliza quatro agentes de inteligência artificial para avaliar a qualidade da foto, identificar o tipo de ambiente, renderizar o espaço e garantir coerência de estilo, mantendo portas, janelas, iluminação e proporções reais.

O efeito prático é a criação de ambientações hiper-realistas, alinhadas aos 30 estilos brasileiros exclusivos desenvolvidos pela empresa.

A tecnologia difere do modelo adotado por players como a americana Zillow, que compra empresas de virtual staging baseadas em renderizações manuais.

No caso brasileiro, a aplicação funciona em tempo real, integrada diretamente ao site das imobiliárias. Isso permite que o consumidor teste diferentes decorações, gere novas versões e compartilhe as imagens — alimentando a geração de leads para o time comercial.

“Vender um imóvel é vender um sonho. E ninguém sonha olhando para uma sala vazia”, diz Márcia.

O lado invisível de escalar uma startup

O avanço da empresa exigiu mais do que tecnologia. Entre investimentos e reinvestimentos, o Arquiteto de Bolso já captou mais de R$ 20 milhões em quatro rodadas, com ACE Startups, Bossa Nova, GVAngels, Grupo Primo e Headline XP. Mas houve períodos críticos entre uma rodada e outra.

“Tivemos que vender carro, casa, apartamento e ainda pedir empréstimo pessoal no banco”, conta Daniel.

“A Márcia pediu R$ 250 mil emprestado para a mãe. E pagamos tudo.” A combinação de sacrifício pessoal e leitura de mercado ajudou o negócio a sobreviver a fases de instabilidade — e a encontrar novas avenidas de crescimento, como a aproximação do mercado imobiliário.

Para Daniel, essa resiliência é resultado de um princípio que aprendeu com o pai: “Se houver divergência entre o mapa e o terreno, confie no terreno. É isso que fazemos desde o começo.”

Ambiente decorado com ajuda da IA: ambientações hiper-realistas e alinhadas aos estilos brasileiros (Divulgação/Divulgação)

A consolidação: liderança na América Latina e ambição global

Com o acúmulo de ambientes reais e digitais, o Arquiteto de Bolso afirma ter ultrapassado o volume da americana Havenly, posicionando-se como a empresa com o maior número de ambientes transformados no mundo dentro de seu segmento. A meta é superar 1 milhão de ambientes até 2026, e expandir para mercados internacionais.

O plano também inclui ampliar a comunidade de arquitetos e designers que atuam na plataforma, evoluir capacidades de vídeo com IA — já em testes, inclusive com “corretores virtuais” — e oferecer novos serviços financeiros para apoiar reformas.

“Nosso papel é ser a ponte entre o sonho da casa ideal e a realidade acessível”, diz Márcia. “O brasileiro passa 30 minutos por dia imaginando sua casa ideal. Agora, ele pode ver — e realizar.”

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