Pedro Lourenço de Oliveira, dono da Supermercados BH: “Meus amigos diziam que não ia dar certo vender na periferia, e minha esposa queria que eu desistisse. Mas eu não ligo para o que os outros pensam” (Pedro Silveira/Exame)
Repórter de Negócios
Publicado em 28 de dezembro de 2025 às 07h10.
Pedro Lourenço de Oliveira abriu sua primeira mercearia em 1996, na periferia de Santa Luzia, na Grande Belo Horizonte.
Filho de lavradores, com apenas o 8º ano do ensino fundamental, ele havia começado a trabalhar como carregador em supermercados.
Vinte e nove anos depois, está à frente do Supermercados BH, a maior rede do setor em Minas Gerais e a quarta maior do país — à frente, inclusive, do tradicional Grupo Pão de Açúcar.
Em 2024, a rede faturou 21,2 bilhões de reais, com 338 lojas em operação e mais de 39 mil funcionários. Foi a primeira vez que o BH ultrapassou o GPA no ranking nacional, de acordo com o levantamento da Associação Brasileira de Supermercados (Abras).
O estilo de crescimento — baseado em escala, produtos populares e aquisições oportunistas — garantiu à empresa uma presença forte no estado e o respeito do setor.
A movimentação mais recente veio em fevereiro de 2025, quando o Supermercados BH assinou um acordo para comprar as operações do Bretas em Minas Gerais, então controladas pela chilena Cencosud.
O negócio, avaliado em 716 milhões de reais, inclui 54 lojas, oito postos de combustíveis e um centro de distribuição.
Enquanto outras redes testam formatos digitais e omnichannel, o BH segue apostando no modelo tradicional.
Em entrevista recente para o jornal Folha de S.Paulo, "Pedrinho", como é conhecido, falou que não aposta em compras no online e o que gosta, mesmo, é de colocar as pessoas dentro das lojas, principalmente as de tamanho médio, entre 1.000 e 2.000 metros quadrados.
Alguns anos antes, à EXAME, Lourenço falou que a aposta de "comer pelas beiradas" foi a mais certeira. “Meus amigos diziam que não ia dar certo vender na periferia, e minha esposa queria que eu desistisse. Mas eu não ligo para o que os outros pensam”, disse Lourenço à EXAME em 2017.
O BH começou focado em regiões com pouca concorrência: bairros periféricos e pequenas cidades do interior de Minas.
A aposta era simples — produtos acessíveis, marcas populares e operação de custo baixo.
Com o tempo, foi comprando mercados menores e usando a própria estrutura para crescer, sem depender de investidores ou tecnologia de ponta.
Em 2004, Lourenço vendeu 40% da rede para dois sócios e usou o capital para acelerar a expansão.
O modelo seguiu o mesmo: escolher regiões pouco visadas pelas grandes redes e explorar a vantagem de escala para negociar melhores preços com fornecedores. A estratégia permitiu à empresa alcançar resultados robustos com margem controlada.
A aquisição das lojas do Bretas pode ser o maior movimento estratégico da rede desde sua fundação.
Além de incorporar unidades bem localizadas e um novo centro de distribuição, o negócio também tira um concorrente direto do jogo. A operação mineira do Bretas, sozinha, faturou 1,5 bilhão de reais em 12 meses até o terceiro trimestre de 2024.
Com isso, o BH reforça sua posição em praças importantes e se torna ainda mais relevante na negociação com fornecedores.
Também amplia sua malha logística, o que pode gerar ganhos operacionais — em um momento em que o setor vive guerra de preços e margens apertadas.
Apesar da posição de destaque, o Supermercados BH ainda opera de forma analógica.
A empresa não tem e-commerce próprio, não aposta em delivery e mantém um modelo simples, baseado em loja física e giro rápido.
Essa abordagem funcionou bem até aqui, mas começa a ser pressionada pela digitalização do varejo e pela mudança de hábitos do consumidor. A concorrência com atacarejos, como Assaí e Mart Minas, também se intensifica. Esses modelos, com foco em autosserviço e menor estrutura, atraem o público que antes buscava supermercados de bairro — justamente o nicho onde o BH construiu seu império.
Mesmo sem planos públicos de expansão nacional, o BH segue em ritmo de crescimento.
A incorporação das lojas Bretas em Minas é o principal exemplo.
Mas fora do varejo, Pedro Lourenço também passou a mirar outro tipo de vitrine. Em 2024, comprou a SAF do Cruzeiro, seu clube do coração, em uma transação de 600 milhões de reais. No futebol, a aposta é emocional. No varejo, o jogo continua sendo ganho loja por loja.
Assista ao Choque de Gestão, programa de empreendedorismo da EXAME: