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Da periferia ao crédito privado: a startup que quer organizar R$ 700 bilhões

Criada por um empreendedor que nasceu no Capão Redondo, periferia de São Paulo, a Vitrify usa tecnologia para dar transparência ao mercado de crédito privado e já mira o breakeven em 2025

Edson Lopes, da Vitrify: "Se alguém quiser entender risco, eventos e oportunidades, a gente quer que olhe primeiro para a Vitrify" (Divulgação/Divulgação)

Edson Lopes, da Vitrify: "Se alguém quiser entender risco, eventos e oportunidades, a gente quer que olhe primeiro para a Vitrify" (Divulgação/Divulgação)

Karla Dunder
Karla Dunder

Freelancer

Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 14h02.

Última atualização em 27 de janeiro de 2026 às 18h29.

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O mercado brasileiro de crédito privado cresceu, ficou mais complexo e ganhou escala. Mas os dados continuaram fragmentados, espalhados em documentos, eventos e bases que não conversam entre si.

É nesse ruído que a Vitrify aposta sua tese: organizar tudo em uma única tela e transformar informação dispersa em decisão prática.

A empresa nasce oficialmente em 2025 para atacar um gargalo conhecido de gestores, analistas e investidores institucionais: falta de padronização, baixa transparência e muito trabalho manual para acompanhar debêntures, CRI e CRA.

Agora a Vitrify acaba de concluir seu spin-off, sair do papel e entrar em operação com clientes pagantes, receita recorrente e uma ambição clara de se tornar a infraestrutura informacional do crédito privado no Brasil.

“O nosso sonho é ser a tela de referência desse mercado. Se alguém quiser entender risco, eventos e oportunidades, a gente quer que olhe primeiro para a Vitrify”, afirma Edson Lopes, CEO e cofundador.

O plano é escalar rápido, atingir o breakeven nos próximos meses e ampliar o uso de tecnologia para extrair mais valor de um mercado que movimenta cerca de R$ 70o bilhões por ano, segundo estimativas internas da companhia.

Da periferia de São Paulo ao mercado financeiro

A trajetória de Edson Lopes ajuda a entender a obsessão por eficiência. Criado no Capão Redondo, na periferia de São Paulo, ele teve contato com computadores ainda criança, graças a um tio programador. Decidiu cedo que tecnologia seria o caminho, mesmo quando isso significava ganhar metade do salário para começar como estagiário em desenvolvimento.

“Eu podia ganhar o dobro como office boy, mas escolhi tecnologia. Era menos dinheiro, mas era profissão”, diz.

Lopes trabalhou desde os 15 anos, pagou curso técnico, depois faculdade à noite, sempre conciliando estudo e trabalho. Entrou no Itaú como desenvolvedor júnior e ficou quase 12 anos no banco. Lá, saiu da função puramente técnica para cargos de liderança, coordenando times, projetos e áreas inteiras de tecnologia.

“O Itaú me transformou de programador em líder. Passei a entender como tecnologia impacta o negócio”, afirma.

Depois, foi para o Banco Pan, onde liderou a construção de áreas do zero, incluindo iniciativas ligadas a open banking e formalização digital. Em seguida, assumiu a tecnologia e novos negócios da Virgo, empresa de infraestrutura para o mercado de capitais. Foi ali que a ideia da Vitrify começou a ganhar forma.

A origem da Vitrify e o acordo no guardanapo

Na Virgo, Lopes conheceu Daniel Magalhães, executivo com cerca de 15 anos no mercado de capitais, com passagem por estruturação de crédito e securitização. A complementaridade foi imediata: de um lado, tecnologia e execução; do outro, conhecimento profundo do mercado.

“Desde o começo, a ideia não era extrair o mercado, mas ajudar o mercado a crescer, ser mais transparente”, afirma Lopes.

O acordo inicial foi literal. Em uma conversa informal, os dois desenharam no guardanapo os princípios da sociedade: empresa de tecnologia, foco em clareza de dados e impacto estrutural no crédito privado. A Vitrify começou como uma iniciativa dentro da Virgo e, em julho de 2025, fez o spin-off definitivo.

A empresa saiu com um time enxuto: seis pessoas, sendo quatro colaboradores diretos. A estratégia foi testar rápido, ouvir o mercado e ajustar o produto antes de escalar.

Produto, dados e clientes

A Vitrify desenvolveu uma plataforma proprietária que centraliza informações de documentos, eventos, B3, Anbima, agentes fiduciários e securitizadoras. Tudo em uma interface única, padronizada e automatizada.

“A gente organiza o caos. O profissional deixa de perder tempo coletando dado e passa a decidir melhor”, afirma Lopes.

Antes do lançamento oficial, a empresa chegou a testar o produto com cerca de 140 clientes. Hoje, tem cerca de 20 clientes assinantes e entre 25 e 40 em processo de contratação, incluindo grandes instituições financeiras, que costumam ter ciclos de venda mais longos.

A plataforma monitora mais de 10.000 papéis ativos no mercado e gera, em alguns meses, mais de 2.500 alertas sobre eventos relevantes. É um volume que só se sustenta com uso intensivo de tecnologia e automação.

Receita, metas e breakeven

A Vitrify já fatura cerca de R$ 60 mil de MRR (receita recorrente mensal) e projeta alcançar o breakeven no primeiro trimestre. A meta é acelerar a partir daí.

O plano interno prevê chegar a R$ 250 mil de MRR até o meio do ano e fechar o ano com cerca de R$ 500 mil de MRR. Por enquanto, a empresa ainda não fez rodada de investimento e avalia com cautela os próximos passos de captação.

“A gente quer crescer com consistência. O mercado é grande, mas exige precisão”, diz Lopes.

O próximo passo: copilot e mais liquidez

O foco agora é extrair mais valor do enorme repositório de dados já estruturado. A ideia é criar um copilot, assistente inteligente que ajude gestores, investidores e tomadores de crédito a interpretar eventos, riscos e oportunidades em tempo real.

“O dado já está lá. O próximo passo é ajudar o usuário a tomar decisão com mais confiança”, afirma.

Além dos investidores, a Vitrify quer avançar sobre os tomadores de crédito, ajudando empresas a acompanhar seus próprios papéis, eventos e condições de mercado. No horizonte mais distante, a empresa também considera chegar à pessoa física, mas reconhece que isso exige educação financeira e outra camada de produto.

“O objetivo final é um mercado mais eficiente, mais líquido e mais transparente. Se o Brasil quer um mercado de capitais maior, precisa de infraestrutura de dados”, diz Lopes.

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