Cinesystem quer transformar cinemas em espaços com boliche e fliperama: rede tem unidades 11 estados brasileiros (Cinesystem/Divulgação)
Repórter
Publicado em 1 de maio de 2026 às 08h02.
Última atualização em 1 de maio de 2026 às 09h10.
Um dos setores mais impactados pela pandemia, o cinema voltou a crescer no Brasil — mas ainda não como era antes. Em 2024, as salas do país receberam 125 milhões de espectadores e faturaram R$ 2,49 bilhões, alta de 9,8% e 6,2%, respectivamente, sobre o ano anterior. Ainda assim, público e renda real seguem cerca de 30% abaixo da média pré-pandemia, segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine).
É nesse intervalo entre a recuperação e a saudade do passado que Marcos Barros, fundador e CEO da Cinesystem, enxerga oportunidades. A sua rede, criada em Maringá, no Paraná, conta hoje tem 28 cinemas multiplex, 190 salas e presença em 11 estados.
Barros, que também preside a Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex (Abraplex), diz que o setor vive “a maior crise da sua história”. A saída, para ele, não é esperar que o espectador volte por nostalgia. É dar um novo motivo para sair de casa.
“Hoje, quase todo mundo de classe média consegue ter uma belíssima TV, bom som e acesso a milhares de filmes pelos streamings. Então você tem que oferecer algo que ele não consegue fazer em casa”, diz Barros. “E é isso que o cinema sempre fez a vida toda".
No ano passado, a rede Cinesystem comprou quatro cinemas e faturou R$ 197 milhões. Para 2026, a meta é crescer 25% usando as novas salas — alcançando R$ 246 milhões em receita. Com menos público na comparação com o pré-pandemia, a fórmula para alcançar esse objetivo é diversificar a oferta de produtos com maior valor agregado.
A tentativa mais ousada da Cinesystem tem nome curto e ambição grande: Loof. Inaugurado no shopping Bourbon Country, em Porto Alegre, o espaço substituiu parte de um antigo cinema da rede por uma arena de entretenimento indoor. Duas das oito salas deram lugar a pistas de boliche, fliperamas, restaurante, sports bar, coquetelaria e arremesso de machado.
O investimento passou de R$ 15 milhões. O complexo tem mais de 30 brinquedos importados, oito pistas de boliche e capacidade para mais de 250 pessoas nas áreas de alimentação e entretenimento.
“Você tem um grupo de amigos saindo do escritório para um happy hour. Hoje, eles vão a um barzinho. No Loof, eles também podem jogar arcade, brincar no arremesso de machado, ir ao boliche ou ao cinema”, afirma Barros.
O cinema não perdeu o protagonismo na operação. Seis salas seguem funcionando na primeira unidade do Loof; três delas foram transformadas em VIP, com poltronas reclináveis e serviço de garçom por QR Code.
“Você cria inúmeras oportunidades e fideliza as pessoas a consumir tudo o que tem ali, inclusive o cinema. O filme deixa de ser o único destino e passa a ser uma das atrações de um passeio maior”.
Para Barros, o setor sempre precisou driblar profecias de morte. Na década de 1940, a televisão acabaria com as salas de filme. Depois, VHS, DVD, Blu-ray, internet e agora o streaming também ameaçaram a existência dos cinemas. Cada tecnologia levou uma parte do consumo para dentro de casa. Em resposta, as redes que sobreviveram tiveram que se mexer.
No passado já foi assim. O cinema saiu das grandes salas de rua, migrou para os shoppings, ganhou bomboniere com mais opções, som imersivo, projeção digital, poltronas premium e salas VIP.
“O cinema veio antes da televisão. Era a única forma de diversão e cultura no início do século passado”, diz Barros. “À medida que a tecnologia foi avançando, o cinema se reinventou. Agora, acredito que o futuro é transformar o cinema em um centro de entretenimento.”
De todos os baques, a pandemia foi o maior. Não havia uma nova tela concorrente, mas sim a interrupção completa de um hábito. As salas fecharam, depois reabriram parcialmente. O setor conviveu com restrições e ainda enfrentou um gargalo de lançamentos de filmes, já que parte dos estúdios direcionou as produções para o streaming.
“O pior de tudo foi que, durante a pandemia, os estúdios venderam os filmes para os streamings. Quando o cinema voltou, não tinha mais filme. Um filme não se produz em dois meses. São dois anos fazendo filme”, diz.
Apesar da procura de shoppings interessados em ter unidades do Loof, Barros evita transformar o projeto em promessa grandiosa. Diz que a unidade de Porto Alegre ainda é um piloto.
“O Loof é uma experiência ainda. Ele não está pronto para expansão. A gente acredita muito nesse piloto, mas quer primeiro esgotar todas as dúvidas, deixar o modelo redondo, para depois partir para expansão”, afirma.
Marcos Barros, fundador e CEO do Cinesystem: empresário diz que setor em seu pior momento na história (Cinesystem/Divulgação)
A expectativa é encerrar o ano com o diagnóstico pronto e um mapeamento de possíveis novas unidades. A prioridade, diz o executivo, será adaptar cinemas que já fazem parte da rede. Duas possibilidades são os complexos no Morumbi Town Shopping e no Bourbon Shopping, em São Paulo.
O modelo, no entanto, não deve ser replicado de forma idêntica. Em alguns shoppings, pode não haver espaço para boliche, arcade e machado. Em outros, a solução pode ser um cinema com restaurante, uma cervejaria artesanal ou outro formato híbrido, explica o CEO da Cinesystem.
Barros iniciou a carreira no mercado de cinemas em 1999, ao comprar salas em um shopping de Maringá, no interior do Paraná. Até então, o empresário investia em empresas de comunicação.
A aposta em experiência não começou agora. Em 2011, a Cinesystem foi a primeira rede a inaugurar um complexo com cinema 100% digital no Brasil. Em 2012, levou o autoatendimento às suas unidades — tendência que depois se espalhou por outras redes daqui. Em 2017, o Cinesystem inaugurou o primeiro multiplex do país com 100% de projeção a laser.
Hoje, além das salas Cinépic, Premium e VIP, a rede tenta criar novos rituais em torno da ida ao cinema. Há sessões adaptadas para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), no Cine Azul; sessões para mães, pais e bebês, no CineMaterna; exibições para tutores com pets; e experiências como Cine Livro e Cine Crochê.
“Para além de incrementar a experiência total do passeio ao cinema, existem projetos que trazem um novo olhar para o que se faz dentro da sala”, diz Barros.
Aa tese do empresário é que o cinema não disputa apenas com o streaming. Disputa com o sofá, com o restaurante, com o bar, com o shopping, com o videogame e com o tempo livre. Para vencer, precisa ser um pouco de tudo isso — sem deixar de ser cinema.
“É uma experiência diferente. Você vai a um lugar com 200, 300 pessoas que não conhece, mas estão todas fazendo exatamente a mesma coisa. Se é para rir, ri todo mundo. Se é para chorar, chora todo mundo”, diz Barros. “Essa energia é diferente de qualquer outra".