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A empresa dele vai faturar R$ 75 milhões com cannabis medicinal para doenças crônicas

Cannect nasceu para acompanhar pacientes crônicos e hoje lidera a operação de importação de cannabis medicinal no país

Allan Paiotti, cofundador da Cannect: plataforma já atende mais de 100 mil pacientes (Cannect/Divulgação)

Allan Paiotti, cofundador da Cannect: plataforma já atende mais de 100 mil pacientes (Cannect/Divulgação)

Publicado em 25 de maio de 2026 às 17h28.

Em 2021, enquanto comandava um hospital em meio à pandemia, o paulistano Allan Paiotti começou a notar um padrão que se repetia nos corredores e prontos-socorros: muitos pacientes retornavam constantemente ao hospital não por emergências graves, mas porque não conseguiam manter seus tratamentos no dia a dia.

A observação deu origem a uma tese de negócio que anos depois se transformaria a empresa Cannect. Hoje, a companhia se apresenta como o maior ecossistema de saúde da América Latina voltado ao acompanhamento de pacientes com doenças crônicas, usando cannabis medicinal como principal porta de entrada.

A healthtech encerrou 2025 com faturamento de R$ 60 milhões e projeta crescer mais de 25% neste ano, chegando a R$ 75 milhões. Atualmente, a Cannect atende mais de 100 mil pacientes, reúne uma base de mais de 12 mil médicos capacitados em sua plataforma e responde por cerca de 40% dos pacientes brasileiros que utilizam a via de importação para tratamentos com cannabis medicinal.

Fundada em 2021 pelos quatro sócios, a companhia saiu de uma operação que faturava menos de R$ 500 mil para uma estrutura com 70 funcionários no Brasil, além de equipes no exterior e operações logísticas na Flórida e em Portugal.

"Desde o início, entendemos que o paciente com condição crônica não precisa apenas de um tratamento isolado, mas de um protocolo completo", afirma Paiotti.

O problema que nasceu dentro de um hospital

A ideia inicial da Cannect não tinha cannabis como foco principal. Paiotti, que passou por setores como varejo, logística e saúde ao longo da carreira, assumiu o comando do Hospital Alemão Oswaldo Cruz em 2019. Com a chegada da pandemia, percebeu que muitos pacientes crônicos acabavam entrando em ciclos repetitivos de idas ao hospital.

O problema não era falta de diagnóstico ou ausência de medicamentos. Era continuidade. Segundo o executivo, grande parte dos pacientes abandona ou segue de maneira irregular os tratamentos porque não existe acompanhamento constante.

"Setenta por cento dessas pessoas não ficam engajadas no tratamento. Ninguém acompanha ativamente esse paciente", disse Paiotti durante entrevista à EXAME.

A tese construída foi a de criar uma jornada digital que conectasse médicos, pacientes e terapias, acompanhando continuamente a evolução do tratamento.

Hoje, a empresa opera com o que chama de "linhas de cuidado": protocolos específicos para diferentes condições, como autismo, dor crônica, Alzheimer, ansiedade e insônia. Enfermeiros e equipes multidisciplinares acompanham pacientes ao longo do tratamento e alimentam dados que retornam aos médicos.

Como funciona a cannabis medicinal

Cannabis medicinal ainda gera dúvidas para parte do público, frequentemente associada ao uso recreativo da planta. Mas o modelo usado pela Cannect está distante desse cenário.

A empresa não cultiva nem fabrica produtos. Seu papel é conectar pacientes, médicos e fornecedores, além de cuidar da burocracia necessária para acesso aos tratamentos.

Na prática, o processo funciona assim: o médico avalia o paciente, faz a prescrição quando considera adequado e a plataforma auxilia desde a documentação regulatória até a entrega do produto.

Segundo Paiotti, cerca de 85% a 90% dos tratamentos à base de cannabis no Brasil usam óleos feitos a partir do extrato da planta, administrados em gotas sob a língua. Também existem outras formas, como gomas e, em casos específicos, flores vaporizadas.

Os principais usos atuais incluem dores crônicas, ansiedade, distúrbios do sono, autismo, Alzheimer e cuidados paliativos. Quando conheceu o setor, Paiotti afirma que também carregava preconceitos.

"Para mim, cannabis medicinal estava associada ao uso adulto e recreativo. Eu não tinha essa visão do uso medicinal."

A entrada no segmento aconteceu em 2021 no Brasil, quando a Anvisa começou a abrir regras para importação desses produtos.

Quais os próximos passos da Cannect

Embora a cannabis ainda represente 80% das operações da empresa, a Cannect quer reduzir a dependência desse mercado. Nos últimos meses, a companhia começou a incorporar novas terapias, incluindo suplementação, superalimentos e medicamentos para obesidade, como tratamentos baseados em tirzepatida.

A lógica é combinar abordagens diferentes para uma mesma condição clínica. Paiotti cita como exemplo pacientes com problemas de sono: dependendo do caso, médicos podem combinar substâncias derivadas da cannabis com suplementos como melatonina.

"Não nascemos para ser uma empresa de cannabis medicinal. Nascemos para cuidar ativamente de pacientes crônicos usando múltiplas terapias."

Nos próximos passos, a companhia também aposta em inteligência artificial para apoiar médicos na análise de tratamentos e uso de evidências científicas. A ideia, porém, não é substituir profissionais.

"A inteligência artificial é muito poderosa, mas o médico tem uma capacidade de investigação e sensibilidade que ainda faz diferença."

Um mercado que se aproxima de R$ 1 bilhão

A expansão da Cannect acompanha o crescimento acelerado da cannabis medicinal no Brasil. O setor, que há poucos anos ainda ocupava um espaço restrito e cercado por dúvidas regulatórias, ganhou escala e vem ampliando o número de pacientes, produtos e formas de acesso. Segundo o Anuário da Cannabis Medicinal 2025, produzido pela Kaya Mind, o mercado brasileiro deve movimentar R$ 971 milhões em 2025, alta impulsionada pelo aumento do número de pacientes e pela diversificação dos canais de distribuição.

O levantamento aponta que o país já soma cerca de 873 mil pacientes em tratamento com produtos à base de cannabis. A principal via de acesso continua sendo a importação, responsável por aproximadamente 354 mil pacientes, ou 40,5% do total. Farmácias respondem por cerca de 293 mil usuários, enquanto associações atendem outros 226 mil pacientes.

Os dados ajudam a explicar a posição alcançada pela Cannect. A empresa afirma responder por aproximadamente 40% dos pacientes brasileiros que utilizam a via de importação para acessar tratamentos à base de cannabis — justamente o maior canal do setor atualmente.

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