Repórter de Negócios
Publicado em 25 de maio de 2026 às 14h19.
Última atualização em 25 de maio de 2026 às 15h41.
Rosane Fantinelli, diretora de marketing da Tramontina: "Para ser identificada também como uma marca para indústria, para os profissionais, a gente precisava fazer uma reorganização" (Tramontina/Divulgação)
Poucas empresas no Brasil podem dizer que sobreviveram a duas guerras mundiais, à hiperinflação e a sete trocas de moeda usando o mesmo nome na embalagem. A Tramontina é uma delas.
Aos 115 anos, completados em maio de 2026, a companhia gaúcha decidiu que chegou a hora de fazer algo que evitou por mais de um século: parar de assinar tudo com a mesma marca.
Fundada em 1911 em Carlos Barbosa, na serra gaúcha, a Tramontina nasceu como uma pequena ferraria que fabricava canivetes e facas. Hoje, opera oito unidades fabris — seis no Rio Grande do Sul, uma em Pernambuco, uma na Índia —, emprega mais de 10.000 pessoas e exporta para mais de 120 países.
O portfólio reúne 22.000 itens, que vão de talheres a veículos elétricos utilitários, passando por porcelanas, ferramentas para construção civil, materiais elétricos e móveis.
A empresa anuncia agora uma nova arquitetura de marca. Em vez de uma única assinatura para todo o portfólio, a companhia passa a operar com uma marca-mãe e cinco submarcas, cada uma voltada a um público específico.
A primeira grande novidade é a Tramontina Primia, focada em hospitalidade e gastronomia. As outras quatro — Oniq, Althea, PRO (que ganhou nova identidade, mas já existe há 26 anos) e Master — chegam de forma escalonada até 2028. A T store, sexta marca do ecossistema, fica no varejo, com 22 lojas no Brasil e 17 no exterior.
"Uma marca de 115 anos abraça milhares de produtos e segmentos muito diferentes entre si. Fomos sentindo que essa marca não tinha toda essa elasticidade. Para ser identificada também como uma marca para indústria, para os profissionais, a gente precisava fazer uma reorganização", diz Rosane Fantinelli, diretora de marketing da Tramontina.
O projeto começou a ser desenhado em 2019, foi engavetado na pandemia e retomado em 2023.
O movimento acompanha um ciclo de expansão: a companhia cresceu cerca de 20% no faturamento nos últimos dois anos e acaba de abrir uma fábrica própria no México. A aposta é que a nova arquitetura de marca permita acelerar ainda mais a operação nas três frentes em que a empresa atua: para o consumidor final, para empresas e para profissionais autônomos.
A lógica da reorganização é simples de explicar e complexa de executar. A marca Tramontina continua sendo a soberana e vai assinar 90% do portfólio, segundo a empresa. As submarcas funcionam como sufixos que entregam propostas de valor específicas para públicos distintos.
Para o consumidor final, surgem duas frentes. A Oniq, com lançamento previsto para 2028, vai abrigar produtos conectados e interativos, voltados a quem quer uma casa automatizada. O cooktop Guru, lançado pela Tramontina e com mais de 400 receitas programadas, é o produto-símbolo dessa linha.
A Althea, prevista para 2027, vai concentrar itens de design exclusivo e edições limitadas, vendidos em lojas de rua especializadas — não em supermercados, e com tíquete alto.
Para o mercado profissional, a divisão é ainda mais granular.
A Tramontina PRO já existe há 26 anos como linha de ferramentas para a indústria e agora vira submarca formal. A Master, prevista para 2027, mira os 33 milhões de profissionais autônomos brasileiros, como serralheiros, marceneiros, eletricistas, pedreiros, com preço mais acessível.
E a Primia, que abre a temporada, foi desenhada para hotelaria, restaurantes, cafeterias, padarias e resorts.
Por que uma marca centenária, com presença consolidada no Brasil e em mais de 120 países, decide se fragmentar justamente agora? A resposta passa pelo tamanho do problema que a empresa começou a enxergar.
O caso clássico de Tramontina é o do consumidor que conhece a marca pela faca da gaveta da cozinha, mas hesita na hora de comprar uma ferramenta profissional para uma obra.
Fabrica da Tramontina Farroupilha no Rio Grande do Sul (Leandro Fonseca/Exame)
"Quando chegaram na indústria, os profissionais tinham um pouco de dúvida sobre a ferramenta Tramontina, a marca que produz talheres. Estava intrínseca uma pergunta: será que essa ferramenta é tão boa quanto aquilo que nós precisamos?", afirma Fantinelli.
É esta dúvida que a empresa quer tirar a partir de agora.
Entre as cinco submarcas, a Master é a que carrega o universo de público mais amplo. Os 33 milhões de profissionais autônomos do país, segundo dados citados pela Tramontina, formam um mercado que a empresa diz não ter conseguido conversar diretamente até aqui.
A submarca vai atender três grandes frentes — construção civil, elétrica e agro — e envolve pelo menos quatro fábricas do grupo.
Já a Primia, primeira a chegar ao mercado, tem outra lógica. Em uma cozinha profissional, uma panela é lavada e usada dezenas de vezes por dia. A premissa é entregar performance, palavra que a empresa repete como mantra para esse segmento. A submarca também vai funcionar como laboratório de inovação para tecnologias que podem ser estendidas ao restante do portfólio.
Reorganizar uma marca com 115 anos de história não é sem custo.
O maior risco é o de confundir o consumidor que aprendeu, por gerações, que Tramontina é Tramontina — e ponto. Para mitigar isso, a empresa optou por manter a marca-mãe como assinatura principal em todas as submarcas. A pergunta é até quando essa muleta vai ser necessária.
Outro desafio está na execução comercial. A nova arquitetura passa menos por marketing e mais por canais de distribuição. Um produto Althea precisa estar em uma loja de decoração de bairro nobre, não em supermercado. Um produto Master precisa chegar à loja de material de construção do bairro. Um produto Primia precisa ser vendido por equipes que conversam com chef e comprador de hotel, não com dona de casa.
"Arquitetura de marca passa muito mais por categorização e reorganização de canais de vendas do que ser um projeto de marketing em si", diz Fantinelli.
A internacionalização é outra frente em aberto. A Tramontina exporta com marca própria para mais de 120 países e mantém produção no México e na Índia. A nova arquitetura começa pelo Brasil, mas a executiva afirma que vai se estender aos mercados externos respeitando peculiaridades locais.
A aposta da Tramontina, hoje na quarta geração à frente do negócio, é que dividir o nome agora seja o que vai garantir que ele continue forte nas próximas décadas. "Estamos celebrando um legado, mas projetando um crescimento sustentável para os próximos anos", diz Marcos Tramontina, CEO da empresa.