A volta da Zoomp

Nunca houve uma marca de jeans no Brasil como a Zoomp. Não é exagero. Ela reinou no mercado de 1974 e 2006, graças a uma combinação aparentemente imbatível: o boom das indústrias de confecção no país e a força criativa de seu criador, o empresário Renato Kherlakian. No auge do sucesso, Kherlakian chegou a comandar 800 funcionários e possuir metade das 84 lojas da marca espalhada por dez países.

Até que, como um raio – símbolo da marca –, a Zoomp definhou, não conseguiu administrar o seu próprio gigantismo, enfrentar a abertura do mercado aos produtos importados, e teve falência decreta em 2009, revogada dias depois. A marca nunca mais foi a mesma e agonizou nas mãos de seu criador até ser comprada por um novo grupo (a Global Capital) e entrar em recuperação judicial.

Parecia o fim de uma saga. Agora, para a surpresa de todos, a Zoomp ensaia um retorno, dessa vez comandada por um empresário que lembra muito a impetuosidade do próprio Kherlakian. Alberto Hiar, mais conhecido como “Turco Loco”, dono da marca Cavalera, anunciou recentemente a compra da Zoomp em um leilão judicial, e tem planos para transformá-la numa marca premium. A primeira coleção deve ser lançada em outubro e chegar às lojas no primeiro semestre do ano que vem.

E quem Hiar chamou para ser o embaixador da marca? Sim, ele mesmo, Renato Kherlakian, que, por ora, não tem planos de voltar a empreender, apesar de ainda sonhar em ter sua marca própria. “Enquanto não baixar o custo Brasil, eu prefiro ajudar o Turco a recuperar o prestígio da Zoomp”, diz Kherlakian, que acaba de lançar um livro sobre sua trajetória à frente da marca de jeans.

Intitulado Uns Jeans, Uns Não (Editora Senai), a obra,  escrita em parceria com o jornalista Ronald Sclavi e com introdução de Paulo Skaf (que durante a fase dourada da Zoomp presidiu a Associação Brasileira Têxtil, a ABIT), será lançado no dia 22 de junho, em São Paulo.

Kherlakian perdeu a Zoomp, mas nunca deixou de trabalhar. Pai de cinco filhos, virou um consultor que presta serviço tanto para uma gigante como a C&A como para marcas de vanguarda, menos conhecidas. Fiel às suas convicções, nunca se deixa vencer pela questão do preço e pela baixa qualidade. Ou quase. Quando isso ocorre, presta o serviço, mas não assina a coleção. “Seria jogar minha história como empreendedor fora”, diz. Na nova Zoomp, ele diz confiar no faro e no bom gosto de Hiar e num mercado de moda em constante mutação. “O público brasileiro adora roupas de grifes, tanto que volta das viagens internacionais com as malas lotadas. A diferença nessa história é que as marcas nacionais perderam o protagonismo”, afirma Kherlakian.

Faltou gestão 

A aposta de relançar a Zoomp vem num dos momentos mais difíceis para o mercado brasileiro de moda. As grifes internacionais sofrem com o câmbio desfavorável. As marcas brasileiras também, e ainda penam para fazer dar certo o casamento potencialmente explosivo entre criação e gestão de custos. É um dos fatores que solapa os resultados de empresas promissoras como Restoque, dona de marcas como Le Lis Blanc, e InBrands, dona de Ellus e Alexandre Herchcovitch. A dificuldade é conhecida: enquanto os estilistas querem gastar o máximo possível para fazer as roupas mais incríveis e únicas, a área administrativa e comercial quer padrão, escala, custos baixos.

Na Zoomp, as coisas começaram a degringolar justamente em algum ponto entre os custos de criação e o descontrole financeiro. “Se pudesse voltar no tempo, a primeira coisa que eu faria seria um curso intensivo em finanças e administração”, diz Kherlakian. “Eu era um cara criativo, mas não sabia tocar administrativamente uma empresa daquele tamanho”.

A Zoomp foi uma das poucas marcas que conseguiu fazer frente à pirataria, que explodiu nos anos 1990. “Eu tinha sempre dinheiro em caixa. Montei um departamento antipirataria, com advogados, delegados, policiais, que faziam um trabalho de busca e apreensão pelo país imbatível. Esse era um dos meus diferenciais”.

Kherlakian só não conseguiu evitar a concorrência – essa legal – vinda de fora, que coincidiu com a fase mais próspera da Zoomp. “Quando atingi um patamar de faturamento e de volume de produção, o controle saiu das minhas mãos”, diz. “Foram criadas novas diretoras, os interesses da empresa começaram a ser discutidos por um monte de gente, com opiniões distintas. Virou uma toque de babel e eu, que não tinha a menor experiência em governança corporativa, não soube tomar decisões corretas num momento que a concorrência internacional vinha com tudo”, afirma.

Essa angústia não vai se repetir na nova fase da Zoomp. Como embaixador, sua missão é dar visibilidade e prestígio à marca. Hiar que se vire com o custo Brasil. Não que Kherlakian não dê os seus pitacos. Ele dará. E quem sabe ele deixe a experiência pronto para abrir uma nova marca de jeans. “Já tenho muita coisa na cabeça, é preciso só que o país ajude. Por enquanto estou curtindo os meus cinco filhos, contemplando esse mercado maluco. Quando chegar a hora, voltarei com tudo”. Se tudo der certo, além de competir com os importados, ele terá que bater de frente com outra marca que conhece bem – a Zoomp.

(Tom Cardoso)

 

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