Aldren Flores, fundadora da Mais Afro: “Busque informações empreendedoras e construa uma rede genuína – é ela que faz a semente germinar."
Jornalista especializada em carreira, RH e negócios
Publicado em 14 de janeiro de 2026 às 16h00.
Última atualização em 15 de janeiro de 2026 às 10h11.
“Como sempre vivi num mundo muito branco, achava que se tivesse dinheiro, teria acesso a qualquer lugar. Durante um tempo, só conhecia o racismo na teoria”, diz a gaúcha Aldren Flores. Até que, ao pesquisar a oferta de maquiagens para pele negra durante o trabalho de conclusão de curso da graduação em marketing, tudo mudou. A dificuldade de encontrar produtos para diferentes tons de pele revelou algo maior: quem aparece, decide e tem acesso às oportunidades – e o quanto a exclusão impacta escolhas, autoestima e senso de pertencimento.
Com esse repertório, ela conseguiu nomear experiências que já vivia, mas não reconhecia como discriminação racial. Comentários de executivos que afirmavam contratar apenas pessoas formadas em faculdades de elite ou a orientação da gestão de que, mesmo em dia de greve, cabia aos funcionários “dar um jeito” de chegar ao trabalho expunham barreiras silenciosas, porém recorrentes. Essa leitura foi o ponto de partida para a criação da Mais Afro, plataforma que mapeia e divulga profissionais e negócios liderados por negros.
Lançada em novembro de 2025, a iniciativa tem a meta de alcançar cinco mil cadastros em um ano. Entre os planos, está uma escola empreendedora, dentro do ecossistema, ampliando conteúdos de qualificação.
Antes de empreender, Aldren construiu carreira em companhias de grande porte, mas a vivência corporativa evidenciou limites que iam além da formação ou da experiência. A ausência de pretos em cargos de decisão, processos seletivos pouco diversos e critérios de avaliação restritos a determinados perfis se repetiam ao longo do tempo. Segundo o IBGE, apesar de representarem 55,5% da população, os negros ocupam apenas 9,7% das posições de liderança de topo. Também chamou atenção a falta de mecanismos acessíveis para localizar esse público. “Isso escancarou a necessidade de uma ferramenta que organizasse e desse visibilidade ao que já existia.”
Além de ampliar a representatividade negra, a empresa atua no desenvolvimento de carreiras e negócios por meio da oferta de bolsas de estudo em instituições como a Perestroika, voltada a metodologias criativas. O intuito é diminuir a distância entre esse público e as oportunidades – seja de trabalho, renda, aprendizado ou visibilidade. “Quando alguém consome ou contrata o serviço de um negro, movimenta diretamente um ciclo econômico que está represado, mas que, com intencionalidade e movimento, contribui para a ascensão social e a redução de desigualdades estruturais.”
Paralelamente, a gaúcha trabalha há quatro anos com gestão de projetos no terceiro setor, liderando iniciativas de diversidade, equidade, inclusão e geração de renda para organizações como Google Brasil, Disney, OLX e Heinz.
Em 2017, junto ao trabalho formal, Aldren deu os primeiros passos no empreendedorismo. Sem capital para desenvolver uma solução tecnológica, começou pelo que era viável: organizou ideias, públicos e hipóteses de modelos e criou uma página no Instagram. O perfil ajudou a consolidar o método de curadoria e confirmou a existência da demanda.
Para avançar, precisou lidar com desafios simultâneos, entre eles o reconhecimento de si mesma como empreendedora e a necessidade de liderar uma operação. O primeiro ponto de inflexão veio em 2018, com a participação no Afromentoring, iniciativa da Odabá Afroempreendedorismo em parceria com o Grupo Mulheres do Brasil. Ali teve formação na área, com aprendizados sobre pitch e narrativa de negócio.
Na sequência, participou de uma incubação que viabilizou a primeira versão da plataforma, mas três semanas antes do lançamento, o site “caiu” por não estar maduro o suficiente. Diante disso, ela decidiu inverter a lógica inicial e passou a validar a audiência por meio de curadorias. A estratégia transformou o perfil em referência na busca por profissionais e negócios pretos e resultou em projetos, participação em feiras corporativas e na curadoria de pessoas para o evento de lançamento da novela Dona de Mim, da TV Globo.
A consolidação da Mais Afro ocorreu com a participação na 10ª edição do Vai Tec – Programa de Valorização de Iniciativas Tecnológicas –, iniciativa da Prefeitura de São Paulo executada pela Agência São Paulo de Desenvolvimento (Ade Sampa). Selecionada para o ciclo de aceleração, recebeu capital semente, mentorias e assessorias individuais voltadas ao amadurecimento tecnológico e ao refinamento da estratégia. “Entendemos de que forma estruturar processos, priorizar funcionalidades e nos prepararmos para operar.”
Na base da trajetória de Aldren, estão referências familiares marcadas por coragem e determinação. Filha de um pai com o ensino fundamental incompleto, mas domínio de múltiplos ofícios, e de uma mãe que foi empregada doméstica e nunca desistiu, cresceu ouvindo que cada geração deveria subir ao menos um degrau – pensamento herdado da avó.
Ao longo da jornada, no entanto, ressalta que é normal pensar em desistir. Não apenas pelas dificuldades inerentes a criar uma empresa, mas pelas camadas adicionais impostas às mulheres e, de forma mais intensa, às mulheres negras. Para seguir, identifica uma habilidade feminina construída de forma intuitiva: a capacidade de combinar resiliência e leitura de contexto. “É saber quando insistir, recuar e esperar o momento certo.”
Também ressalta a importância de entender o público e suas dores, além do potencial econômico do mercado que pretende atuar. “Busque informações empreendedoras e construa uma rede genuína – é ela que faz a semente germinar."