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Vírus Nipah pode chegar no Brasil? Tire as dúvidas sobre a doença

Infectologista explica sintomas, formas de transmissão e riscos do vírus Nipah

NIpah: a Organização Mundial da Saúde (OMS) considerou baixo o risco de expansão do vírus na Índia e em outros países (Getty Images/Getty Images)

NIpah: a Organização Mundial da Saúde (OMS) considerou baixo o risco de expansão do vírus na Índia e em outros países (Getty Images/Getty Images)

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 18h50.

Dois casos confirmados de infecção pelo vírus Nipah na Índia, uma doença de alta letalidade para a qual não existe vacina nem tratamento antiviral específico, geraram dúvidas e alerta na população, que recentemente passou por uma pandemia.

Na última terça-feira, o governo indiano reduziu o alarme diante dos “números incorretos” que circulavam sobre os casos da doença e esclareceu que a situação está sob controle, após confirmar que as quase 200 pessoas monitoradas por contato direto testaram negativo.

Os dois casos confirmados são de enfermeiros — um homem e uma mulher, ambos com 25 anos — de um hospital particular na localidade de Barasat, a cerca de 20 quilômetros ao norte de Calcutá. Eles começaram a apresentar sintomas na primeira semana de dezembro e foram isolados no início de janeiro.

No mesmo dia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considerou baixo o risco de expansão do vírus na Índia e em outros países.

Mas o que é o Nipah, quando ele foi identificado, quais os sintomas e quais os riscos de uma contaminação mundial foram algumas das dúvidas esclarecidas por Luana Araújo, médica infectologista e mestre em Saúde Pública pela universidade Johns Hopkins Bloomberg.

O que é o vírus Nipah?

Segundo Araújo, o Nipah é da mesma família do vírus do sarampo e foi identificado pela primeira vez em 1998, na Malásia e em Singapura, em pessoas que cuidavam de porcos infectados.

"Ele é capaz de causar desde infecções subclínicas até casos fatais", afirma.

O vírus recebeu o nome do povoado do sudeste asiático onde foi descoberto.

De acordo com a OMS, as epidemias provocadas por esse vírus são raras, mas o Nipah foi classificado, juntamente com o ebola, o zika e a covid-19, como uma das doenças prioritárias para estudos por seu potencial de causar uma pandemia.

Quais são os sintomas do vírus Nipah?

Araújo explica que os primeiros sinais da doença surgem cerca de 14 dias após a infecção. Os principais sintomas incluem:

  • febre
  • dor de cabeça
  • dor no corpo
  • mal-estar
  • vómitos

"Os primeiros sintomas são pouco específicos, que podem ser confundidos com muitas outras patologias", afirma.

Em casos graves, detalha a médica, a doença evolui rapidamente, afetando o sistema nervoso central e causando encefalite — uma inflamação extremamente grave.

"Esse problema pode evoluir de maneira dramática, devastadora e fatal em pouco tempo, cerca de 24 a 48 horas. Por isso, a doença tem uma letalidade altíssima", afirma.

Qual é a taxa de letalidade do vírus Nipah?

Segundo a OMS, a doença tem uma taxa de mortalidade entre 40% e 75%, a depender do contexto, do tipo de paciente e do suporte médico disponível.

A infectologista afirma ainda que os sobreviventes do Nipah podem desenvolver sequelas neurológicas, com alterações cognitivas.

"As encefalites podem ocorrer também de maneira mais tardia. O paciente pode apresentar encefalite de repetição. É um vírus bastante agressivo, e o curso da doença é trágico", afirmou.

Existe tratamento para o vírus Nipah?

Segundo Araújo, não existe tratamento nem vacina contra a doença.

Além disso, há poucas chances de o vírus sofrer mutações, pois isso não é uma característica comum desse patógeno.

Como funciona a transmissão do Nipah?

A doença é considerada uma zoonose, ou seja, é transmitida de animais para seres humanos. Recentemente, foi observada também a transmissão entre humanos.

Araújo afirma que a transmissão não é sustentada porque não ocorre com facilidade. Diferentemente das doenças respiratórias, o Nipah requer contato próximo, com troca de secreções e fluidos corporais.

"Familiares, cuidadores e profissionais de saúde são os que estão mais em risco ao entrarem em contato com pacientes infectados", afirma.

A transmissão também pode ocorrer por alimentos contaminados, principalmente por secreções de morcegos, que são implicados na disseminação do vírus no Sudeste Asiático.

"Frutas parcialmente comidas por esses morcegos, ou que tiveram contato com urina ou fezes desses animais e forem ingeridas sem a devida higienização, podem ser fonte de contaminação. O mesmo vale para o contato direto — sem proteção — com carcaças desses morcegos", diz.

Existe risco de transmissão no Brasil?

A infectologista afirma que não vê risco imediato de infecção no Brasil. Segundo ela, por conta da alta letalidade e da necessidade de contato muito próximo para transmissão, o vírus tem, neste momento, um potencial pandêmico relativamente reduzido.

É possível comparar o Nipah com o Coronavírus?

Para a médica, não há comparação entre o Nipah e o coronavírus. Araújo afirma que os dois têm potenciais de transmissão muito diferentes, com desfechos e estratégias de combate também distintas — embora ambos exijam vigilância, diagnóstico e comunicação claros e precisos.

Quais foram as epidemias anteriores do Nipah

A primeira epidemia de Nipah deixou 100 mortos na Malásia, e um milhão de porcos foram sacrificados para conter o vírus.

A doença também se espalhou em Singapura, com 11 casos e um óbito entre trabalhadores de matadouros que tiveram contato com porcos importados da Malásia.

Desde então, a doença foi detectada principalmente em Bangladesh e na Índia, que registraram suas primeiras epidemias em 2001. Bangladesh foi o país mais afetado nos últimos anos, com mais de cem óbitos desde então.

Duas epidemias na Índia causaram mais de 50 mortes antes de serem controladas.

Desde 2018, os casos têm se concentrado no estado meridional de Kerala, onde o surto mais recente, em julho de 2025, causou três infecções e duas mortes.

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