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Venezuela já foi rica e chamada de 'Arábia Saudita' da América Latina

A Venezuela tem uma das maiores reservas mundiais de petróleo, mas isso não impediu o colapso econômico do país, que se intensificou a partir dos anos 2000

Venezuela: Nos anos 1950, o PIB per capita dos venezuelanos só era menor que o dos americanos, suíços e neozelandeses. (AFP)

Venezuela: Nos anos 1950, o PIB per capita dos venezuelanos só era menor que o dos americanos, suíços e neozelandeses. (AFP)

Letícia Furlan
Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 3 de janeiro de 2026 às 16h30.

Última atualização em 4 de janeiro de 2026 às 11h43.

Quarta economia mais próspera do mundo, grande poder de compra, estabilidade econômica e infraestrutura de luxo. Essa era a realidade da Venezuela entre os anos 1950 e 1970. Tudo impulsionado pela riqueza do petróleo, sendo até mesmo conhecida como a "Arábia Saudita da América Latina".

Nos anos 1950, o PIB per capita dos venezuelanos só era menor que o dos americanos, suíços e neozelandeses, segundo informações da revista de negócios da Wharton School da Universidade da Pensilvânia.

Até 1983, o desemprego no país se manteve na marca de 10%. No mesmo período, o crescimento médio da Venezuela foi de 4,3% por ano, e a inflação era menor do que a registrada em outros países da América Latina.

Na década de 70, os venezuelanos tinham o maior poder de compra entre os países América Latina, segundo um índice da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Além da riqueza e do alto poder de compra, o país era também sinônimo de liberdade. Em 1976, uma publicação do jornal espanhol El País disse que “na Venezuela se vive uma liberdade genuína”. O artigo se referia aos milhares de imigrantes vindos de regimes ditatoriais na América do Sul que buscavam na Venezuela um porto seguro.

O início da crise

A partir de 2007, a Venezuela mergulhou em uma crise institucional profunda, com impactos severos sobre a confiança da população no governo e na qualidade dos serviços públicos, segundo relatório da OCDE em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Publicado em 2020, o documento traça um panorama de degradação acentuada no país em pouco mais de uma década. A satisfação com os serviços de saúde caiu de 72% para apenas 26% entre 2007 e 2018, a maior retração entre os países da América Latina e Caribe no período. No sistema educacional, a aprovação da população passou de 82% para 41%.

Além do desmonte dos serviços públicos, a confiança no governo nacional recuou 39 pontos percentuais no mesmo intervalo, uma das quedas mais agudas registradas na região.

A OCDE também destaca a fragilidade do Estado de Direito no país. Em 2020, a Venezuela apresentava os piores índices regionais em dois pilares de governança: restrições aos poderes do governo (0,18) e proteção de direitos fundamentais (0,33), em escala de 0 a 1.

A deterioração acelerada desde 2007 coincide com a pior crise econômica da história do país. A hiperinflação venezuelana — que atingiu patamares superiores a 1.000.000% ao ano em seu pico, segundo dados do FMI — destruiu o poder de compra da população e agravou o colapso dos serviços públicos.

Em 2024, o PIB per capita foi de pouco mais de US$ 4 mil. Em 2010, chegou ao pico de US$ 13,6 mil, mas despencou a partir do momento em que Nicolás Maduro chegou ao poder na Venezuela, em 2013. O Brasil, que partiu de um PIB per capita semelhante em 2010, registrou US$ 10 mil em 2024, segundo dados do Banco Mundial.

Por que a Venezuela colapsou?

A Venezuela tem uma das maiores reservas mundiais de petróleo, mas isso não impediu o colapso econômico do país. Pelo contrário: a dependência quase total do recurso foi um dos principais fatores para a crise.

Desde o século passado, o país abandonou o desenvolvimento agrícola e industrial para apostar exclusivamente na exportação de petróleo, que passou a representar mais de 90% das receitas externas.

O modelo funcionou enquanto os preços do barril estavam em alta. Mas a bonança terminou em 2014, quando os preços caíram. A queda coincidiu com o início de uma retração da produção interna, que foi de 3 milhões para 1,5 milhão de barris por dia em 2019, segundo dados da Opep.

A estatal PDVSA, responsável pela produção, passou a ser alvo de denúncias de corrupção e má gestão. Investigações nos EUA revelaram um esquema de lavagem de US$ 1,2 bilhão, enquanto mais de 90 funcionários foram processados por corrupção na Venezuela.

Além disso, a estatal foi usada para firmar acordos políticos via Petrocaribe, fornecendo petróleo subsidiado a países aliados, com pagamentos a perder de vista. Isso drenou ainda mais os recursos da petroleira e do Estado.

Com a crise de divisas, o governo passou a imprimir moeda local para cobrir os rombos. O resultado foi hiperinflação. Em 2018, o FMI projetava inflação de 1.000.000% no ano. A moeda perdeu valor, o poder de compra evaporou e o desabastecimento se agravou. Faltava de papel higiênico a remédios.

A política de controle de preços agravou o quadro, ao inviabilizar a produção interna e empurrar o país para a dependência total de importações. O câmbio oficial, artificialmente valorizado, alimentou um mercado paralelo de dólares, base para novos esquemas de corrupção.

Ao mesmo tempo, o Estado concentrou ainda mais poder: Chávez ampliou o controle sobre o Judiciário, expropriou empresas privadas e aboliu o limite de reeleições. Com a morte do ex-presidente, em 2013, Maduro herdou um país já em deterioração.

Em 2017, o Supremo retirou poderes da Assembleia Nacional — de maioria opositora — e Maduro criou uma nova Assembleia Constituinte, esvaziando o Legislativo. No ano seguinte, foi reeleito em eleição contestada, com alta abstenção e denúncias de compra de votos.

A crise institucional se aprofundou, com Judiciário alinhado ao Executivo, repressão violenta a protestos e presença crescente dos militares no governo.

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