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Uma nova frente terrorista

Lourival Sant’Anna 

O embaixador russo Andrey Karlov acabava de inaugurar a exposição intitulada “Rússia através dos olhos dos turcos”, em uma galeria de Ancara, quando um policial de folga da capital turca o matou a tiros. Depois de gritar “Allah-u-akbar” (“Deus é maior”), o assassino acrescentou, antes de ser morto pelas forças especiais turcas: “Não esqueçam Alepo. Não esqueçam a Síria”. Foi uma trágica resposta ao título da exposição.

É assim que muitos turcos, árabes, muçulmanos e ocidentais vêem a Rússia: como a potência responsável pela carnificina na Síria e pelo sepultamento das esperanças de pôr fim à ditadura de Bashar Assad — seja para colocar em seu lugar uma teocracia islâmica, como quer parte dos insurgentes, seja uma democracia laica, o sonho que deu origem à Primavera Árabe, no distante ano de 2011.

O atentado abriu uma nova frente na escalada terrorista na Turquia, da qual já faziam parte o braço armado do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que alveja principalmente policiais e militares, e o Estado Islâmico, que busca causar o máximo dano possível entre os civis, de preferência os curdos, cuja guerrilha os enfrenta no norte da Síria. Desde a queda de Alepo, na semana passada, já ocorriam manifestações de turcos contra o apoio da Rússia ao Exército sírio, que retomou a parte leste da cidade, provocando a fuga de seus maltrapilhos e esfomeados moradores, aterrorizados por meses de bombardeios.

Tudo indica que o atentado desta segunda-feira em Ancara foi ato isolado de um homem em seu “dia de fúria”, e não ação planejada de um grupo. Mas isso não diminui a sua importância, como exemplo e catalisador do ódio que se instaura em todo o mundo muçulmano sunita — e o fato de ter ocorrido em um país não-árabe é prova de seu alcance — contra a entrada em cena da Rússia, com sua mão pesada, no jogo do Oriente Médio.

Embora Turquia e Rússia estejam em lados opostos do conflito na Síria, o atentado não levará necessariamente a uma deterioração das relações entre os dois países. Apenas requererá um esforço extra do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, de reprimir esse nascente movimento anti-russo em seu país. Mas Erdogan já estava com a “mão na massa”, comandando uma violenta repressão contra curdos e seguidores de Fethullah Gulen, clérigo sufi (seita muçulmana moderada) exilado na Pensilvânia, acusado de orquestrar a tentativa de golpe militar de julho. Milhares de pessoas foram presas, e escolas, universidades, entidades sociais e veículos de imprensa, fechados.

Depois de um rompimento entre Turquia e Rússia por causa do conflito na Síria, Erdogan reatou com o presidente Vladimir Putin, enviando-lhe uma carta em 27 de junho, na qual se desculpou pela derrubada de um caça russo, expressou suas “profundas condolências” à família do piloto morto e disse que faria “tudo o que fosse necessário” para restaurar as relações entre os dois países.

No dia seguinte, o Estado Islâmico (EI) realizou seu sexto atentado em um ano na Turquia, matando 42 pessoas e ferindo mais de 230. As autoridades turcas anunciaram que o atentado tinha sido planejado pelo checheno Akhmed Chatayev, o terrorista mais procurado pela Rússia, e que seus autores provinham a república russa do Daguestão e das antigas repúblicas soviéticas do Usbequistão e do Quirguistão. Estava pavimentado o caminho para uma colaboração entre Turquia e Rússia no âmbito da inteligência antiterrorismo.

Putin ligou para Erdogan um dia depois do atentado do EI, e ambos falaram em colaborar não só no combate ao terrorismo, mas também nos problemas de segurança regionais — ou seja, na busca de uma solução para o conflito na Síria. Isso não avançou muito. Mas a Turquia seguiu na sua estratégia de combater os guerrilheiros curdos no norte da Síria, o que interessa ao regime sírio e aos seus aliados russos. Se por um lado esses guerrilheiros combatem o Estado Islâmico, inimigo dos três países, por outro, ocupam territórios no norte da Síria.

O rompimento com a Rússia, deflagrado pela derrubada do avião no dia 1.º de dezembro de 2015, golpeou o setor de turismo na Turquia, que responde por 5% de seu PIB. O mesmo ponto vulnerável que o EI atinge com seus atentados, um deles no aeroporto de Istambul, o terceiro mais movimentado da Europa, e outro nas proximidades da mesquita Sultanahmet, quando matou dez turistas alemães.

Depois da derrubada do caça, o governo russo proibiu a venda de pacotes e vôos charter para a Turquia, destino muito apreciado pelos turistas russos. Com o reatamento entre os dois presidentes, essa proibição foi levantada, e a gigante russa da energia Gazprom anunciou a retomada das negociações sobre a construção de um gasoduto para a Europa, passando pela Turquia.

De acordo com o especialista turco em assuntos árabes Mustafa Gurbuz, pesquisador do Arab Center, de Washington, a tentativa de golpe de julho aproximou ainda mais a Turquia da Rússia. O expurgo dos oficiais acusados de participar do golpe, explica Gurbuz, deu força à corrente dos “eurasianistas” nas Forças Armadas, “generais secular-nacionalistas que têm profundos ressentimentos contra a Otan (Organização do Tratado do Atlântico do Norte)”, a aliança de defesa ocidental liderada pelos Estados Unidos, percebida por Putin como hostil à Rússia.

O assassinato do embaixador russo acelerará o já galopante avanço da Turquia em direção a um Estado militarista autoritário, com uma insólita aliança entre as Forças Armadas — cuja principal missão era originalmente salvaguardar a separação religião-Estado — e o regime islâmico moderado de Erdogan. Da mesma maneira, Putin ganhou mais um motivo para seguir na sua campanha belicista de restauração do “orgulho nacional russo”.

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