Mundo

Trump volta a ameaçar romper relações com a Espanha

Americano critica país por não colaborar na guerra contra o Irã

Premiê espanhol, Pedro Sánchez (Esq.), e o presidente americano, Donald Trump, trocam críticas públicas há meses (AFP)

Premiê espanhol, Pedro Sánchez (Esq.), e o presidente americano, Donald Trump, trocam críticas públicas há meses (AFP)

Publicado em 8 de julho de 2026 às 11h36.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a elevar as tensões com a Espanha ao ameaçar a suspensão imediata das relações comerciais com o país durante a cúpula da Otan, realizada em Ancara, nesta quarta-feira, 8.

“Eu não quero fazer nenhum comércio com eles, certo?” Trump disse, voltando-se para Bessent, que respondeu: “Sim, senhor”. Trump então acrescentou: "Aceite imediatamente. Nem fale com eles. Eles não têm esperança. São pessoas más... Eles ganham muito dinheiro conosco e garantiremos que ganharão muito menos."

Até a publicação desta reportagem, Trump não havia oficializado a medida.

A fala, em meio às discussões sobre o aumento dos gastos militares da aliança e à guerra envolvendo o Irã, intensifica o confronto entre Washington e Madri, embora sua implementação esbarre nas regras da União Europeia, que centralizam a política comercial do bloco.

Trump justificou a decisão pela recusa do governo espanhol em aderir à nova meta da Otan de elevar os gastos com defesa para 5% do PIB. O presidente classificou a Espanha como uma "parceira terrível" e uma "causa perdida", ordenando ao secretário do Tesouro, Scott Bessent, que interrompesse imediatamente qualquer negociação comercial com o país.

"A Espanha não concorda com nada, e vocês não deveriam carregá-la nas costas", disse Trump ao Secretário-Geral da OTAN, Mark Rutte, que mais tarde tentou amenizar a tensão afirmando que a Espanha "deu um grande passo no ano passado" ao elevar seus gastos para 2%, embora tenha acrescentado que "ainda há questões que precisamos resolver".

Foi a segunda vez em poucos meses que Trump anunciou sanções comerciais contra Madri pelo mesmo motivo. Em março, contudo, uma ameaça semelhante não produziu efeitos práticos, e o fluxo comercial entre os dois países permaneceu inalterado.

Rixa diplomática

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, fala à imprensa durante a cúpula da Otan (SAMUEL CORUM/AFP)

A crise vai além da disputa sobre financiamento da Otan. Trump também tem demonstrado insatisfação com o governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez por recusar-se a autorizar o uso do espaço aéreo e de bases militares espanholas para operações ligadas à guerra contra o Irã.

A resposta espanhola buscou minimizar o impacto das declarações. O gabinete de Sánchez, em comunicado, afirmou tratar os comentários do presidente americano como "parte da normalidade" das relações atuais com Washington e ressaltou que os vínculos entre os dois países permanecem sólidos e lucrativos e são formados por empresas privadas, e não por governos.

O endurecimento do discurso também contrasta com o interesse contínuo dos investidores americanos pela economia espanhola. A gestora BlackRock classificou recentemente a Espanha como seu principal mercado de investimentos em ações entre as economias desenvolvidas, destacando o crescimento econômico superior ao da maior parte da Europa. Embora o investimento líquido dos Estados Unidos no país tenha recuado no primeiro trimestre de 2026, grandes empresas americanas continuam ampliando sua presença no mercado espanhol.

As autoridades espanholas também destacaram que o país registra déficit comercial com os Estados Unidos e lembraram que, como integrante da União Europeia, não negocia acordos comerciais individualmente, o que reduz a viabilidade jurídica de eventuais sanções direcionadas exclusivamente ao país.

A economia da Espanha possui forte presença no comércio com os Estados Unidos, especialmente por meio das exportações de azeite, autopeças, aço, produtos químicos e vinho. Ainda assim, analistas consideram que o país é relativamente menos vulnerável a eventuais retaliações americanas do que outras economias europeias, sobretudo porque sua integração ao mercado comum europeu dificulta a adoção de medidas comerciais direcionadas exclusivamente contra Madri.

Na prática, especialistas consultados pela Reuters avaliam que uma medida unilateral contra a Espanha enfrentaria obstáculos legais. Para impor restrições comerciais específicas, Trump teria de declarar uma emergência nacional e demonstrar que Madri representa uma ameaça à segurança nacional, à política externa ou à economia dos Estados Unidos, requisitos previstos na legislação americana.

Acompanhe tudo sobre:EspanhaDonald TrumpOtan

Mais de Mundo

Argentina pode ser punida pela Fifa por faixa sobre as Ilhas Malvinas

EUA concentrarão esforços de combate ao terrorismo em grupos de esquerda, diz Rubio

EUA lançam moeda comemorativa de US$ 1 com rosto de Donald Trump

'Cenário tende a piorar e vai corroer competitividade da indústria', diz CNI após tarifaço dos EUA