Dua Lipa em show na Austrália, no ano passado (James D. Morgan/Getty Images)
Repórter
Publicado em 18 de novembro de 2025 às 15h41.
O Reino Unido deve aprovar nessa semana uma nova medida que visa controlar a revenda de ingressos para shows e demais eventos – muitas vezes comprados automaticamente por programas e bots em plataformas famosas como o Viagogo – cujos preços são inflados no processo.
A decisão deve ser anunciada nessa quarta-feira, 19, após pressões de artistas mundialmente famosos como Dua Lipa, Radiohead e Coldplay que submeteram um apelo ao primeiro-ministro do Reino Unido Keir Starmer para que controlasse os preços altos das revendas.
Ministros da região estavam considerando permitir a revenda com até 30% do valor original adicionado. Todavia, apuração do jornal britânico The Guardian, que teve acesso exclusivo às negociações, sugere que o novo plano prevê proibir qualquer venda acima do valor original do bilhete. Além disso, quaisquer revendas não poderão incluir ingressos adicionais – ou seja, não será permitido vender mais ingressos do que o permitido pela organização do evento por pessoa.
Destino popular para bandas, o Reino Unido possui um dos maiores mercados de revendas de ingressos do mundo, que atrai a atenção de atores estrangeiros. Impulsionado ainda mais pela muito antecipada reunião da banda Oasis, investigação do The Guardian encontrou ofertas de ingressos para shows do conjunto com valor somado de 26 mil libras – distribuídas entre apenas 3 revendedores.
O veículo revela que ingressos para um show da banda Coldplay no estádio de Wembley estavam ofertados por cerca de 810 libras. Para o show do Oasis também no estádio de Wembley, que era um dos mais aguardados, bateram as 3.400 libras na plataforma StubHub UK, e até 4.400 no Viagogo.
Liam Gallagher e Noel Gallagher, irmãos que formam a banda Oasis (Paul Bergen/Redferns) (Paul Bergen / Colaborador/Getty Images)
Os exemplos mais extremos da investigação foram ingressos identificados pela plataforma britânica de comparação de preços Which? que encontrou ingressos para o festival de música All Points East, na capital de Londres, por £ 144.666 na plataforma Viagogo.
Companhias baseadas no Chipre, em Dubai, em Singapura e nos Estados Unidos também ofertam milhares de ingressos no mercado britânico.
A prática é especialmente predatória por fazer uso de programas e bots para reservar milhares de ingressos à granel, privando fãs de conseguirem seus ingressos ao preço planejado pela organização dos eventos, tendo que pagar taxas muito infladas.
Ainda existe o perigo que revendedores não tenham acesso aos ingressos que vendem. Trata-se de uma “venda especulativa”: eles vendem ingressos que ainda não possuem, ganhando dinheiro adiantado, e conseguindo o ingresso apenas mais tarde, ou muitas vezes não conseguindo o produto. Dois revendedores foram presos no Reino Unido em 2020 por fraudes associadas à prática, segundo o The Guardian.
As ações do StubHub Holdings, dona do Viagogo, caíram 14% nessa segunda-feira,17, após o anúncio da medida, de acordo com reportagem da Reuters, o que gerou dúvidas sobre a continuação dos serviços dessas empresas no Reino Unido, já que não poderão mais lucrar tanto com as revendas. Enquanto isso, houve um aumento em plataformas de revenda que oferecem ingressos ao seu valor original, como Twickets e Ticketmaster.
Empresas afetadas pela medida tentam convencer parlamentares a não aprovar a mudança. A maior entre suas advertências contra a medida é que tal proibição não impedirá necessariamente a prática – revendas infladas poderão ocorrer em mercados paralelos, onde seria mais difícil controlar fraudes.
“Com um teto de preços nos mercados regulamentados, as transações de ingressos passarão para o mercado negro”, afirmou ao The Guardian um representante da StubHub.
Um porta-voz da Viagogo disse ao mesmo veículo: “As evidências mostram que os tetos de preços têm repetidamente prejudicado os fãs. Em países como a Irlanda e a Austrália, as taxas de fraude são quase quatro vezes maiores do que no Reino Unido, pois os tetos de preços levam os consumidores a sites não regulamentados”. Continua: “Abrir o mercado para maior competição também ajuda a reduzir os preços, o que beneficia fãs.”
As empresas esperam convencer políticos a pelo menos não abandonar a ideia de um limite de 30% na inflação dos preços, algo cogitado no planejamento da medida.