A apenas 2 reais, ações da multinacional Dangote se tornam acessíveis a milhares de nigerianos, estimulando a economia nacional e o lugar do país no mercado de combustíveis (John Moore/Getty Images)
Repórter
Publicado em 23 de setembro de 2026 às 07h00.
RESUMO | A refinaria da nigeriana Dangote prepara uma oferta pública de ações que pretende captar US$ 1,6 bilhão e avaliar o empreendimento em quase US$ 50 bilhões. O IPO da refinaria Dangote terá ações a 525 nairas e busca atrair até 10 milhões de investidores para o maior projeto industrial africano desta geração.
A refinaria da multinacional nigeriana Dangote prepara uma oferta pública de ações que pretende levar uma parcela do empreendimento a milhões de investidores nigerianos no que se tornou o maior projeto industrial da África nesta geração.
O empresário Aliko Dangote, homem mais rico da África, espera que até 10 milhões de pessoas participem da operação, com a compra mínima de 10 ações a 525 naira cada, cerca de US$ 0,40, ou pouco mais de R$ 2.
A oferta deve levantar US$ 1,6 bilhão e atribuir à refinaria uma avaliação próxima de US$ 50 bilhões. O empreendimento, construído ao longo de uma década em uma área pantanosa nos arredores de Lagos, a capital do país, exigiu cerca de US$ 20 bilhões em investimentos e tem capacidade atual de 700 mil barris por dia, o que o torna a maior refinaria de petróleo de linha única do mundo.
A abertura de capital ocorre em um momento simbólico para a economia nigeriana. Durante décadas, a Nigéria esteve entre os maiores produtores de petróleo da África, mas exportava grandes volumes de petróleo bruto enquanto precisava importar gasolina, diesel e combustível de aviação. O modelo consumia reservas em moeda estrangeira e reforçava uma economia dependente da intermediação e da renda do petróleo.
A operação da refinaria começou a alterar essa dinâmica. Além de reduzir a necessidade de importações de combustíveis, o complexo industrial de Dangote tem capacidade, em tese, de tornar a Nigéria autossuficiente na produção de fertilizantes e de polipropileno, ampliando a transformação doméstica de recursos naturais.
Irã: guerra amplia cautela e faz petróleo saltar. Com isso, novos produtores, especialmente na África, podem conquistar maior protagonismo na indústria (Atta Kenare/AFP/Getty Images)
O empreendimento também entrou em operação em um momento favorável. Conforme a guerra no Irã sufoca os mercados globais de combustíveis, a refinaria amplia sua capacidade e passa a fornecer a commodity a outros países, sobretudo na forma de diesel e de combustível de aviação. Segundo o Financial Times (FT), sua produção contribuiu para a manutenção das operações das companhias aéreas europeias, enquanto a expansão das margens de refino aumentou notavelmente os lucros da empresa.
O desempenho, porém, ajuda a explicar uma das principais dúvidas em torno da oferta pública. A avaliação de quase US$ 50 bilhões é considerada elevada em relação aos US$ 20 bilhões gastos na construção e representa um prêmio de quase 10% sobre os US$ 2,5 bilhões captados em uma colocação privada realizada em julho.
Outro ponto de atenção é a baixa parcela das ações que estará efetivamente disponível para negociação. O chamado free float será de apenas 3,3%, o que pode limitar a liquidez dos papéis e dificultar a entrada e saída de investidores. Dangote sustenta que o preço deve ser analisado também à luz dos planos de expansão da refinaria.
A empresa pretende dobrar a capacidade para 1,4 milhão de barris por dia (bpd) entre 2028 e 2029. A aposta é que a participação no crescimento futuro compense o valor mais elevado atribuído ao ativo no momento da abertura de capital.
Para o FT, a oferta também terá um significado mais amplo caso consiga popularizar o investimento em empresas produtivas na Nigéria. O movimento é comparado ao processo de privatização britânico dos anos 1980, que visava ampliar a participação de pequenos investidores no mercado acionário.
Com projeto industrial inédito, Nigéria aposta na sua vasta base de pequenos investidores para conseguir lugar no mercado global de combustíveis (Derek Brumby/Getty Images)
O sucesso desse modelo, contudo, dependerá dos pequenos acionistas conseguirem capturar parte dos ganhos gerados pelo empreendimento. Existe o risco, segundo a análise, de que investidores comprem as ações em meio aos atuais lucros elevados da refinaria e, posteriormente, enfrentem uma queda no valor das ações caso essas condições excepcionais desapareçam.
A estratégia de financiar infraestrutura africana com capital africano também expõe um problema estrutural do continente. Segundo o FT, a África possui até US$ 4 trilhões em ativos financeiros, mas uma parcela reduzida desse capital é destinada a investimentos de risco em atividades produtivas. Parte significativa acaba sendo aplicada em títulos públicos de alto rendimento.
Nesse cenário, o desenvolvimento de mercados de capitais mais profundos poderia direcionar uma parcela maior da poupança africana para a infraestrutura e a indústria. A Nigéria, por sua vez, poderia aproveitar o processo para fortalecer Lagos como centro financeiro regional.
A trajetória da própria refinaria, porém, evidencia os obstáculos. Para tornar o projeto economicamente viável, Dangote precisou construir infraestrutura de apoio ao redor do empreendimento, em um país marcado por estradas e portos precários e por um sistema de energia caro ou insuficiente. Mesmo após a conclusão da refinaria, interesses estabelecidos, incluindo empresas estatais, dificultaram inicialmente o acesso ao petróleo bruto necessário para manter as operações.
O caso Dangote, portanto, combina o potencial e as limitações do investimento privado na África. O empreendimento demonstra que projetos industriais de grande escala podem sair do papel, mas também evidencia como deficiências de infraestrutura, o ambiente tributário e a interferência de interesses estabelecidos podem dificultar a expansão de empresas privadas.
Para o continente, a refinaria pode representar tanto um modelo a ser seguido quanto um exemplo de quão excepcional ainda é alcançar esse nível de escala.
A refinaria Dangote pretende levantar US$ 1,6 bilhão e alcançar uma avaliação próxima de US$ 50 bilhões. Aliko Dangote espera atrair até 10 milhões de investidores para a operação.
O investimento mínimo será de 10 ações, vendidas a 525 nairas cada. O preço unitário equivale a cerca de US$ 0,40, ou pouco mais de R$ 2.
A refinaria tem capacidade atual de 700 mil barris por dia, o que a torna a maior refinaria de petróleo de linha única do mundo. A empresa pretende dobrar esse volume para 1,4 milhão de barris diários entre 2028 e 2029.
A refinaria reduz a necessidade nigeriana de importar gasolina, diesel e combustível de aviação, apesar de o país ser um grande produtor de petróleo. O complexo também tem capacidade, em tese, para tornar a Nigéria autossuficiente em fertilizantes e polipropileno.
A avaliação próxima de US$ 50 bilhões é considerada elevada diante dos US$ 20 bilhões investidos na construção. Além disso, apenas 3,3% das ações ficarão disponíveis para negociação, o que pode limitar a liquidez dos papéis.
Sim, caso amplie a participação de pequenos investidores em empresas produtivas e direcione mais capital para infraestrutura e indústria. Segundo o Financial Times, a África possui até US$ 4 trilhões em ativos financeiros, mas uma parcela reduzida é aplicada em investimentos produtivos de risco.