Mundo

Quem é Raúl Castro, alvo dos EUA em Cuba

Irmão de Fidel Castro, creditado como o patriarca do atual regime comunista de Cuba, Raúl é figura importante para a elite política do país, mesmo beirando os 95 anos de idade

Conheça Raúl Castro, ex-guerrilheiro, revolucionário comunista e presidente de Cuba, indiciado pelos estados unidos por um alegado crime há 30 anos (Alejandro Ernesto/AFP/AFP)

Conheça Raúl Castro, ex-guerrilheiro, revolucionário comunista e presidente de Cuba, indiciado pelos estados unidos por um alegado crime há 30 anos (Alejandro Ernesto/AFP/AFP)

Publicado em 22 de maio de 2026 às 06h01.

O ex-presidente Raúl Castro, famoso protagonista da revolução cubana, depois de seu irmão Fidel, e a figura viva mais proeminente do sistema, foi indiciado nos EUA nesta quarta-feira, 20, pelo controverso abate de dois pequenos aviões que matou quatro pessoas há 30 anos, poucos dias antes de seu 95º aniversário, em 3 de junho.

A decisão ataca uma figura de grande valor simbólico para a elite governante cubana, uma pessoa com um legado complexo que permeia os aspectos políticos, econômicos e sociais de um país em crise tão grave quanto estrutural.

A ilha de hoje não pode ser compreendida sem a ortodoxia comunista inicial de Castro, nem sem seu tímido reformismo dos últimos anos, que facilitou um "descongelamento" temporário com os Estados Unidos. Tampouco pode ser compreendida sem seu compromisso com a institucionalização do Estado e das Forças Armadas, com o fortalecimento do aparato de inteligência e de repressão política para suprimir a dissidência e submeter grande parte da economia nacional ao controle militar.

Apesar de ter se aposentado formalmente de seus cargos políticos entre 2018 e 2021, Castro – um ditador inescrupuloso para alguns, mas um líder à frente da revolução para outros – continuou a manter "um pé no estribo", como ele mesmo disse, em decisões importantes do país e nas negociações atuais com os Estados Unidos.

Ele deixou sua marca como presidente (2006-2018), por vezes contrariando os desejos explícitos de Fidel. Por exemplo, implementou uma série de reformas econômicas e restabeleceu as relações com Washington durante o chamado "descongelamento". Ele também fez isso como primeiro-secretário do Partido Comunista de Cuba (PCC, o único partido legal) entre 2011 e 2021, selecionando e dando lugar a uma nova geração de líderes sem passado guerrilheiro e sem o sobrenome Castro, a começar pelo atual presidente, Miguel Díaz-Canel.

Raúl também deixou sua marca como Ministro das Forças Armadas Revolucionárias por quase cinco décadas (1959-2008), durante as quais estruturou o exército segundo critérios de eficiência, mas também de pureza ideológica e de laços pessoais. Analistas apontam o Exército como uma instituição fundamental na ilha, tanto em termos de capacidade operacional quanto de poder político e econômico.

Por meio da Gaesa, um conglomerado empresarial, o exército passou a controlar grande parte da economia nacional a partir da década de 1990, perto de 40% do produto interno bruto (PIB), segundo algumas estimativas: de hotéis e comércio exterior a telecomunicações, portos, remessas e venda de combustíveis, além de possuir empresas de transporte, distribuição varejista, setor imobiliário e serviços bancários.

Raúl não era carismático, habilidoso com a mídia ou visionário como seu irmão Fidel — que liderou Cuba de 1959 a 2006 —, mas sim um indivíduo pragmático e discreto, focado em gestão e controle, que preferia exercer o poder com mão de ferro, porém nos bastidores. Ele foi um colaborador próximo de Fidel e, para muitos de seus biógrafos, uma figura complementar.

Hoje, Raúl Castro é a figura principal da "geração histórica", o círculo fechado que assumiu o poder em 1959 e implementou um sistema socialista de estilo soviético em Cuba.

Reformas e degelo

Durante seu mandato presidencial, Castro promoveu reformas econômicas – ainda que tímidas, lentas e com altos e baixos – para sair da depressão do chamado "período especial", a grave crise desencadeada em Cuba com o colapso do bloco socialista europeu.

Seu governo facilitou viagens ao exterior e permitiu o retorno de emigrantes; expandiu o trabalho autônomo; permitiu a compra de carros, casas e celulares; autorizou cubanos a se hospedarem em hotéis na ilha; e começou a permitir o acesso à internet (embora ainda não por meio de telefones celulares), pondo fim ao monopólio estatal da informação.

Ele também reorganizou a administração pública segundo critérios de eficiência, rentabilidade e sustentabilidade, reestruturando ministérios e empresas estatais ineficientes, o que resultou em demissões em massa. Além disso, reduziu a ajuda e os serviços públicos e decidiu retomar o pagamento da dívida externa, que seu irmão havia ignorado por décadas.

Essas reformas deram origem a um setor privado emergente – principalmente sob a forma de restaurantes e casas para aluguel nas maiores cidades – que ajudou a impulsionar a economia, embora também tenha gerado desigualdades econômicas e setores vulneráveis em uma sociedade antes marcadamente homogênea.

Ele também liderou novos processos de "descongelamento" com os Estados Unidos durante o governo do presidente Barack Obama (2009-2017), o que levou à normalização das relações diplomáticas, embora muitas sanções tenham permanecido em vigor. A chegada de Donald Trump à Casa Branca reverteu esses avanços e intensificou o bloqueio ou embargo, que se agravou significativamente nos últimos meses.

Castro, o quarto de sete filhos, nasceu em 3 de junho de 1931, em Birán (leste de Cuba), filho de um proprietário de terras espanhol e de uma cubana. Estreitamente ligado desde o início ao seu irmão Fidel, seguiu seus passos juntando-se à oposição a Fulgencio Batista (1952-1959) e, posteriormente, à revolta guerrilheira que o depôs (1956-1959).

Considerado uma pessoa reservada e dedicada à família, ele era casado com a também líder revolucionária Vilma Espín, com quem teve quatro filhos.

Com informações da AFP

Acompanhe tudo sobre:CubaFidel CastroEstados Unidos (EUA)Comunismo

Mais de Mundo

Bolívia enfrenta onda de protestos pedindo resignação de Rodrigo Paz

Trump volta atrás e determina envio de 5 mil militares à Polônia

Prolongamento do bloqueio de Ormuz ameaça provocar uma recessão comparável à de 2008, diz agência

Economia da Argentina tem recuperação maior do que a esperada em março