De acordo com a organização civil Iran Human Rights (IHRNGO), com sede em Oslo, ao menos 192 pessoas morreram desde o início dos protestos (NurPhoto / Colaborador/Getty Images)
Repórter
Publicado em 11 de janeiro de 2026 às 13h05.
Os protestos que se espalham pelo Irã desde 28 de dezembro expõem uma combinação de crise econômica com a inflação elevada, repressão estatal e tensão geopolítica que leva o regime do aiatolá Ali Khamenei de volta ao centro das atenções internacionais.
Segundo a organização civil Iran Human Rights (IHRNGO), com sede em Oslo, ao menos 192 pessoas morreram desde o início dos protestos em decorrência da repressão do governo às manifestações.
“O que acontece no Irã é uma revolta popular em função do aumento do custo de vida”, afirma Vinícius Vieira, professor de Relações Internacionais da FAAP e da FGV.
Segundo o professor, a desvalorização de cerca de 40% da moeda iraniana frente ao dólar no último ano pressionou a inflação e corroeu o poder de compra da população, funcionando como um dos principais gatilhos dos protestos.
“Há produtos disponíveis, mas as pessoas não conseguem mais manter o padrão de vida. Isso une grupos muito distintos da sociedade.”
Para Vitelio Brustolin, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador da Universidade Harvard, o contexto atual é resultado de uma somatória histórica.
“O Irã carrega um passado de intervenções externas, repressão interna e isolamento internacional", afirma. "Soma-se a isso a crise econômica, os gastos elevados com armamento e o financiamento de grupos no exterior, enquanto a população enfrenta condições de vida cada vez piores.”
A revolta popular, segundo Vieira, representa um dos maiores testes à estabilidade do regime em décadas — ainda que não indique, no curto prazo, sua queda.
“Pela primeira vez em muitos anos, o regime está realmente na berlinda”, diz Vieira.
Ainda assim, ele ressalta que o governo não está prestes a cair. “Isso depende de uma oposição unificada e, principalmente, de defecções internas, o que ainda não está acontecendo”, afirma.
Diferentemente de levantes anteriores, o atual movimento reúne setores diversos — de reformistas a cidadãos que não defendem o fim da República Islâmica, mas exigem mudanças profundas na condução política e econômica do país.
O regime iraniano tem respondido aos protestos com repressão intensa, cortes no acesso à internet e restrições à atuação da imprensa estrangeira.
“Esse padrão é histórico”, afirma Brustolin. “A repressão violenta, o bloqueio de informações e o controle da narrativa fazem parte da forma como o regime reage a ameaças internas.”
A morte de Mahsa Amini, em 2022, após ser detida pela polícia da moralidade por não usar corretamente o hijab, segue como um marco simbólico dessa violência.
O episódio desencadeou protestos nacionais e deixou centenas de mortos, aprofundando a insatisfação popular — especialmente entre jovens e mulheres.
Diante da violência contra civis, o presidente americano Donald Trump se posicionou em uma publicação na rede Truth Social.
"O Irã está olhando para a LIBERDADE, talvez como nunca antes. Os Estados Unidos estão prontos para ajudar!!!".
Em meio à escalada interna, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, afirmou neste domingo que, em caso de um ataque americano, “tanto os territórios ocupados (Israel) quanto todos os centros militares, bases e navios” dos Estados Unidos e de Israel na região “serão alvos legítimos”.
Para os especialistas, a declaração tem forte peso simbólico, mas não representa necessariamente uma decisão operacional.
“No Irã, a última palavra é sempre do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. O Parlamento expressa uma posição política, não uma ordem militar”, diz Brustolin.
Vieira avalia ainda que ameaças externas fazem parte da estratégia do regime quando se sente acuado.
“Se o governo se vir à beira do colapso, pode adotar uma lógica quase suicida, atacando Israel ou bases americanas na região para tentar sobreviver politicamente”, afirma.
Ainda assim, o professor da FAAP e da FGV considera improvável um ataque direto ao território americano.
Um eventual novo confronto militar se somaria aos bombardeios realizados em junho de 2025, durante a chamada Operação Martelo da Meia-Noite, quando os Estados Unidos atacaram três instalações nucleares iranianas.
Imagem de satélite divulgada pela Maxar Technologies e datada de 1º de julho de 2025 mostra uma visão geral do complexo da Usina de Enriquecimento de Combustível de Fordow, a cerca de 30 quilômetros ao norte de Qom, no centro do Irã (Maxar Technologies/AFP)
A ação foi uma resposta aos ataques iranianos contra Israel, que, semanas antes, havia bombardeado os mesmos locais e assassinado figuras de alto escalão da Guarda Revolucionária. Desde então, a tensão regional permanece elevada.
“Qualquer novo ataque pode abrir espaço para uma escalada de grandes proporções”, afirma Vieira. “Mesmo ações limitadas, como o uso de drones, podem desencadear retaliações desproporcionais.”
Os drones iranianos, amplamente utilizados por aliados de Teerã e fornecidos à Rússia na guerra da Ucrânia, são vistos como um fator de dissuasão e pressão psicológica, mas com impacto militar limitado contra Israel.
“Os sistemas de defesa israelenses são robustos”, afirma Brustolin. O maior risco, segundo ele, está nos mísseis balísticos e no efeito político de uma escalada.
Para os Estados Unidos, a ameaça também é indireta. “O Irã não tem capacidade de atingir o território americano, mas pode alvejar tropas dos EUA no Oriente Médio”, afirma o pesquisador de Harvard.
Uma escalada da crise no Irã teria efeitos imediatos sobre a economia e a segurança internacionais, com destaque para o mercado de energia e o equilíbrio geopolítico no Oriente Médio.
Como um dos principais produtores de petróleo do mundo, qualquer instabilidade prolongada no país tende a pressionar os preços do barril e aumentar a volatilidade global.
“Os dois cenários — tanto a repressão contínua quanto uma intervenção externa — trazem instabilidade para o mundo por conta da questão do petróleo”, afirma Vieira, da FAAP e da FGV. Segundo ele, embora o impacto possa ser parcialmente amortecido por mudanças recentes no mercado energético, o risco permanece.
“Sempre haverá o medo de que o conflito vá para além das fronteiras iranianas e leve o Oriente Médio a um estado de conflagração.”
Além do petróleo, o risco central está na ampliação do conflito para uma escala regional, envolvendo aliados e rivais estratégicos. Para o professor, uma reação militar mais dura de Israel, por exemplo, poderia desencadear um efeito dominó.
“Qualquer baixa em Israel pode levar a uma retaliação desproporcional, o que abre espaço para um conflito regional de grandes proporções”, diz.
Brustolin também reforça que a crise iraniana se conecta a um tabuleiro geopolítico já sobrecarregado por outras guerras.
“O Irã é um aliado estratégico da Rússia e um parceiro político importante da China. Um enfraquecimento ou queda do regime altera o equilíbrio de forças em um sistema internacional que já está extremamente tensionado”, afirma.
A limitação da capacidade russa de proteger seus aliados amplia também a imprevisibilidade do cenário.
“A Rússia não conseguiu defender o Irã em 2025, assim como não conseguiu proteger outros aliados. Isso mostra que os pactos de segurança estão fragilizados, o que aumenta o risco de instabilidade global”, diz o pesquisador da Universidade de Harvard.
Veja também: Bandeira da monarquia iraniana é hasteada em embaixada em Londres
Apesar da gravidade da crise, ambos os especialistas avaliam que a queda do regime depende de rupturas internas, especialmente dentro da Guarda Revolucionária.
“Regimes autoritários só caem quando parte do próprio regime rompe”, diz Vieira.
O maior perigo, segundo Vieira, não está apenas em uma guerra imediata, mas na soma de crises simultâneas.
“Quando você adiciona a instabilidade do Irã a conflitos como Ucrânia e Gaza, cria-se um ambiente propício para uma escalada sistêmica”, afirma Vieira. “Não é do interesse de ninguém que isso aconteça, mas o risco existe e não pode ser ignorado.”