Por que o 'Dieselgate' da Volks virou caso de saúde pública?

Mais de 11 milhões de carros da marca foram equipados com software que mascara emissões de poluentes

São Paulo - A Volkswagen admitiu ontem (23) que pelo menos 11 milhões de carros a diesel em todo o mundo foram equipados com um motor (do tipo EA 189) que poderia distorcer os dados de emissão de gases poluentes na atmosfera.

Na última sexta (18), a Agência de Proteção do Meio Ambiente (EPA) dos Estados Unidos acusou a marca alemã de mascarar o desempenho dos motores durante os testes oficiais através de um software "manipulador" incorporado no veículo.

A principal preocupação da EPA é a alteração de dados relativos à emissão de óxidos de nitrogênio (NOx), gases reativos que são uma das principais fontes de poluição urbana.

Pesquisadores da Universidade de West Virginia rastrearem as emissões dos veículos da marca com motores a diesel em estradas e descobriram que as emissões de NOx eram de 10 a 40 vezes maiores do que o permitido pela EPA.

Uma análise do jornal britânico The Guardian estima que os 11 milhões de veículos defeituosos da VW em todo o mundo podem ter emitido entre 237 e 948 mil toneladas de gases poluentes por ano.

Para se ter uma ideia, "a maior estação de energia da Europa, a Drax, no Reino Unido, emite 39.000 toneladas de NOx a cada ano", compara o jornal.

Perigo a céu aberto

Na presença da luz solar, os óxidos e dióxidos de nitrogênio (NO2) reagem com outras substâncias primárias, como os compostos orgânicos voláteis, formando poluentes secundários perigosos, entre eles o ozônio.

Estudos recentes têm demonstrado que tais compostos podem causar ou agravar uma série de condições de saúde, como inflamações dos pulmões, que podem desencadear asma e bronquite, e aumento do risco de ataques cardíacos e derrames.

Eles também constituem o chamado "smog", uma névoa de poluição que dificulta a visibilidade nas cidades, além de causar chuva ácida.

Com efeito, uma pesquisa recente atribuiu nada menos do que 23.500 mortes prematuras por ano no Reino Unido à exposição de longo prazo ao dióxido de nitrogênio. O número de pessoas afetadas por problemas de saúde, contudo, tende a ser muito maior.

Escrutínio público

Com o escândalo da Volkswagen, a indústria de automóvel e seus alegados carros a diesel de baixo impacto ambiental devem enfretar um escrutínio público ferrenho.

Especialistas em poluição do ar acreditam que outros fabricantes também podem ter recorrido a versões diferentes de dispositivos manipuladores.

"Praticamente todos os veículos novos nos últimos anos parecem emitir substancialmente mais NOx no mundo real do que quando testados em laboratórios, independentemente do fabricante", disse o professor de Química Atmosférica da Universidade de York, Alastair Lewis, ao The Telegraph.

"A VW foi pega em flagrante, mas é altamente provável que outros também tenham usado artifícios duvidosos para passar nos testes de emissões", acrescentou.

Segundo um relatório europeu divulgado no começo de setembro, nove em cada 10 carros novos com motores a diesel quebram limites de poluição da União Europeia, quando testados em estradas.

A pesquisa, produzida pela consultoria de transporte sustentável Transport & Environment (T&E), revelou que, em condições reais de usos, os veículos chegam a emitir sete vezes mais gases NOx do que o permitido na legislação europeia.

Numa região onde quatro em cada 10 veículos são movidos a diesel, a irregularidade representa um tremendo problema de saúde pública.

A título de comparação, nos EUA, os carros a diesel respondem por menos de 5% da frota de veículos de passeio e, no Brasil, o combustível é proibido há quase 40 anos para carros de passeio. 

Morte do diesel?

Em artigo intitulado "Escândalo da Volks vai acelerar a morte do diesel", Leonid Bershidsky, colunista da Bloomberg, afirma que os motores a diesel modernos são capazes de manter as emissões abaixo dos níveis permitidos.

Ele pontua, contudo, que a implementação da tecnologia necessária torna os carros mais caros, o que pode afetar o desempenho, além de exigir que o motorista monitore o nível de mais um líquido, a ureia, usada para reduzir o volume de oxidação.

"Só há dois caminhos possíveis: garantir que a performance de emissões dos novos carros a diesel seja irretocável — o que não será fácil de fazer no mundo real — ou mudar a produção para veículos híbridos ou elétricos, como fizeram as companhias japonesas, quando decidiram que o diesel estava fadado a acabar", opina o colunista.

Não há dúvidas de que este é apenas o começo do "Dieselgate", como o caso de tem sido mencionado na mídia internacional, em referência ao mais importante escândalo de toda história política dos Estados Unidos, o Caso Watergate, que levou à renúncia do presidente americano Richard Nixon nos anos 70.

E a tendência é que após a polêmica da Volkswagen, os testes devem se tornar mais rigorosos tanto nos EUA como na Europa, e mais montadoras poderão sofrer penalidades pelo não cumprimento das regras de emissões.

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