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Por que a onda de violência na Nigéria se intensifica?

País passa por momento de intensa violência, protagonizada por conflitos internos de natureza religiosa e étnica e por bombardeios americanos, agravado por mudanças climáticas que dificultam a vida de comunidades nômades e de fazendeiros

Moradores e um motociclista circulam entre estruturas destruídas em Offa, na Nigéria em 27 de dezembro de 2025, devido a destroços de munições disparadas em ataques dos EUA contra militantes não especificados ligados ao grupo Estado Islâmico  (Abiodun Jamiu /AFP)

Moradores e um motociclista circulam entre estruturas destruídas em Offa, na Nigéria em 27 de dezembro de 2025, devido a destroços de munições disparadas em ataques dos EUA contra militantes não especificados ligados ao grupo Estado Islâmico (Abiodun Jamiu /AFP)

Publicado em 8 de janeiro de 2026 às 06h01.

A violência na Nigéria, país mais populoso na África, atingiu nessa semana novos níveis de intensidade. A agressão é alimentada principalmente pela luta por recursos entre diferentes etnias e justificada por diferenças religiosas, e é perpetuada por diversos fatores intrínsecos do país.

Com intervenção americana conduzindo bombardeios conjuntos com o governo nigeriano contra alvos conectados ao Estado Islâmico no fim do mês passado, a violência culminou com massacres a vilarejos e ataques às forças armadas nigerianas por militantes extremistas nos últimos dias.

Mais de 30 civis, incluindo mulheres e crianças, perderam suas vidas em um ataque a um mercado num pequeno vilarejo no domingo, 4, e nove soldados nigerianos foram mortos por minas terrestres e disparos de grupos conectados ao Estado Islâmico no dia seguinte.

A violência não é um problema novo para a Nigéria: um relatório das Nações Unidas de 2021 já citava a questão como o "maior obstáculo para o país".

Analistas da plataforma acadêmica Opinio Juris, dedicada à análise e debate do Estado de Direito ao redor do mundo, afirmam que as atrocidades têm diversas causas: além de rixas étnico religiosas, também existe a presença de grupos armados cada vez mais extremistas, baixos níveis de governança, pouca resposta das forças armadas e forte corrupção no governo, entre outras.

A plataforma também oferece números e entendimento sobre a violência no país – conflitos entre pastores de gado, da etnia muçulmana Fulani, que viajam pela Nigéria em busca de alimento para seus animais e fazendeiros assentados cristãos são o epicentro da violência, e geraram, entre outros exemplos, a crise de Benue em junho de 2025, que resultou em mais de 200 mortos no estado do mesmo nome.

Parte das causas por trás do aumento na violência são também ecológicas: mudanças climáticas nos últimos anos têm gerando secas e chuvas imprevisíveis e fazem com que os pastores, normalmente mais presentes no norte do país juntamente com a concentração islâmica da população, migrem cada vez mais longe para sul, onde conflitam mais com fazendeiros cristãos, e saqueiam os vilarejos locais.

A plataforma estima que no fim de 2024 cerca de 3,4 milhões de pessoas estariam internamente deslocadas pela violência, que analistas do Opinio Juris dizem ser perpetuada também por ciclos de ataques retaliatórios.

Mesmo assim, os dados sugerem que violência continua sendo primariamente conduzida por grupos armados majoritariamente dentro das comunidades nômades, alguns alinhados com ideologias extremistas do Estado Islâmico, que é altamente ativo na região.

Dentre esses, existem diversos grupos com baixa organização e coesão conhecidos coloquialmente como “bandidos”, e grupos com maior nível de organização formal, como o extremista islâmico Lakurawa.

Independentemente das motivações específicas, grupos como o Lakurawa e diversos bandidos executam civis, incendeiam vilarejos a fim de destruir propriedade como igrejas, hospitais e moradias, e destroem terras agrícolas ao consumirem plantações com seu gado e poluírem fontes de água.

Além disso, suspeita-se que o Lakurawa tenha estabelecido laços com o Estado Islâmico, que é altamente ativo na região e países vizinhos, e que os grupos estejam coordenando os ataques.

Por meio do aplicativo eyeWitness, uma plataforma verificada para o armazenamento e compartilhamento de mídia (como vídeos e fotos) relacionada a atrocidades, analistas descrevem que a natureza da violência é coordenada e brutal: grupos armados - com frequência pertencentes à etnia Fulani - atacam de maneira semelhante, normalmente durante a noite, e conduzem agressões de maneira indiscriminada, disparando a esmo, fazendo o uso também de armas cortantes como machetes e cutelos, e de fogo, ao incendiarem casas com vítimas dentro.

O aplicativo, através da análise de metadados como localização geográfica, horário e data, é capaz de confirmar a veracidade das mídias, que são subsequentemente armazenadas em um servidor seguro.

O Opinio Juris também diz que, com base em depoimentos por testemunhas e sobreviventes, as forças armadas nigerianas foram em muitos casos alertadas de ataques iminentes, ou de ataques que já estavam ocorrendo, e não interviram, sugerindo uma possível colaboração de elementos militares com grupos armados terroristas.

Membros de grupos da sociedade civil e do Congresso do Trabalho da Nigéria realizam um protesto pacífico em Ikeja, Lagos, Nigéria, em 17 de dezembro de 2025, contra o estado de insegurança no país (Adekunle Ajayi/Getty Images)

O aumento nas agressões resultou em mais incidentes violentos nos últimos dias e semanas, como sequestros e atentados contra as forças armadas da Nigéria.

O forte teor religioso e a intensidade da violência também atraíram a atenção dos EUA, cujo presidente, Donald Trump, conduziu ataques aéreos com o governo local contra alvos alegadamente conectados ao Lakurawa e ao Estado Islâmico.

Trump afirma que os cristãos enfrentam uma “ameaça existencial” equivalente a um “genocídio” no país pelas mãos de extremistas muçulmanos.

Veja abaixo os incidentes mais recentes e mais importantes de violência na Nigéria.

Tiroteio e sequestros em Kasuwan Daji

Ao menos 30 pessoas foram mortas e várias outras foram sequestradas após homens armados terem atacado um mercado no pequeno vilarejo de Demo, que fica no estado de Niger, no norte da Nigéria, nesse domingo dia 4.

Ainda assim, essas figuras são de difícil confirmação devido à falta de cobertura e difícil acesso. Diferentes fontes primárias presentes no local relatam diferentes números.

Os homens, pertencentes a grupos armados localmente conhecidos como bandidos, invadiram o mercado de Kasuwan Daji, incendiando barracas e saqueando alimentos.

"Mais de 30 pessoas perderam a vida durante o ataque, e algumas foram sequestradas. Os esforços para resgatar as vítimas sequestradas continuam”, disse Wasiu Abiodun, um porta-voz da polícia local, à Reuters.

Testemunhas dizem que os bandidos chegaram em motocicletas e abriram fogo indiscriminadamente. Habitantes suspeitam que a violência faz parte de uma série de ataques e saques semelhantes que estariam ocorrendo desde a última sexta-feira nos vilarejos vizinhos de Agwarra e Borgu.

O presidente do país, Bola Tinubu, disse no mesmo dia dos ataques que já havia direcionado as autoridades para a busca dos culpados.

"Também ordenei que todas as vítimas de sequestro sejam resgatadas com urgência e que as operações de segurança em torno de comunidades vulneráveis, especialmente perto de florestas, sejam intensificadas", disse Tinubu em um comunicado.

Todavia, habitantes não confiam na segurança do governo:

"Mulheres e crianças não foram poupadas", disse Dauda Shakulle, que foi ferido enquanto fugia. "Não há presença de forças de segurança desde o início dos ataques. Atualmente, estamos recuperando corpos."

O ataque é um reflexo da violência no país, e segue o sequestro de mais de 300 crianças e funcionários de uma escola católica no mesmo estado apenas algumas semanas antes.

Minas terrestres e ataque a comboio militar

Nessa segunda, 5, ao menos 9 soldados nigerianos foram mortos e vários outros foram feridos quando seu comboio ativou uma mina terrestre, iniciando um ataque por forças do Estado Islâmico.

O incidente ocorreu no estado de Borno, no nordeste da Nigéria, onde lutadores da Província do Estado Islâmico no Oeste da África (ISWAP, na sigla em inglês) operam de maneira livre, e até montam bases e quartéis.

"Os terroristas plantaram uma mina que nossos soldados pisaram. Infelizmente, cerca de nove soldados morreram instantaneamente, enquanto outros cinco ficaram gravemente feridos", disse à Reuters Abba Kaka Tuja, membro da Força-Tarefa Conjunta Civil envolvida na operação de resgate.

Uma explosão atingiu uma mesquita na cidade de Maiduguri, no nordeste da Nigéria, e matou pelo menos sete fiéis em 24 de dezembro de 2025, disseram testemunhas e fontes de segurança à AFP.

Militares inspecionam o local da explosão em uma mesquita no mercado de Gamboru, em Maiduguri, em 25 de dezembro de 2025 (Audu Marte/Getty Images)

Além disso, um veículo blindado do exército nigeriano também foi destruído pela mina.

O nordeste da Nigéria é a região do país com os conflitos mais intensos, devido à presença do ISWAP e do grupo terrorista jihadista Boko Haram, oriundo da Nigéria, que conduz operações terroristas nos países africanos Chade, Niger, Camarões e Mali.

O próprio ISWAP nasceu de uma divisão do Boko Haram.

Bombardeios conjuntos entre os EUA e a Nigéria

Na noite de natal de 2025, os Estados Unidos conduziram um ataque contra militantes do Estado Islâmico, também no nordeste da Nigéria, alegando que o grupo estaria conduzindo ataques contra cristões na região.

"Esta noite, sob minhas ordens como Comandante-em-Chefe, os Estados Unidos lançaram um ataque poderoso e mortal contra a escória terrorista do ISIS no noroeste da Nigéria, que tem como alvo e matado brutalmente, principalmente, cristãos inocentes, em níveis nunca vistos há muitos anos, e até mesmo séculos!", disse o presidente americano Donald Trump em uma postagem na rede social Truth Social.

Moradores e um motociclista circulam entre estruturas destruídas em Offa, na Nigéria em 27 de dezembro de 2025, devido a destroços de munições disparadas em ataques dos EUA contra militantes não especificados ligados ao grupo Estado Islâmico

Moradores e um motociclista circulam entre estruturas destruídas em Offa, na Nigéria em 27 de dezembro de 2025, devido a destroços de munições disparadas em ataques dos EUA contra militantes não especificados ligados ao grupo Estado Islâmico (Abiodun Jamiu /AFP)

Enquanto isso, o ministro do exterior nigeriano Yusuf Maitama Tuggar disse à BBC que os ataques foram uma “operação conjunta” que tinha como alvo “terroristas”, e que não era relacionado com uma religião em particular.

Além disso, Tuggar disse que a operação já estava sendo planejada “há algum tempo”, e que teria sido apoiada por inteligência providenciada pela Nigéria.

O ministério do exterior da Nigéria corrobora, dizendo que os ataques fazem parte de um programa de cooperação para a segurança com os EUA, que envolve compartilhamento de inteligência e coordenação estratégica, utilizados na condução do ataque e em possíveis ataques futuros.

"Isso resultou em ataques aéreos precisos contra alvos terroristas na Nigéria, no Noroeste do país", disse o ministério em uma publicação no X, antigo Twitter.

"Os alvos foram o Estado Islâmico, a organização armada Lakurawa e os 'bandidos'", afirmou à AFP Daniel Bwala, porta-voz do presidente nigeriano, Bola Tinubu. "O grupo do Estado Islâmico fez seu caminho pelo Sahel [região semiárida ao sul do Saara] para ir ao socorro do Lakurawa e de bandidos com suprimentos e treinamento", disse.

A Nigéria enfrenta há muito tempo seu próprio conflito jihadista, mas analistas estão preocupados com a expansão dos grupos armados do Sahel em direção ao país.

"O ataque aconteceu em um local onde, historicamente, os bandidos e os Lakurawa costumam atuar", explicou Bwala.

"As informações compiladas pelo governo americano também indicam que está ocorrendo uma movimentação em larga escala do Estado Islâmico do Sahel para esta região", acrescentou.

Os ataques provocaram vítimas, mas as identidades ainda não foram determinadas, acrescenta o porta-voz.

Todavia, o governo da Nigéria também diz que diversos grupos armados da região atacam tanto muçulmanos quanto cristãos, e que as alegações americanas que apenas cristãos sofrem perseguição não reflete o verdadeiro cenário da violência no país, que é complexo e matizado.

Em uma mensagem natalina publicada no X, o presidente Tinubu disse: "Estou empenhado em fazer tudo ao meu alcance para consagrar a liberdade religiosa na Nigéria e proteger cristãos, muçulmanos e todos os nigerianos da violência."

Com informações da AFP

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