O turismo precisa ser um negócio sustentável, diz executiva da Booking.com

Em 2019, destinos no mundo terão recebido 1,1 bilhão de visitantes. Mais do que nunca, setor precisa pensar em como tornar o turismo um negócio sustentável

Amsterdã – Em 2018, Amsterdã removeu o famoso, e altamente fotografado, letreiro com o nome da cidade de um dos seus principais pontos turísticos, a praça dos museus. Na Tailândia, o governo tomou a radical decisão de encerrar em 2021 as visitas à Maya Bay, onde foi feito o filme “A Praia” (2000) e que hoje recebe em média 5 mil turistas por dia.

Esses são dois exemplos de um fenômeno maior: as pessoas estão viajando cada vez mais. Só nos primeiros meses de 2019, destinos em todo o mundo receberam 1,1 bilhão de visitantes, 43 milhões a mais do que igual período em 2018. Hoje, o turismo representa 10,4% do PIB global.

Apesar dos inegáveis ganhos econômicos que o turismo traz para os destinos, o setor agora está preocupado em encontrar um equilíbrio que o torne o sustentável. Para entender o que isso significa, EXAME conversou com Marianne Gybels, diretora da área de sustentabilidade da Booking.com, um dos maiores sites de viagens do mundo.

Marianne Gybels, diretora de sustentabilidade da Booking.com Marianne Gybels, diretora de sustentabilidade da Booking.com

Marianne Gybels, diretora de sustentabilidade da Booking.com (Booking.com/Divulgação)

Quais problemas o turismo enfrenta hoje?

O que notamos hoje é que há um uso excessivo de recursos, uma propagação desigual de visitantes mundo afora, especialmente no que diz respeito na quantidade de turistas que viajam para um mesmo lugar. Além disso, as comunidades locais muitas vezes não conseguem se beneficiar das visitas que recebem. Portanto, é preciso, mais do que nunca, encontrar um equilíbrio. Não acredito que o problema da sustentabilidade seja maior no turismo que em outras áreas, mas existem essas questões que precisam ser resolvidas.

Por que é preciso pensar em práticas sustentáveis para o setor?

Existe um problema ambiental, claro, já que é difícil viajar e fazer turismo sem deixar pegadas na natureza. No entanto, práticas sustentáveis podem trazer oportunidades importantes para comunidades que desejam entrar no radar dos turistas, ajudando a criar oportunidades de desenvolvimento. Embora existam desafios a serem solucionados, há muitas oportunidades.

Quais os desafios para a promoção do turismo sustentável?

A falta de transparência para os consumidores sobre o que é turismo sustentável é o maior deles. Hoje há diversas certificações que identificam um hotel como verde, por exemplo. Nossas pesquisas apontam que os usuários querem viajar de maneira sustentável, mas não entendem o que isso significa. Há dúvidas sobre se haverá água quente no chuveiro ou se as toalhas serão lavadas, por exemplo. Portanto, precisamos trabalhar essa conscientização e ajudar os nossos parceiros nessa tarefa.

Existe essa demanda por parte das comunidades locais?

Sim, existe. Notamos que há três tipos de comunidades e cada uma delas tem as suas particularidades. Há as que querem aparecer no mapa do turismo, como pequenas cidades no Nepal. Nesse caso, é preciso pensar como fazer com que elas se beneficiem economicamente do turismo, ajudando negócios locais.

No meio, temos destinos que já estão no radar dos turistas, como a Croácia. Embora seja um local que ainda não enfrenta grandes problemas relacionados ao aumento das visitas, precisa de estratégias para garantir que os turistas visitem os lugares certos. Por fim, temos as comunidades que chamamos de maduras, como a cidade de Amsterdã (Holanda), que precisam estabilizar o número de turistas recebidos.

Como lidar com países e governos que rechaçam a importância da sustentabilidade?

Atuamos com governos que querem trabalhar conosco. Se não for possível trabalhar com eles, buscamos outros parceiros. Também estamos trabalhando com o Banco Mundial e a Organização Mundial do Turismo para nos ajudar a chegar em atores políticos e influenciá-los. A ideia é buscar quem se identifica com essa causa, seja ele o pequeno empreendedor, uma grande empresa ou mesmo um governo. É isso que nos levará mais longe na busca por tornar o turismo um negócio sustentável.

Apoie a Exame, por favor desabilite seu Adblock.