O que é a sharia, a lei islâmica seguida pelo Talibã

Outros grupos fundamentalistas, como o Estado Islâmico, que governou boa parte do Iraque entre 2014 e 2017, seguem os mesmos preceitos
Mulheres de burca no Afeganistão: uso da vestimenta é obrigatório para o Talibã (Getty Images/Getty Images)
Mulheres de burca no Afeganistão: uso da vestimenta é obrigatório para o Talibã (Getty Images/Getty Images)
Carla Aranha
Carla AranhaPublicado em 19/08/2021 às 08:57.

O livro sagrado dos muçulmanos, o Alcorão, traz não só os ensinamentos de Maomé, profeta fundador do islamismo, mas também uma série de códigos de conduta. Por isso, é considerado a fonte da sharia (“legislação’, em árabe), a lei islâmica, que rege desde contratos comerciais e o mode de fazer negócios até a herança de viúvas, além de aspectos do cotidiano, entre eles proibições relativas à alimentação e a punição a crimes.

Com o passar o tempo, as sociedades laicas no Oriente Médio e outras regiões onde prevalece a fé islâmica passaram a ser regidas pelas normas do direito, em uma separação entre a religião e a vida civil. Mas os grupos fundamentalistas, que prentedem uma volta aos tempos do início do islamismo, não concordam com essa visão -- e defendem uma interpretação rígida da sharia.

Trata-se de uma volta a um passado milenar. O conjunto de normas de comportamento e preceitos da vida pública descritos no Alcorão, durante a Idade Média, traz o contexto da época, com regras inclusive sobre o que fazer com mulheres de terras conquistadas e prisioneiros de guerra. O islamismo passava então por uma fase de expansão, conduzida pelos seguidores de Maomé, baseada na conqusita de território e na propagação do islã. Posteriormente, juristas islâmicos criaram conceitos até hoje seguidos pelo direito internacional, como a presunção de inocência e a independência judiciária.

Grupos considerados fundamentalistas, como o Talibã, costumam levar o Alcorão (e a sharia) ao pé da letra. O Estado Islâmico, que dominou dois terços da Síria e do Iraque entre 2014 e 2017, seguia os mesmos preceitos. Mulheres não podiam sair de casa sem uma companhia masculina e consumir álcool era proibido. “Trata-se de uma visão ultrapassada, com a qual muitos muçulmanos não compartilham”, diz a iraquiana Arwa Saleh.

Pessoas que não professavam da fé islâmica precisavam pagar um tributo para ter o direito de continuar morando no local e, mesmo assim, muitos se sentiam fragilizados diante do poder de intimidação do grupo. “O que se teme que aconteça no Afeganistão é a imposição da interpretação rígida da sharia, como aconteceu no Iraque”, afirma Saleh.

Outras determinações geralmente incluem a proibição de acessar mídias sociais, ouvir música ou tocar instrumentos e ingerir bebidas alcóolicas. Além disso, frequentar a mesquita é compulsório, assim como o uso de barba. Para as mulheres, é obrigatório o uso de burca ou similares. No Iraque, foi criada a polícia moral, que fiscalizava o comportamento dos moradores. Como acontece agora no Afeganistão, também foram montadas barreiras militares dentro das cidades, que funcionavam como postos de vigilância.