Milei e Lula: rivais ideológicos, quebra nas relações diplomáticas formaliza maior declínio bilateral na história moderna dos parceiros (AFP/AFP)
Repórter
Publicado em 5 de agosto de 2026 às 15h09.
O governo brasileiro anunciou nesta terça-feira, 4, a redução de sua presença diplomática na Argentina após novas declarações consideradas ofensivas do presidente argentino, Javier Milei, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A medida é inédita na relação recente entre os dois países, principais parceiros do Mercosul.
Em entrevista ao programa argentino "Modo Fontevecchia", o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que a decisão foi tomada após "insultos e agressões" de Milei ao presidente Lula.
“As condições [que provocaram essa decisão] foram os reiterados atos, insultos e agressões ao Brasil, às instituições do governo brasileiro, ao Executivo brasileiro, ao chefe do Executivo, e também ao Judiciário”, afirmou Vieira.
Desde o último domingo, Milei chamou Lula de “ladrão” três vezes. O presidente argentino já havia usado o mesmo termo em 25 de julho, durante a convenção partidária do senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e adversário de Lula nas eleições de outubro. Além disso, chamou o presidente brasileiro de "corrupto".
Na mesma ocasião, Milei também atacou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, classificando-o como “lixo”. Moraes havia negado um pedido do presidente argentino para visitar Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar após ter sido condenado por tentativa de golpe de Estado.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reagiu às declarações e afirmou que Milei é um "palhaço" e criticou a economia argentina.
O embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, foi chamado de volta ao Brasil em julho, um dia após as primeiras ofensas de Milei a Lula. Desde então, os interesses brasileiros na Argentina vêm sendo representados por um encarregado de negócios, cargo de menor hierarquia diplomática.
O ministro-conselheiro Eduardo Uziel, o número dois em comando na embaixada, assumirá a representação brasileira.
De acordo com o Itamaraty, Bitelli não retornará ao posto enquanto Milei continuar fazendo comentários considerados agressivos contra o presidente brasileiro. Até lá, as relações estão em um estado diplomático chamado chargé d'affaires — ou "encarregado de negócios" —, no qual um diplomata ou negociador tratará das relações reduzidas com a Argentina, na ausência de um embaixador formal.
Daniel Raimondi, embaixador argentino em Brasília, foi liberado para retornar ao país natal.
Lula ainda não se manifestou publicamente sobre as declarações do argentino e ironizou ao perguntar "quem é esse cara". A relação entre os dois líderes permanece tensa desde a posse de Milei, em dezembro de 2023.
O episódio ocorre como ecos do agravamento das tensões diplomáticas entre Brasília e Washington. Milei é aliado próximo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cuja administração tem adotado posições críticas ao governo Lula.
Também nesta terça-feira, o Departamento de Estado americano revogou o visto do embaixador brasileiro em Washington, em resposta à negativa do Brasil de conceder vistos a dois diplomatas americanos que pretendiam visitar o país antes das eleições.
Lula foi oficializado no domingo como candidato à reeleição durante a convenção do PT, marcada por discursos sobre possíveis interferências estrangeiras no processo eleitoral brasileiro.
O vice-presidente Geraldo Alckmin, que repetirá a chapa com Lula, ironizou as críticas externas ao afirmar que o sistema eletrônico de votação do Brasil “é tão eficiente que não aceita votos de argentinos nem de americanos”, em referência indireta a Milei e Trump.