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Natalidade da China bate nível mais baixo já registrado

Crescimento populacional cai pelo quarto ano seguido conforme crise demográfica se intensifica

 (Getty Images/Divulgação)

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Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 16h08.

A China fechou o ano de 2025 com a menor taxa de natalidade já registrada no país, desde que os registros começaram sob Mao Zedong em 1949.

Nessa segunda-feira 19, o governo chinês anunciou que um total de 7,92 milhões de bebês nasceram no ano passado, em uma razão de 5,63 partos por mil habitantes. Em comparação aos 9,54 milhões em 2024, a figura de 2025 marca 4 anos consecutivos de redução na taxa de natalidade, e um novo recorde. Como resultado, a população total da China foi reduzida em 3,39 milhões de pessoas no ano passado.

A cifra do último ano, em outras palavras, representa uma queda de 17% na taxa de natalidade do país em relação ao ano anterior. A última queda histórica na taxa de natalidade ocorreu não muito antes, em 2023, quando a China registrou uma taxa de 6,39 nascimentos por mil habitantes. Segundo dados do Banco Mundial, nesse ano a China já figurava entre os países com as taxas de natalidade mais baixas do planeta, acima apenas da Coreia do Sul e em níveis semelhantes aos da Itália, do Japão e da Ucrânia.

O país encerrou há uma década a famosa política do filho único, em vigor desde 1979-1980 para evitar o risco de superpopulação, em uma época em que a taxa de natalidade era de 17,82 nascimentos por mil habitantes. Desde 2016, os casais passaram a poder ter um segundo filho. Cinco anos depois, Pequim flexibilizou ainda mais as regras, autorizando também o nascimento de um terceiro filho.

Ainda assim, a taxa de natalidade seguiu diminuindo de forma constante nos últimos anos, com exceção de um pequeno aumento em 2024, quando foram registrados 6,77 nascimentos por mil habitantes. No momento, apesar de representar 17% da população mundial, a China conta com apenas 6% dos nascimentos.

Os casamentos também estão em níveis excepcionalmente baixos, apesar de Pequim ter relaxado as regras e leis cercando casamentos. Por exemplo, casais não precisam mais reportar seus casamentos junto de seus endereços registrados na China, o que era uma grande inconveniência para trabalhadores migratórios que moravam longe de sua província natal.

O governo divulgou essas estatísticas demográficas ao mesmo tempo que os resultados econômicos de 2025, que mostraram um crescimento de 5% da segunda maior economia do mundo, um dos mais baixos das últimas décadas, com exceção do período da pandemia.

As autoridades reconhecem que a queda da natalidade e o envelhecimento da população representam um desafio de longo prazo e, por isso, buscam incentivar tanto os casamentos quanto os nascimentos. Segundo projeções demográficas das Nações Unidas, se essa tendência continuar a população chinesa pode cair dos atuais 1,4 bilhão para cerca de 633 milhões até o ano de 2100.

Causas e efeitos da crise demográfica

Em apuração, o veículo Financial Times aponta como importante causas da crise demográfica o legado da política do filho único e o pessimismo econômico.

Em um esforço para resolver o problema oposto, ou seja, taxas de natalidade demasiadamente altas, o governo impôs a restrição sobre o número de filhos. Isso, de maneira imprevisível na época, acelerou uma das maiores e mais estudadas crises demográficas do mundo.

O primeiro ano da política em vigor, 1980, viu quedas bruscas nas taxas de natalidade e de fertilidade (quantidade de filhos por mulher). Essa tendência continua até hoje, e foi perpetuada pelo próprio desenvolvimento econômico do país, que aconteceu sobre esses alicerces. Hoje em dia, devido a isso, o país acabou com uma grande população idosa e aposentada e uma força de trabalho reduzida que não consegue os sustentar em muitos casos – mais e mais idosos são fadados ao trabalho braçal ou à dependência total em suas famílias.

Além disso, a diferença entre nascimentos e mortes caiu – o governo chinês estima que cerca de 400 milhões de nascimentos foram prevenidos pela medida. Devido a uma preferência por filhos, o número de abortos de fetos femininos também contribuiu para uma população mais masculina. Em 2016, havia 33,59 milhões de homens a mais do que mulheres no país.

Além disso, as incertezas sobre o futuro, o alto custo da educação, a responsabilidade de cuidar de pais idosos, além da prioridade que muitos dão à carreira e a novos estilos de vida, desestimulam muitos casais jovens a ter filhos. Isso faz parte de um pessimismo econômico global que permeia a sociedade e a economia como um todo, e não abre exceção para a China, piorando a situação.

Um estudo pela firma de consultoria Oliver Wyman, publicado em julho de 2025, revela que a elite econômica chinesa, especialmente os jovens que fazem parte dessa demografia, se sentem tão mal em relação à economia do país quanto se sentiam em meio à pandemia do COVID-19 em 2020.

A taxa de desemprego de pessoas na faixa etária entre 18 e 28 anos beira os 20% desde o fim do período, atingindo um pico de 21,3% em junho de 2023 e uma baixa de 13,2% exatamente um ano depois. A média dos últimos 5 anos fica consistentemente em torno dos 16%, segundo dados da plataforma de pesquisa econômica Trading Economics. Isso encoraja que aqueles com os meios financeiros busquem oportunidades fora do país.

Os que ficam devem competir no mercado de trabalho com profissionais de fora, principalmente da Índia, ou conseguem emprego em áreas que não condizem com seus níveis de especialidade e educação, gerando as principais preocupações econômica da China: oportunidades desiguais e desigualdade financeira. Um estudo de 2018 pelo FMI elabora:

“Níveis elevados de desigualdade de renda podem levar a investimentos abaixo do ideal em saúde e educação, o que prejudica o crescimento. Além disso, o aumento da desigualdade pode enfraquecer o apoio a reformas que impulsionem o crescimento e pode levar os governos a adotarem políticas populistas e a enfraquecerem as perspectivas de reforma.” O estudo conclui: "A desigualdade de renda na China aumentou acentuadamente desde o início da década de 1980, tornando a China um dos países mais desiguais do mundo em 2013. Além disso, apesar do progresso significativo, a China também enfrenta considerável desigualdade de oportunidades, como a conclusão desigual do ensino superior, lacunas no acesso a certos serviços financeiros e cobertura do seguro-desemprego."

Todos esses fatores contribuem para uma população economicamente pessimista e uma economia estagnada, em um ciclo que perpetua a si mesmo.

Com trechos do AFP

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