Repórter
Publicado em 9 de abril de 2026 às 06h47.
Após 41 dias de guerra, Estados Unidos e Irã chegaram a um cessar-fogo de duas semanas que interrompe os ataques diretos entre as duas potências, mas não encerra o conflito no Oriente Médio e mantém abertas frentes críticas — especialmente no Líbano e no Estreito de Ormuz.
O acordo, anunciado pelo presidente Donald Trump, ocorreu horas antes do prazo imposto por Washington para a reabertura total do Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo global.
A trégua foi mediada pelo Paquistão e prevê negociações a partir de 10 de abril, em Islamabad, com base em uma proposta de dez pontos apresentada por Teerã.
Apesar da suspensão das operações ofensivas dos EUA contra o Irã, o cenário no terreno indica que o conflito segue ativo. Israel afirmou que a trégua não se aplica ao Líbano e intensificou ataques no país, incluindo bombardeios em Beirute que deixaram mais de 200 mortos em um único dia.
O governo israelense sustenta que a campanha no território libanês é parte de uma frente separada contra o grupo Hezbollah, aliado do Irã. Já Teerã e o Paquistão defendem que o cessar-fogo deveria abranger todas as frentes do conflito.
A divergência sobre o escopo do acordo levou à retomada de ataques pelo Hezbollah, que acusa Israel de violar a trégua.
Fora do acordo, o Líbano passou a concentrar os maiores riscos de escalada. O país já vinha sendo alvo de bombardeios e incursões terrestres israelenses, mas os ataques se intensificaram após o anúncio do cessar-fogo.
O presidente libanês Joseph Aoun alertou para o risco de destruição em larga escala no sul do país e para uma nova crise de refugiados. Israel, por sua vez, indicou que pretende manter operações militares para criar uma zona de segurança até o rio Litani.
A ofensiva já deixou mais de 1.700 mortos no Líbano desde o início da guerra e deslocou mais de 1 milhão de pessoas.
Ali Vaez, diretor do Projeto Irã do International Crisis Group, em entrevista à Reuters, avaliou que a situação atual se tornou uma inversão de forças: na tentativa de conter o programa nuclear, Washington acabou entregando ao Irã uma 'arma de perturbação em massa' através do controle logístico de Ormuz.
Líderes europeus passaram a defender a ampliação do cessar-fogo para incluir o Líbano.
A avaliação, segundo a Bloomberg, é de que a exclusão do território libanês fragiliza o acordo e mantém um foco ativo de instabilidade no Oriente Médio.
O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou que a trégua só será eficaz se abranger todas as frentes do conflito e classificou como “crítica” a situação no território libanês.
A ministra das Relações Exteriores do Reino Unido, Yvette Cooper, afirmou que a escalada recente é “errada” e “prejudicial”, e defendeu que o acordo seja estendido para abranger o Líbano. Segundo ela, a inclusão do país é essencial não apenas para a segurança libanesa, mas também para Israel e para a estabilidade regional, incluindo a reabertura segura do Estreito de Ormuz.
A perspectiva de reabertura parcial do Estreito de Ormuz levou à queda do preço do petróleo e à alta das bolsas globais logo após o anúncio do cessar-fogo.
O barril do Brent recuou cerca de 13%, voltando para a faixa abaixo de US$ 100, após ter se aproximado de US$ 150 durante o pico das tensões.
Ainda assim, o fluxo físico de petróleo segue comprometido, com dezenas de petroleiros parados na região à espera de condições seguras para atravessar.
Na Europa, índices como o DAX e o CAC 40 registraram altas relevantes, refletindo o alívio dos investidores com a possível normalização da oferta de energia.
Ao mesmo tempo, ações de petroleiras recuaram diante da expectativa de aumento da oferta global e da redução dos prêmios de risco associados ao conflito.