Repórter
Publicado em 9 de janeiro de 2026 às 17h26.
O Irã ficou praticamente desconectado do exterior nesta sexta-feira, 9 de janeiro, após as autoridades determinarem o bloqueio da internet como forma de conter a intensificação dos protestos antigovernamentais.
Imagens que circularam nas redes sociais antes da interrupção das comunicações mostravam edifícios incendiados em diferentes cidades do país.
Organizações de direitos humanos já contabilizam dezenas de mortes ao longo de quase duas semanas de manifestações. A televisão estatal iraniana exibiu cenas de confrontos e incêndios, enquanto a agência semioficial Tasnim informou que vários policiais morreram durante a noite.
Em pronunciamento transmitido pela TV, o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, afirmou que o governo não cederá e acusou os manifestantes de atuarem a serviço de grupos de oposição no exterior e dos Estados Unidos. Um procurador-geral também advertiu que os envolvidos nos distúrbios podem enfrentar penas de morte.
O Ministério da Informação e Tecnologia da Comunicação declarou que a suspensão da internet foi determinada “pelas autoridades de segurança competentes”, em razão da situação enfrentada pelo país.
Os protestos são considerados o maior desafio interno aos líderes religiosos iranianos em pelo menos três anos. O cenário ocorre em meio a uma crise econômica profunda e após o conflito do ano passado com Israel e os Estados Unidos, fatores que aumentaram a vulnerabilidade do governo diante da agitação social.
As primeiras manifestações tiveram foco econômico, impulsionadas pela desvalorização da moeda iraniana, que perdeu cerca de metade de seu valor frente ao dólar no último ano, e pela inflação superior a 40% em dezembro. Com o avanço dos atos, os slogans passaram a ter como alvo direto as autoridades do país.
O grupo de direitos humanos HRANA informou ter registrado ao menos 62 mortes desde o início dos protestos, em 28 de dezembro, incluindo 48 manifestantes e 14 integrantes das forças de segurança.
Com o bloqueio da internet, a circulação de informações a partir do Irã foi severamente reduzida. Chamadas telefônicas internacionais deixaram de ser completadas, e ao menos 17 voos entre Dubai e cidades iranianas foram cancelados, segundo o Aeroporto de Dubai.
Imagens exibidas pela televisão estatal mostraram ônibus, carros e motocicletas em chamas, além de incêndios em estações de metrô e agências bancárias. Vídeos verificados pela Reuters, gravados em Teerã, registraram centenas de pessoas marchando pelas ruas, com gritos contra o líder supremo. Outros protestos incluíram palavras de ordem favoráveis à restauração da monarquia.
O grupo Hengaw relatou que uma manifestação após as orações de sexta-feira em Zahedan, cidade de maioria balúchi, foi reprimida com disparos que deixaram feridos. Já um vídeo divulgado nas redes sociais, ainda não verificado, mostraria manifestantes em Shiraz entoando palavras de ordem pedindo a queda de Khamenei.
As autoridades adotaram uma estratégia dupla, reconhecendo como legítimas algumas queixas econômicas enquanto classificam parte dos manifestantes como violentos e reforçam a repressão por meio das forças de segurança. Na semana anterior, o presidente Masoud Pezeshkian havia defendido uma abordagem mais moderada e anunciado incentivos financeiros limitados para aliviar a pobreza.
Com o agravamento dos confrontos, o discurso oficial endureceu. Khamenei afirmou que o governo não vai recuar diante do que chamou de vandalismo e acusou os envolvidos de tentar agradar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O procurador-geral de Teerã declarou que atos de sabotagem e ataques a propriedades públicas poderão resultar em condenações à morte.
Fora do país, grupos opositores fragmentados convocaram novas mobilizações. Manifestantes entoaram slogans contra a liderança atual e elogiaram a monarquia derrubada em 1979. Reza Pahlavi, filho do último xá, incentivou protestos pelas redes sociais, afirmando que a comunidade internacional acompanha os acontecimentos.
Apesar disso, analistas consultados pela agência Reuters questionam o nível de apoio interno tanto à monarquia quanto ao MKO, principal grupo opositor no exílio, que afirmou ter integrantes participando das manifestações. Os especialistas apontam um sentimento generalizado de frustração e raiva acumulada na sociedade iraniana ao longo dos anos.
Trump, que ordenou bombardeios contra o Irã no ano passado e declarou apoio aos manifestantes recentemente, disse que não pretende se encontrar com Pahlavi e afirmou não ter certeza se seria apropriado apoiá-lo.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, afirmou que a possibilidade de intervenção militar estrangeira é muito baixa, posição que, segundo ele, também foi expressa pelo chanceler de Omã, país que costuma atuar como mediador. Negociações entre o Irã e países ocidentais estavam previstas para ocorrer no sábado.
A ONU declarou estar acompanhando a situação com preocupação. O porta-voz Stephane Dujarric afirmou que as Nações Unidas estão alarmadas com as mortes e reforçou que as pessoas têm o direito de se manifestar pacificamente, enquanto cabe aos governos garantir a proteção desse direito.
O Irã já enfrentou diversas ondas de protestos nas últimas décadas, incluindo manifestações estudantis em 1999, atos em massa após as eleições de 2009, protestos econômicos em 2019 e o movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, em 2022. Esse último foi desencadeado pela morte de uma jovem sob custódia da polícia da moralidade e mobilizou diferentes segmentos da população, antes de ser reprimido com centenas de mortos e milhares de detenções.