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O inverno está chegando na Europa, e a crise energética também

A temporada fria na Europa pode se tornar um desastre econômico e gerar até convulsões sociais por causa do corte no fornecimento de gás russo

O inverno está chegando na União Europeia, e a crise do gás também (Getty Images/Getty Images)

O inverno está chegando na União Europeia, e a crise do gás também (Getty Images/Getty Images)

Carlo Cauti
Carlo Cauti

6 de setembro de 2022, 12h00

"Estamos vivendo o fim da era da abundância". Essa frase, quase um ditame bíblico, foi pronunciada pelo presidente da França, Emmanuel Macron, em uma reunião de governo no dia 24 de fevereiro.

O mandatário francês estava se referindo ao fim da disponibilidade a baixo custo de "liquidez, produtos tecnológicos, terras e matérias primas", que pareciam "permanentemente disponíveis" ao europeus. E que agora não o são mais.

Mas, principalmente, Macron falava de um insumo fundamental, que está se tornando cada vez mais escasso na Europa: a energia.

A reunião ministerial foi gravada e amplamente divulgada pela mídia local. Fato inédito na história da França, pois esses encontros são cobertos da óbvio sigilo.

A divulgação é por si só é uma mensagem aos cidadãos franceses: preparem-se, pois o inverno está chegando e não teremos energia suficiente para aquecer nossas casas e alimentar nossas indústrias.

Não por acaso, uma semana após esse discurso de Macron, a primeira-ministra, Élisabeth Born, declarou que o racionamento energético vai ocorrer em breve e que os cidadãos franceses poderão ficar até duas horas por dia sem energia elétrica. Essa é primeira vez que isso acontece desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

O inverno está chegando na Europa

A Europa está enfrentando a pior crise energética de sua história, provocada pela redução do fornecimento de petróleo e de gás da Rússia, da qual é extremamente dependente.

Moscou começou a diminuir progressivamente a quantidade de hidrocarbonetos entregues aos países europeus já no final de 2021, mas reduziu de vez o fluxo após a invasão da Ucrânia e a aplicação de sanções internacionais.

O gás russo flui dos campos de extração da Sibéria para a Europa através de uma série de gasodutos, alguns terrestres, como o "Yamal", "Luz do Norte", "Soyuz" e "Irmandade", outros construídos abaixo do Mar Báltico, como o "Nord Stream 1" e o "Nord Stream 2".

Com o início da guerra na Ucrânia o projeto do Nord Stream 2, que deveria entrar em operação este ano, foi paralisado indefinidamente. Enquanto o gás entregue pelo Nord Stream 1 começou a diminuir progressivamente, chegando em cerca de 20% da capacidade total em agosto, e no dia 5 de setembro o fornecimento foi interrompido totalmente.

A Alemanha depende por cerca de 50% de sua matriz energética do gás russo, e praticamente por 100% de sua energia elétrica é produzida através da combustão do gás que chega da Sibéria. Uma situação parecida com muitos outros países europeus, como a Itália, mas que atinge 80% no caso de países como a Bulgária e quase 100% no caso da Finlândia ou da Letônia.

Isso significa que se a Rússia interromper de vez o fornecimento de gás, basicamente toda a Europa continental ficará sem energia. As fábricas não conseguirão continuar produzindo pois os maquinários deverão parar. Um problema gigantesco para potências industriais como Alemanha ou Itália, que provocará uma explosão de desemprego e consequentes manifestações nas ruas.

Pior ainda, o inverno está chegando no hemisfério norte, e as casas dos europeus não poderão ser aquecidas. O que provocará mais raiva popular, especialmente nos países onde as temperaturas baixam para menos de 0º, e o aquecimento em casa é indispensável.

Durante os meses quentes do verão a imprensa europeia pouco falou do risco de racionamento energético, provavelmente para evitar amedrontar os cidadãos europeus e os turistas estrangeiros, no primeiro verão "de liberdade" após dois anos de lockdowns praticamente ininterruptos.

Alta brutal dos preços da energia e risco de racionamento

Mas os europeus já estão percebendo há semanas os efeitos negativos da guerra da Ucrânia sobre o fornecimento energético lá onde dói mais: no bolso.

As cotações spot do gás na Bolsa de Valores de Amsterdã (TTF) passara de cerca de 20 euros por MegaWatt-hora para cerca de 350 euros por MegaWatt-hora.

Com esses aumentos, as contas de luz e gás estão chegando em níveis insustentáveis. Por exemplo, os italianos já estão pagando 400% a mais na comparação com o mesmo período do ano passado. Na Alemanha esse aumento é muito parecido. No Reino Unido, as contas de energia já dobraram de valor desde maio, e no final de agosto a notícia que poderiam aumentar de outros 80% gerou um forte mal estar na população.

Todas essas altas ocorrem mesmo se os governos europeus estão tentando desesperadamente conter os aumentos com cortes de impostos ou bloqueio temporário dos reajustes. Tentativa inútil, pois não conseguem amenizar os preços e estão gerando rombos enormes nas contas públicas. A própria Alemanha, guardiã da ortodoxia fiscal e defensora ferrenha do equilíbrio contábil vai fechar 2022 com um déficit público considerável por causa dos subsídios concedidos ao setor energético.

Nenhum país europeu é energeticamente independente da Rússia. Sequer países com fontes energéticas alternativas, como a França, que tem cerca de 60 reatores nucleares em atividades, estão imunes da alta dos preços e dos possíveis racionamentos. A Europa está enfrentando uma seca catastrófica que reduziu a vazão dos rios e está limitando a produção de energia nuclear, que necessita de água para resfriar os reatores.

Também por isso que o presidente Macron já está falando em reduzir em pelo menos 10% o consumo de energia de empresas e famílias francesas.

O problema é que quando se chegará na "escolha de Sofia", sobre quem terá direito a energia, os governos deverão decidir se utilizar o gás para alimentar as indústrias ou aquecer as casas.

Se os Executivos escolherem salvar o setor produtivo, o problema será político, com uma certeza absoluta de perda de votos.

Caso prefiram favorecer as famílias, o problema será econômico e social. Pois indústrias sem gás ou eletricidade fecharão as portas, perdendo fatias de mercados interno e internacionais para concorrentes de outros países imunes a essa escassez energética. Isso significará que as inevitáveis demissões não serão temporâneas, mas definitivas, pois muitas dessas empresas não conseguirão reabrir as portas quando a crise terminará.

A Europa está enfrentando o sério risco de se desindustrializar de forma permanente por causa da falta de gás. Na verdade, isso já está acontecendo pelo próprio custo da energia, que está provocando uma onde fechamentos de fábricas onde a produção se tornou antieconômica.

Na última sexta-feira, 2, a ArcelorMittal anunciou o desligamento de duas usinas siderúrgicas na Alemanha e m alto-forno na Espanha por causa do custo excessivo da energia. E muitas outras manufaturas energívoras seguirão esse caminho em breve.

Essa desertificação empresarial não atinge apenas grandes empresas industriais, mas também pequenos comércios e serviços.

Na Itália, muitas padarias, pizzarias e bares estão colocando as contas de luz nas vitrines para denunciar as altas vertiginosas. Alguns comerciantes respondem aumentando os preços, perdendo clientes e faturamento. Outros não aguentam e fecham as portas.

Em ambos os casos, a crise energética está provocando uma maciça destruição de riqueza entre a classe média da Europa, a espinha dorsal das sociedades do continente.

União Europeia tenta reagir, sem sucesso

A União Europeia está tentando encontrar uma solução para essa situação explosiva, sem conseguir resultados consistentes.

A resposta imediata foi acumular estoques de gás natural até o máximo possível, para se preparar a enfrentar o inverno. Em alguns países, como Alemanha, Itália ou França essas reservas superaram 85% da disponibilidade física dos estoques, com pontas de 100% em Portugal.

Entretanto, esses estoques representam, em média, entre 10% e 20% do consumo de gás anual de um país europeu. Portanto, mesmo se 100% dos reservatórios de gás fossem preenchidos, durariam cerca de 40 dias em caso de corte total e permanente do fluxo russo.

Sem contar que na base do artigo 222 do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE), os países europeus são obrigados a compartilhar os estoques de gás com os parceiros do bloco que enfrentam dificuldades. Algo que reduziria ainda mais a cobertura temporal dos estoques.

A UE também elaborou um regulamento que prevê a redução de 20% do consumo energético nos estados membros. No começo seria uma redução voluntária, mas poderá ser imposta pelos governo nacionais em caso de baixa adesão da população.  Em bom português, racionamento energético compulsório.

Além disso, a tentativa de impor para a Rússia um preço único mais baixo do que o de mercado, usando como arma de pressão o monopsônio do gás russo representado pelo mercado europeu, não conseguiu obter o consenso de todos os estados membros.

A Holanda não quer prejudicar a Bolsa de Amsterdã e a Alemanha não quer provocar ainda mais a Rússia, com medo que Moscou corte o fornecimento energético de vez.

Para piorar, é impossível no curto prazo diversificar fornecedores de gás, pois os gasodutos que trasportam o combustível do norte da África ou da Ásia central já estão trabalhando no máximo da capacidade, e para obter gás natural liquefeito (GNL) são necessárias plantas de regaseificação.

A construção dessas infraestruturas demoraria pelo menos dois anos. Tempo demais para um continente em plena emergência energética e com o inverno às portas.

Sem contar as duras manifestações populares contrárias a realização desses terminais energéticos nas cidades litorâneas onde deveriam ser edificados. Clássico exemplo de comportamento "not in my backyard", completamente incompreensível para as opiniões públicas europeias em uma conjuntura tão dramática como a atual.

Por último, os  fornecedores alternativos são países tanto instáveis quanto a Rússia e a Ucrânia, ou até mais. Entre eles, a Argélia, o Cazaquistão, a Líbia e o Irã. Em todos esses casos é impossível excluir eventos como as "Primaveras Árabes" nos próximos meses ou anos.

Especialmente em um contexto de alta dos preços dos alimentos, provocada também pela invasão da Ucrânia por parte da Rússia.

Os dois países em guerra são grandes produtores de grãos, representando mais de 30% de toda a produção mundial. Enquanto os países do Oriente Médio e Norte da África são grandes importadores e consumidores dos mesmos grãos. O preço desses alimentos disparou desde fevereiro, já que os portos ucranianos estão fechados, com milhões de toneladas de trigo e milhos parados nos galpões.

A Organização das Nações Unidas (ONU) já alertou sobre o risco de crise alimentar por causa dessa situação, que lembra muito o período anterior as revoltas de 2011 no mundo árabe, também provocadas por um aumento - aquela vez muito mais contido - do preço dos alimentos. E que acabou com uma série de mudanças de regimes políticos, como no Egito ou na Tunísia. Após mais de dez anos, temos mais estados-falidos na região, como no caso do Líbano, ou mais estados tomados por guerras civis aparentemente infinitas, como na Síria ou na Líbia.

Mesmo assim, tomados pelo desespero, os governos europeus estão correndo contra o tempo para tentar fechar acordos de fornecimento alternativo. Com consequências geopolíticas relevantes. A tentativa de encontrar uma saída ao empasse do acordo nuclear iraniano faz parte dessa estratégia.

Outro sinal claro dessa tentativa de diversificar as fontes energéticas é o rapprochement, a reaproximação política, entre a França e a Argélia. A ex-colônia enfrentou uma sangrenta guerra de independência nos anos 1950 e 1960, e mantinha péssimas relações com Paris. Nos últimos anos, sequer havia uma embaixador argeliano na França.

Macron foi obrigado a ir até a Argélia, pedir desculpas pela truculência das tropas de ocupação francesas, autorizar a criação de uma "Comissão da Verdade" para esclarecer os crimes coloniais do século passado. Somente então obteve o sinal verde para aumentar as entregas de gás argelino. Mesmo assim, o combustível só chegará após vários meses, sem conseguir resolver, portanto, o problema da demanda atual.

Com uma situação como essa, o euro está perdendo cada vez mais força em relação ao dólar, atingindo o câmbio mais fraco desde sua criação, há mais de vinte anos. Os investidores internacionais estão retirando seus recursos das Bolsas de Valores de Paris, Frankfurt, Milão e Amsterdã, que estão registrando derrocadas consecutivas. Há casos de especuladores que estão começando a apostar contra a economia europeia, na certeza que essa situação calamitosa não poderá ser resolvida em tempo hábil.

Risco de convulsões sociais (e pró-russas)

O que preocupa mais os analistas são as possíveis convulsões sociais, consequência desse cenário, que poderiam abalar os países europeus.

Os centenas de milhares de desempregados e as milhões de pessoas que não conseguem mais arcar com as contas de energia e aquecimento para suas casas manifestarão um descontentamento raivoso nas ruas.

Todos na Europa lembram bem dos Coletes Amarelos na França, que ao longo de um ano inteiro, em 2019, transformaram os boulevards em campos de batalha. Os protestos, desencadeados por um aumento de poucos centavos no preço da gasolina como "imposto ambiental" devastaram os centros das principais cidades francesas. E a destruição continuou mesmo após o governo francês retirar a medida, sendo interrompida somente com o começo da pandemia de Coronavírus (Covid-19) e a imposição de lockdowns.

O que a Europa está vivenciando hoje é imensamente mais grave do que aquele leve amento de preços. E poderia provocar uma nova onda de protestos violentos, dessa vez não apenas na França mas em todos os estados membros do bloco.

Mas o maior medo dos políticos em Bruxelas é que esses protestos possam se transformar em uma mudança repentina da opinião publica. Se até agora a maioria dos cidadãos europeus simpatiza com a Ucrânia contra a Rússia, existe o risco que o mal estar generalizado provocado pela crise energética possa inverter essa percepção. Exasperados, os europeus poderão preferir abandonar a Kiev ao seu destino em troca da normalização dos fornecimentos de gás russo.

Alguns sinais nesse sentido já estão aparecendo, com manifestações na República Tcheca e na Alemanha, onde dezenas de milhares de pessoas marcharam no último final de semana contra as sanções. E nas ruas apareceram muitas bandeiras da Federação Russa.

Dessa vez, nem as autoridades europeias ousam catalogar esses protestos como simples "dezinformatsiya" russa, pois todos sabem que existe um descontentamento montante que poderiam degringolar em violências urbanas.

O inverno está chegando na Europa, e o risco é que o Velho Continente chegue na próxima primavera mais pobre, mais caótico e violento do que o verão anterior.