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EUA x Irã: entenda a origem e as principais razões do conflito

Tensão entre rivais de longa data arrisca escalar – questões históricas, políticas e ideológicas permeiam o impasse

Montagem com fotos do presidente Donald Trump e do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã
 (AFP)

Montagem com fotos do presidente Donald Trump e do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã (AFP)

Publicado em 30 de janeiro de 2026 às 07h10.

Assolado por intensos protestos e uma repressão violenta, cobertos sob um véu criado pela internet cortada no país, o Irã vem sendo palco de uma intensa crise política e social. Causados originalmente pela crise econômica que afeta o país, os protestos rapidamente se tornaram uma rebelião contra o regime atual, e se alastraram por todo o Irã.

Enquanto isso, os Estados Unidos, rivais ideológicos de longa data do Irã, interviram: o presidente americano Donald Trump, após apoiar os manifestantes nas redes sociais, conduziu uma série de bombardeios em território iraniano. A retórica intervencionista aumenta e há risco de a crise escalar para um conflito armado conforme navios de guerra americanos chegam à região, apesar de esforços diplomáticos por nações adjacentes para conter a situação.

As tensões entre os EUA e o Irã são o resultado de décadas de desacordos e diferenças culturais, diplomáticas e ideológicas. Conforme as relações entre os países parecem seguir em direção a uma nova escalação militar, as demandas principais dos EUA e os motivos de suas intervenções parecem ser os mesmos que sempre foram.

Em entrevista com a EXAME, Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV, nos ajuda a entender melhor a situação e os pontos de contestação principais que levam os EUA a intervir no Irã há anos.

Programa nuclear iraniano

20 países e sua relação com as armas nucleares

Sinal de alerta contra radioatividade (Ralph Lee Hopkins/Getty Images)

Importante ponto de contestação, especialmente por ter motivado os ataques americanos de 2025, é o programa nuclear iraniano. Altamente debatido, o Irã afirma que suas ambições nucleares são apenas para uso civil, como o desenvolvimento de plantas para energia nuclear.

Sob um acordo assinado pelo Irã e os EUA durante a administração de Barack Obama, conhecido como o Plano de Ação Conjunta Compreensivo (JCPOA, na sigla em inglês), o Irã concordou em limitar seu enriquecimento de urânio e seus estoques do elemento em uma quantia apropriada para gerar energia, mas distante do necessário para desenvolver um arsenal de armas nucleares. Em troca, sanções econômicas americanas sobre o Irã foram revogadas.

Durante a primeira administração de Trump, em 2018, o republicano retirou os EUA do acordo e reimpôs as sanções. Agora, em sua segunda administração, a coerção econômica aumenta, juntamente com o enriquecimento e os estoques de urânio do Irã. Pelos termos do JCPOA, o enriquecimento de urânio do Irã era limitado a 3,67%. Hoje em dia, está nos 60% - ainda abaixo dos 90% necessários para armas nucleares, mas ainda assim muito acima do que qualquer outro país sem um arsenal nuclear, diz a Agência Internacional de Energia Atômica, IAEA.

Com base nessas premissas, os ataques americanos recentes alvejaram e destruíram instalações ligadas ao programa nuclear iraniano. As demandas diplomáticas americanas exigem o término total das atividades nucleares do país, mesmo que sejam voltadas para energia. Além disso, o país deve parar de enriquecer urânio a qualquer porcentagem e deverá renunciar a todo o urânio enriquecido que agora possui.

“Se vão querer ter um programa nuclear bélico, e eles dizem que não, mas supondo que eles vão querer ter, e eu acho que eles querem ter, é bem improvável que eles façam isso. Se olharmos em volta, temos diversos casos de países como Iraque, Líbia, que abriram mão do seu programa nuclear, foram invalidados e derrubados e foram assassinados. Com julgamento ou sem julgamento, foram mortos", diz Paz.

Por meio do exemplo da Coreia do Norte, um país nuclear e mais protegido contra intervenções externas do que o Irã, o pesquisador exemplifica a proteção que a mera existência de uma ameaça nuclear traz – uma dissuasão contra basicamente qualquer ataque, já que o custo e o risco de ser atacado por uma arma nuclear são muito altos. Essa é a premissa de destruição mútua sobre a qual ogivas nucleares e a balança de poder bélico do mundo operam, garantindo uma espécie de estabilidade em relação a conflitos de larga escala.

“Então, o cálculo de ter o artefato nuclear nesse contexto, significaria na cabeça do governo iraniano uma camada de segurança que eles não têm hoje”, diz.

A possível queda do regime e o eixo da resistência

Ali Khamenei, líder supremo do Irã, em imagem de arquivo (AFP)

Outro importante ponto de contestação são os proxies – grupos armados financiados por um ator que lutam em seu nome ou por sua ideologia no exterior – subsidiados pelo regime iraniano. Os grupos armados extremistas, ligados ao Irã por ideologia e uma oposição forte a Israel e aos EUA, atuam no Iraque, Síria, Líbano e muitos outros países pela região do Oriente Médio. Grupos como Hezbollah, Hamas e os houthis, todos financiados pelo Irã, conduziram ataques terroristas e protagonizaram intensos conflitos longe das fronteiras do país.

Com um regime fragilizado e uma economia enfraquecida, o Irã não é mais capaz de direcionar tantos fundos aos grupos. E isso é de grande interesse aos Estados Unidos, que detalham em suas demandas diplomáticas que o Irã deve terminar seu apoio e cortar seus laços com grupos de resistência armados do Oriente Médio. Além de tudo isso, a queda do regime também poderia trazer um fim às ambições nucleares iranianas.

Mas o futuro do regime é incerto. Mesmo que o mandato dos Aiatolás caia, nem manifestantes nem a oposição têm uma figura central que pode vir a tomar o poder. Todavia, mesmo com os intensos protestos e a intervenção americana, o regime parece se manter de pé – a repressão violenta parece ter atingido o objetivo principal de controlar os manifestantes pelo medo.

“Eu sou muito cauteloso porque é impressionante como regimes autoritários fortes conseguem ser resilientes, conseguem se manter no poder. Cuba está para cair já tem pelo menos 10 anos, 15 anos. E está lá se mantendo”, diz Paz. “Os Estados Unidos sequestraram Maduro, mas o regime continua lá, a vice-presidente está todo mundo, ninguém saiu da sua cadeira. Regimes muito autoritários, fortes, bem estruturados, eles costumam ser bem resilientes. O governo iraniano é um regime desse tipo.

Petróleo, influência e questões históricas

petroleo

Máquinas escavam por petróleo (makhnach/Freepik)

A rivalidade entre os EUA e o Irã não é de hoje. Os países compartilham uma história complexa nas suas relações, que remontam ao século XIX. Desde o fim da Revolução Iraniana em 1979, os EUA não tiveram relações diplomáticas formais com o país, comunicando-se apenas indiretamente por via de embaixadas paquistanesas e suíças.

“Depois da Revolução Islâmica, o Irã se torna um adversário norte-americano, o Irã passa a ser um contraponto para os interesses americanos no Oriente Médio, que são muito profundos.”

A tomada de poder pelos aiatolás amargurou a relação ideológica com os EUA de maneira virtualmente irreparável, conforme os americanos lutavam por influência e a formação de alianças globais na região para contrabalançar a União Soviética e manter sua agência militar em meio à Guerra Fria.

“O Irã é um país estratégico. Irã e Afeganistão estão bem ali no cruzamento entre o Oriente Médio, Ásia, a parte Norte, que vai dar para o Cáucaso e chegando na União Soviética. Então, o Irã, maior ainda e mais importante economicamente que é o Afeganistão, está exatamente ali naquela encruzilhada que é super importante do ponto de vista geopolítico na região,” elabora Paz.

“Adiciona a isso o fato de o Irã ser um país muito rico em petróleo, e ao longo do século XX, até um pouco agora do século XXI, ainda uma das principais fontes do mundo, o Irã é um grande produtor. Hoje ele não é [mais um produtor] tão importante assim, porque o país está lidando com décadas de sanções pesadíssimas.”

O Irã, com reservas de petróleo estimadas em 208,6 bilhões de barris, é dono da terceira maior reserva, segundo informações da base de dados Worldometer.

Por fim, as diferenças ideológicas do Irã com outros países no Oriente Médio, muitos dos quais são aliados dos EUA, adicionam mais um nível para as tensões com os americanos.

“O Irã ainda é um país adversário na região, não só de Israel, de quem é um inimigo fidalgo depois da revolução, mas também é um inimigo da Arábia Saudita. Também disputa com a Arábia Saudita a influência na região. A Arábia Saudita é um grande aliado americano. Então, o Irã, que é uma peça importante no xadrez da política norte-americana, se torna, efetivamente, um ator muito disruptivo para os interesses americanos no Oriente Médio. Por isso ele está sempre no topo da agenda de política norte-americana'', diz Paz.

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