Fukushima (foto/Getty Images)
Repórter
Publicado em 22 de janeiro de 2026 às 08h59.
A usina nuclear japonesa de Kashiwazaki-Kariwa, a maior do mundo, retomou suas operações nesta quarta-feira, 21, pela primeira vez desde o desastre de Fukushima em 2011, apesar das persistentes preocupações da população. Na primeira fase, apenas um dos sete reatores da usina foi reativado. A volta do sétimo reator da usina só é esperada em 2030, e os últimos cinco reatores correm o risco de serem permanentemente fechados.
A reativação é o último passo de um processo que planeja reviver a indústria de energia nuclear no Japão. O país, que sempre foi um forte proponente político de energia nuclear, e um dos primeiros a adotá-la, procura revitalizar a indústria como parte de seus esforços de sustentabilidade conforme busca se tornar um país de emissão zero até 2050.
Desde 2015, apenas 4 anos após o desastre, que é considerado o segundo pior de seu tipo desde o incidente em Chernobyl nos anos 1980, o país vem lentamente reativando seus reatores operáveis, que seguiam dormentes desde o terremoto em Fukushima.
Antes do desastre, em 2011, as usinas nucleares produziam cerca de 30% da energia elétrica no Japão, e o governo planejava aumentar o número para 50% em 2030. A preocupação que Fukushima causou sobre a segurança de usinas nucleares na população dividiu profundamente a opinião pública.
Funcionários da Tepco que trabalham no desmantelamento da usina nuclear de Fukushima Daiichi posam para retrato em 23 de fevereiro de 2016. (Christopher Furlong/Getty Images)
Por mais que apenas uma morte tenha sido ligada diretamente aos contaminantes radioativos resultantes do desastre, uma ampla evacuação por ordem das autoridades cementou pânico, medo, e desinformação nos habitantes, e até hoje dezenas de milhares de pessoas evacuadas seguem deslocadas no Japão, se recusando a retornar para Fukushima pois temem os contaminantes. Em função disso, o novo plano japonês revelado ano passado é que usinas nucleares forneçam 20% da eletricidade até 2040.
Um estudo da época conduzido pelo Pew Research Center aponta que, nas semanas seguintes ao desastre, 44% dos japoneses defendiam uma redução no uso de energia nuclear. Essa figura subiu para 70% em 2012.
O governador da província de Niigata, onde a usina está localizada, aprovou a reativação no mês passado apesar de cidadãos polarizados: segundo uma pesquisa realizada em setembro pela própria província, 60% dos moradores se opuseram à reativação, em comparação com 37% que a apoiaram.
Na terça-feira, 20, dezenas de manifestantes enfrentaram o frio para protestar na neve perto da entrada da usina, às margens do mar do Japão.
Além do medo da radioatividade, o legado de Fukushima fez com que os japoneses não confiem na Companhia de Energia Elétrica de Tóquio, conhecida como Tepco, já que muitos culpam a organização por negligência no incidente.
Com a população julgando pouco zelo pela Tepco com protocolos de segurança antes e durante o desastre, juntamente com baixa coordenação com o governo durante a subsequente evacuação, muitos japoneses consideram que Fukushima foi um desastre previsível, “causado por pessoas” e possível de prevenir.
Ambos os principais comitês de investigação por trás das causas do desastre, estabelecidos pelas autoridades, apontam em seus relatórios complacência tanto pela Tepco quanto pelo próprio governo e fraca legislação para lidar com crises nucleares como importantes fatores que agravaram o desastre.
O medo, alimentado pela falta de confiança no governo e na Tepco, resultou na desativação de todas as usinas nucleares no Japão quase imediatamente após o desastre. Apesar disso, como resultado de uma investigação, a justiça do país declarou três principais executivos da empresa como inocentes em acusações de negligência. Assim, a Tepco segue na administração do programa de energia nuclear do Japão.
Todavia, uma série de escândalos sob a administração da Tepco, alguns envolvendo a usina de Kashiwazaki-Kariwa, aprofunda ainda mais opiniões negativas sobre plantas nucleares. Em 2023, um de seus funcionários perdeu diversos documentos e arquivos ao deixá-los em cima de seu carro e esquecendo deles ao começar a dirigir. No último novembro, outro funcionário foi punido por má administração de documentos confidenciais.
Por fim, no começo desse mês funcionários em outra planta foram acusados de adulterar dados em seus testes, o que resultou no cancelamento da reativação da usina em Hamaoka, no centro do Japão.
Sanae Takaichi: a política foi eleita no dia 21 de outubro para liderar o Japão (Eugene Hoshiko /AFP)
Desde que assumiu o poder em outubro, o gabinete da premiê Sanae Takaichi advoga pela energia nuclear, argumentando sua importância para a autossuficiência japonesa e para os interesses nacionais, especialmente conforme o país espera um aumento nas demandas por eletricidade antecipando o desenvolvimento da indústria de produção de chips e semicondutores, uma outra importante luta econômica do Japão.
Mas reviver plantas nucleares nesse momento é um tópico sensível para Takaichi – os custos de operação e reativação dos reatores aumentou drasticamente devido aos novos protocolos de segurança que necessitam fortes investimentos. Isso prejudica um dos mais fortes pontos a favor da energia nuclear: os baixos custos.
Para sair do impasse, o governo dispõe de duas opções pouco atraentes: subsidiar os grandes custos ou jogar a conta nos consumidores, aumentando contas de energia elétrica, duas medidas que contradizem sua própria narrativa, especialmente em um momento em que a população protesta contra custos de vida elevados – importante pilar da campanha eleitoral de Takaichi.
Todavia, dados de estudos japoneses e pesquisas publicadas no jornal acadêmico Science Direct sugerem que o povo pode ser convencido com novas medidas. Um estudo de 2024 publicado no jornal acadêmico Science Direct pelo especialista Hiroshi Yamagata revela que as maiores preocupações dos japoneses em relação à energia nuclear são “medidas de segurança são insuficientes” e “o problema do lixo tóxico segue sem solução”. Pesquisa da Nikkei 225, um índice da bolsa japonesa, revela que mais de 50% dos japoneses passaria a apoiar a energia nuclear com medidas de segurança mais desenvolvidas.
Com informações da AFP