Painel com cotações em Tóquio, em 28 de janeiro (Kazuhiro Nogi/AFP)
Repórter de internacional e economia
Publicado em 30 de janeiro de 2026 às 06h01.
Uma série de solavancos na economia do Japão gera preocupações no mercado, pela possibilidade de que uma crise no país, uma das maiores economias globais, gere impactos mais amplos no sistema financeiro global.
A crise, de várias frentes, combina retração do PIB, alta da inflação, queda do valor do iene e a preocupação do mercado com a proposta do governo de aumentar gastos e, por consequência, o endividamento do país.
Em dezembro, o Japão teve uma alta na taxa básica de juros, que chegou a 0,75% ao ano, a maior em 30 anos, com sinalização de novas altas. Isso levou a curva de juros futuros aos valores mais elevados desde os anos 1990.
A taxa, de 0,75%, é baixa na comparação com outros países, mas alta para a realidade japonesa, que teve taxas negativas até março de 2024.
A alta dos juros pode levar investidores japoneses a trazerem de volta ao Japão recursos que estavam no exterior. Segundo a Bloomberg, há cerca de US$ 5 trilhões em ativos japoneses fora do país. O valor é mais de duas vezes o do PIB anual do Brasil. Essa movimentação pode gerar fluxos atípicos e aumentar a insegurança no mercado.
Há décadas, investidores captam dinheiro no Japão, a juros baixos, e usam o dinheiro para investir em outros mercados, como o dos EUA, onde a remuneração é maior. É o chamado "carry-trade". Assim, se esse movimento for contido, poderá haver menos dinheiro circulando no mundo, o que pode atingir o Brasil.
"A realocação global por parte de investidores institucionais tende a aumentar a volatilidade do iene e pode gerar episódios de aperto nas condições financeiras globais. Esse processo, mesmo sem deterioração estrutural dos fundamentos, costuma impactar o sentimento de mercado, elevando a aversão ao risco e pressionando os ativos de risco de forma transversal", diz Jonathan Joo Lee, head da mesa de câmbio e internacional da corretora Mirae Asset Brasil.
Ao mesmo tempo, em janeiro, houve uma alta na venda de títulos de dívida do Japão. Como o país tem um dos endividamentos mais altos do mundo, de 230% do PIB, houve temor de que uma corrida para vender os papéis gerasse um efeito cascata.
Lee, da Mirae, no entanto, vê o risco de um default (calote) da dívida japonesa como improvável.
"O Japão possui soberania monetária plena, com dívida denominada em moeda local, banco central com ampla capacidade para estabilizar o mercado de títulos e elevado estoque de reservas internacionais, a segunda maior do mundo, de aproximadamente US$ 1,2 trilhão. Esses fatores reduzem substancialmente o risco de default", diz.
O analista explica que a dívida japonesa é emitida quase integralmente em iene, com grande parte do estoque mantida por investidores domésticos, incluindo o próprio banco central japonês, e concentrada em prazos mais longos, o que aumenta a previsibilidade.
"O que vem sendo precificado pelo mercado é a possibilidade de elevação das pontas longas da curva de juros japonesa e de aumento da volatilidade dos bonds japoneses, no contexto de normalização gradual da política monetária e de redução do suporte do banco central. É mais um ajuste de preços e de prêmio de prazo, e não como uma crise de crédito soberano", afirma.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, exibe quadro de tarifas em 2 de abril de 2025 (Brendan Smialowski/AFP)
A crise no Japão tem ainda mais dois elementos: inflação e política.
A alta de preços no Japão nos últimos anos gerou críticas entre os japoneses, pois era comum no país uma taxa próxima a zero ou mesmo deflação.
Assim, em 2025, o premiê Shigeru Ishiba renunciou ao cargo em menos de um ano, por não conseguir conter os preços. Itens do dia a dia, como comida e energia, registram as maiores altas. Em novembro, o preço dos alimentos subiu a 6% ao ano, enquanto a meta do Banco Central é de 2%.
Em outubro, a primeira-ministra Sanae Takaichi assumiu o comando do país. Ela defende aumentar os gastos públicos para acelerar o crescimento, com um pacote estimado em US$ 16 bilhões, algo em torno de 2,5% do PIB japonês. As medidas incluem cortes de impostos, pagamentos diretos a famílias e subsídios à energia, entre outras medidas.
Para ter mais força para avançar com seu plano, Takaichi convocou eleições gerais, para 8 de fevereiro, de modo a tentar ampliar sua força política e demonstrar que seu plano tem apoio da maioria dos japoneses.
A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, que convocou eleições antecipadas (Kazuhiro Nogi/AFP)
Ao mesmo tempo, houve desvalorização do iene. No começo de 2025, um dólar comprava 155 ienes. A cotação caiu para 142 em abril, em meio ao tarifaço, e voltou para o patamar de 150 ienes no começo de 2026.
No entanto, houve fortes oscilações nos últimos dias, o que indica desconfiança do mercado em relação ao país, pois o dólar tem perdido força em relação a diversas outras moedas, como euro e real, no mesmo período.
O governo do Japão aumentou a venda de dólares para conter a queda do iene, e há a expectativa de que os EUA possam intervir de alguma forma para esse esforço, mesmo que nos bastidores.
Uma valorização do iene também ajudará a conter a inflação ao baratear a importação de produtos, mas a alta de juros para atrair mais dólares ao país aumentará a dívida japonesa, o que coloca o país em uma encruzilhada.
O país precisa, ainda, retomar o crescimento do PIB, abalado no ano passado pelas tarifas de Donald Trump e por tensões com a China, o que reduziu as exportações para as duas maiores economias globais. O Japão deve fechar 2025 com alta de 1,1% e avançar só 0,6% em 2026, projeta o Fundo Monetário Internacional (FMI).
"Espera-se que o crescimento econômico desacelere ligeiramente em 2026. No entanto, a magnitude dessa desaceleração dependerá em grande parte do equilíbrio entre as políticas fiscal e monetária", diz o analista Michael Wolf, em análise da consultoria Deloitte.
"[O crescimento] exigirá a redução da inflação, mantendo-se, ao mesmo tempo, um mercado de trabalho relativamente saudável e o sólido crescimento salarial que se espera encontrar. Esse é um equilíbrio difícil de alcançar. A inflação decorre, em grande parte, de problemas de oferta sobre os quais o Banco do Japão tem controle limitado", afirma. "O estímulo fiscal pode exacerbar as pressões inflacionárias e contribuir para as preocupações com a sustentabilidade da dívida", conclui.