Os presidentes Donald Trump e Lula, durante encontro em maio, na Casa Branca (Divulgação)
Publicado em 15 de julho de 2026 às 13h45.
Última atualização em 15 de julho de 2026 às 13h46.
Autoridades do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) sinalizaram ao governo brasileiro que a decisão final sobre a aplicação de novas tarifas de importação ao Brasil deverá ser divulgada na tarde desta quarta-feira, 15.
O Brasil está sujeito a duas novas taxas que, juntas, poderão atingir 37,5%, após ser alvo de dois processos de investigação por meio da lei chamada de Seção 301.
Um assessor do governo Lula disse, de forma reservada, que as autoridades brasileiras esperam a definição do USTR para então definir qual será a resposta brasileira, que pode incluir o uso da Lei de Reciprocidade, com medidas contrárias aos EUA.
No entanto, há a expectativa de que caso o tarifaço seja imposto, os Estados Unidos só aceitem negociar depois das eleições presidenciais brasileiras, em outubro.
Na terça-feira, 14, o governo brasileiro teve a quinta reunião com Jamieson Greer, chefe do USTR, em que o Brasil reiterou o caráter injusto das tarifas.
"Como já demonstrado pelo governo brasileiro, nenhuma das razões apontadas na Seção 301 justificam a aplicação das tarifas recomendadas. Cumprindo a orientação do Presidente Lula, reiterou-se que a aplicação de qualquer sobretaxa se mostra injusta e não é o caminho para que possamos vir a formular um acordo bilateral mutuamente adequado", afirma nota divulgada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
A investigação contra o Brasil foi feita por meio da Seção 301, iniciada em julho de 2025.
No começo de junho deste ano, o USTR, um órgão do governo americano, concluiu que o Brasil age de forma não razoável no comércio bilateral, por práticas como o uso do Pix, a taxação do etanol americano e a falta de combate à corrupção e ao desmatamento.
O USTR avalia que essas práticas dão vantagens indevidas ao Brasil no comércio, e propôs uma nova tarifa, de 25%, para tentar reduzir a competitividade dos produtos brasileiros nos EUA. A decisão foi chancelada pelo presidente Donald Trump.
Além disso, em outro processo, o Brasil é acusado de se beneficiar de trabalhos forçados. Esse outro processo pode gerar cobrança extra de 12,5%.
Na semana passada, foi realizada uma audiência em Washington sobre o tema, com empresas e entidades interessadas. Além de entidades brasileiras, empresas americanas como a Tesla se pronunciaram contra as tarifas, com o argumento de que a taxação sobre insumos brasileiros prejudicará a operação de empresas dos EUA e encarecerá produtos.
Nesta audiência, também esteve presente o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que disputa a Presidência do Brasil. Ele defendeu que a tarifa contra o Brasil poderia beneficiar o presidente Lula na campanha pela reeleição e pediu o adiamento da cobrança até depois da eleição, em outubro.
O governo brasileiro também buscou negociar a tarifa e ofereceu concessões aos EUA, em temas como aberturas de mercados, mas colocou alguns temas, como mudanças no Pix, como inegociáveis.
Os presidentes Donald Trump e Lula., durante encontro na Casa Branca (Ricardo Stuckert/PR/Divulgação)
A investigação contra o Brasil foi iniciada em julho de 2025, por ordem do presidente Donald Trump. Na época, ele acusou o país de perseguir judicialmente o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado, e implantou uma tarifa de 40% ao país. Como havia outra tarifa geral de 10% a todos os países, o Brasil passou a ser cobrado em 50% extras.
As ações vieram após uma campanha feita nos EUA pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que buscou punições ao Brasil sob argumento de que seu pai seria perseguido injustamente pela Justiça brasileira.
Nas semanas seguintes, o governo americano deu uma série de isenções à nova tarifa, a produtos como carne, café e suco de laranja, o que reduziu os efeitos da medida.
O impasse foi desfeito a partir de setembro. Após uma série de conversas de bastidores, envolvendo tanto autoridades quanto empresários e entidades setoriais, o presidente Trump se reuniu com o presidente Lula nos bastidores da Assembleia-Geral da ONU. Após a conversa, os dois disseram que houve uma "química" entre eles.
Depois disso, vieram outras conversas entre os dois presidentes e uma série de alívios ao tarifaço, como a retirada de mais produtos da lista e uma sinalização de normalização das relações. Os dois presidentes tiveram uma reunião presencial em outubro, na Malásia, que transcorreu bem. Na época, o governo americano recuou de mais medidas contra o Brasil.
Em fevereiro, a Suprema Corte derrubou as tarifas que Trump havia aplicado por meio da por meio da regra Ieepa, e a cobrança de 50% foi retirada de vez. No entanto, o presidente decretou outra taxa geral, de 10%, por meio da Seção 122, que segue em vigor.
Nos últimos meses, a relação entre Lula e Trump piorou. Mesmo após uma visita de Lula à Casa Branca, em maio, os americanos não recuaram das tarifas e das acusações contra o Brasil.
Em maio, Trump se aproximou de Flávio Bolsonaro e o recebeu na Casa Branca. Depois disso, os americanos declararam as facções PCC e CV como terroristas, um pedido de Flávio que contraria o governo Lula, por ver risco de intervenções militares no país e de piora no ambiente de negócios para as empresas.