Mundo

Como a nova lei de 'união étnica' poderá mudar o interior da China

País possui cerca de 56 minorias étnicas que contrastam com a etnia majoritária Han, a mais numerosa e mais envolvida na política e no poder

O presidente Xi Jinping durante a sessão anual do Parlamento da China (AFP)

O presidente Xi Jinping durante a sessão anual do Parlamento da China (AFP)

Publicado em 11 de março de 2026 às 06h01.

Uma nova lei de “união étnica” apresentada ao decorrer das Duas Sessões, uma série de reuniões dos mais importantes órgãos parlamentares da China, levantou alertas entre analistas e organizações de direitos humanos de fora do país.

A nova lei traz uma série de medidas para assimilar as minorias à cultura Han, incluindo incentivos para casamentos desses grupos com chineses Han e uma ênfase cada vez maior no ensino do mandarim padrão em escolas desde o jardim de infância, o que gradualmente eliminará, ao longo prazo, as diversas línguas tradicionais e dialetos falados por todo o país.

Com base em precedentes de Duas Sessões anteriores, a lei, que deverá ser submetida a uma votação, poderá ser aprovada com até 95% dos votos, inclusive de representantes dessas minorias. Em uma fala durante as Sessões, o parlamentar pertencente ao grupo étnico Dong, Chen Zhen, do Congresso Nacional Popular (NPC, na sigla em inglês), disse:

"[A lei] tornará o desenvolvimento de regiões de minorias étnicas uma responsabilidade legal, o que garantirá um apoio institucional estável e de longo prazo."

Todavia, analistas consideram que convenções assim do parlamento do Partido Comunista Chinês (PC) não existem para debater e questionar, mas meramente para aprovar formalmente medidas já decididas pela senioridade do governo por trás de portas fechadas, e fornecer vislumbres calculados de seus objetivos para o mundo em eventos altamente coreografados.

“O projeto de lei do governo chinês sobre a promoção da unidade étnica busca mobilizar a burocracia e a sociedade para unir as pessoas sob a liderança do Partido Comunista Chinês, em detrimento dos direitos humanos”, escreve Maya Wang, diretora associada para a Ásia da Human Rights Watch, em um artigo publicado pela organização de direitos humanos. “Tibetanos, uigures e outros que se manifestam em defesa das populações minoritárias podem esperar uma repressão ainda maior por parte do governo.” A lei também estipula punições para qualquer atividade ou ator que sejam “contrários à união”.

“O documento legal articula o apoio do Estado ao desenvolvimento de alta qualidade em áreas com grandes populações de minorias étnicas e à promoção da prosperidade comum entre todos os grupos étnicos, disse Li [Hongzhong, vice-diretor do comitê do NPC, em comentários sobre o projeto] acrescentando que disposições específicas são estabelecidas sobre construção de infraestrutura, desenvolvimento industrial, serviços públicos, proteção de recursos naturais, entre outros.”

As “56 flores” e a história da repressão étnica chinesa

Xinjiang é regularmente abalada por distúrbios entre os han e os uigures

Xinjiang, região da China que abriga a minoria muçulmana dos Uigures, vê constantes cenas de conflitos e repressão do grupo (AFP) (AFP)

Historicamente, a China teve um alto nível de tolerância com seus grupos étnicos. Durante a década de 1950, o país concedia uma série de privilégios para essas minorias, que representam até hoje entre 7 e 9% da população total.

Conhecidos como as “56 flores” na letra de uma famosa música popular, esses grupos tinham um nível de liberdade e independência na época que hoje parece apenas uma memória distante – tinham, entre outros, os direitos de viajar pelo país livremente, liberdade religiosa e a habilidade de educar suas crianças a seu próprio critério, de acordo com suas próprias línguas e costumes.

A esperança do PC, que nessa época chegou a reconhecer formalmente mais minorias do que qualquer outro regime chinês da história, era, em parte, que esse grau de liberdade fomentasse um nível de confiança e lealdade ao partido, que estava dando seus primeiros passos no poder desde sua vitória revolucionária.

Todavia, a narrativa mudou drasticamente desde então. O governo, enraizado no Marxismo-Leninismo, percebe a diferença de classes como a principal – senão única – identidade social. O renomado sinólogo e professor de história pela Universidade de Stanford, Thomas S. Mullaney, escreve em uma coluna para o jornal britânico The Guardian sobre a mudança de postura da China em relação às suas minorias:

“Outras identidades coletivas, como nacionalidade, religião e etnia, são ficções duradouras, mas em última análise efêmeras, construídas por aqueles que estão no topo da pirâmide econômica para distrair os pobres da busca por camaradagem com outros proletários.”

O especialista continua, elaborando um argumento que diz que enquanto outros países usaram o negacionismo desses grupos como tática para combater as ameaças percebidas como oriundas da diversidade étnica interna – insistindo na singularidade e indivisibilidade da nação ao reconhecer o mínimo possível de minorias, ou talvez nenhuma –, o plano do Partido Comunista Chinês era o oposto: reconhecer a diversidade étnica até torná-la irrelevante, assim conduzindo-a à extinção funcional.

“Ao abraçar tantas identidades étnicas, o objetivo era prevenir ameaças de nacionalismo local; garantir que as nacionalidades minoritárias do país jamais aspirassem à autodeterminação nacional ou a Estados-nação”, diz Mullaney. “Afinal, se o Estado reconhecesse e defendesse os grupos minoritários, que razão legítima alguém teria para se separar e formar sua própria entidade política?”

O plano era simples: gradualmente dissolver a pluralidade cultural, tornando identidades outrora importantes o bastante para catalisarem declarações de independência em apenas algo do plano de fundo da vida cotidiana. E o PCC cada vez mais se mostrou disposto a ir longe para assegurar seus objetivos, frequentemente através da força e de forma violenta.

Exemplos são variados: Da interferência no Tibete, onde o Partido separou famílias, forçou habitantes a negarem o Dalai Lama reconhecido e buscou implementar um outro líder espiritual com o mesmo título alinhado ao Estado; a destruição sistemática de mesquitas e o tratamento desumano de uigures em “campos de reeducação” e as diversas repressões violentas contra insurgências étnicas ao longo dos anos mancham o legado do que no passado foi um regime no mínimo tolerante com a paisagem cultural de seu país.

A nova lei é apenas o mais recente passo em direção a uma nação mais homogênea, em uma medida considerada alinhada com os ideais que Xi Jinping teria para a China. “A unidade étnica e o progresso não devem ser afetados por forças externas... sob o pretexto de etnia, religião ou direitos humanos”, afirma o texto do projeto.

Acompanhe tudo sobre:China

Mais de Mundo

Brasil, Espanha e México pedem diálogo com Cuba e criticam restrições

Irã prioriza navios pagantes no Ormuz e eleva tensão no comércio global, diz CNN

Carreta tomba na BR-251em MG; dois mortos e oito ficam feridos

Brasil, Espanha e México anunciam ajuda conjunta a Cuba