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Maior evento político da China define novos passos para tecnologia e comércio

Nos primeiros dias da maior conferência política da China, os principais economistas chineses apresentam seus objetivos comerciais, tecnológicos e de investimentos para 2026

 (Leandro Fonseca /Exame)

(Leandro Fonseca /Exame)

Publicado em 7 de março de 2026 às 08h01.

Em paralelo às “Duas Sessões”, o maior evento político anual da China, as principais autoridades do país conduziram uma coletiva de imprensa nessa sexta-feira, 6, e destrincharam os próximos passos sobre a economia do gigante asiático.

Ontem, o país divulgou os objetivos econômicos de Pequim em 2026 e um rascunho do seu décimo quinto plano quinquenal, que prevê os principais objetivos da China em diversos setores pelos próximos 5 anos, acabando em 2030.

O encontro ofereceu vislumbres valiosos da agenda chinesa para comércio, investimento e desenvolvimento tecnológico.

Alguns dos principais pontos da reunião:

Taxa de câmbio – yuan forte, mas controlado

Yuan; China

Yuan: banco central tenta conter valorização excessiva da moeda chinesa (Thomas Ruecker/Getty Images) (Thomas Ruecker/Getty Images)

O diretor do Banco Popular da China, Pan Gongsheng, disse que o país não tem intenção de depreciar o yuan para ganhar vantagens competitivas comerciais. A moeda chinesa se fortaleceu significativamente em relação ao dólar nos últimos meses, atingindo seu maior nível em três anos em meio às crescentes incertezas sobre a moeda americana.

No mês passado, o Yuan atingiu uma cotação de 6,867 por dólar, a maior desde abril de 2023. No mesmo dia desse pico, a China estabeleceu a taxa mediana para o Yuan – ou sua correção monetária diária – em 6,9321 por dólar, também no nível mais alto desde maio de 2023. Essa alta foi possibilitada principalmente pelo cenário econômico americano, cercado por incerteza, tarifas e reviravoltas, como a decisão da Suprema Corte americana de remover as tarifas globais impostas ano passado pelo presidente americano, Donald Trump, em uma miríade de países.

Mesmo assim, a China ainda é cautelosa para não ter uma moeda demasiadamente forte. Em um artigo publicado em fevereiro pelo fórum China Finance 40 (CF40), a economista chefe da empresa de serviços de segurança e consultoria financeira Huachuang Securities, Zhang Yu, disse que parte da apreciação recente foi movida por políticas, antes de ficar mais dependente do mercado, com as autoridades agora focadas em controlar a apreciação excessiva.

Empresas envolvidas no setor de manufatura intermediária, que envolve o transporte, armazenamento e varejo de produtos como petróleo e gás natural, viram suas margens de lucro no exterior subindo sistematicamente e ultrapassando as domésticas pela primeira vez. “O setor manufatureiro chinês atingiu rentabilidade mais forte em mercados no exterior”, disse Zhang para o South China Morning Post.

“Se a prosperidade do setor de manufatura intermediária persistir no futuro, o comportamento de liquidação das empresas relacionadas após obterem superávits com as exportações será diferente do passado”, observou ela em seu discurso durante um evento da CF40 no final do mês passado. “Isso poderá inaugurar uma grande mudança na estrutura da balança de pagamentos internacional.”

Tecnologia

Robôs humanoides da chinesa Unitree Robotics (FIEC/Divulgação) (FIEC/Divulgação)

Um tema central no atual plano de cinco anos chinês é o avanço tecnológico. Em uma tentativa de se distanciar da dependência nos EUA para produtos de alta tecnologia como semicondutores, a China investe em sua própria capacidade de produzir produtos assim de maneira autônoma.

Foi revelado na conferência de imprensa que o país introduzirá regras de listagem para a bolsa ChiNext mais flexíveis e inclusivas para empresas de tecnologia a fim de valorizar empresas inovadoras e de alta qualidade, particularmente nos setores em desenvolvimento na área de consumo e indústrias de serviços modernos.

Zheng Shanjie, diretor da Comissão de Desenvolvimento e Reforma Nacional (NDRC, na sigla em inglês) – o principal órgão de planejamento econômico da China – disse que o setor de IA do país valeria 10 trilhões de Yuan, ou cerca de 1,45 trilhões de dólares, até 2030. Além disso, a rede de navegação de satélites BeiDou – um sistema de navegação exclusivo chinês semelhante ao GPS – bateria o valor de 1 trilhão de Yuan nos próximos 5 anos, pintando uma narrativa otimista para os esforços no setor de tecnologia.

Regulação do mercado de capitais

Mercado na China (Leandro Fonseca/EXAME) (Leandro Fonseca /Exame)

Pequim também introduzirá um novo mecanismo de estabilização do mercado de capitais “com características chinesas” de acordo com Wu Qing, diretor da Comissão Reguladora de Seguranças chinesa. Sem entrar em muitos detalhes, Wu diz que os mecanismos devem permitir que o mercado fortaleça sua habilidade de fazer ajustes cíclicos e aumentar a sua estabilidade intrínseca.

Wu prometeu aumentar a atratividade de ativos chineses para investidores e a conveniência de investimentos através de fronteiras. O economista também chamou por ação “precisa e forte” contra fraudes financeiras, manipulação de mercado e comércio com informações privilegiadas (insider trading), simultaneamente prometendo esforços contínuos para melhorar a proteção ao investidor e sua experiência negociando na China.

Consumo e política fiscal proativa

Guangzhou na China - Vista da Torre de cantão (Leandro Fonseca /EXAME) (Leandro Fonseca /Exame)

Um outro ponto fundamental para o plano quinquenal é o aumento do consumo interno chinês. O setor de serviços da China bateria os 100 trilhões de yuan em até 2030, segundo Zheng, diretor da NDRC.

O ministro do comércio, Wang Wentao, enfatizou desbloquear o potencial de gasto dos consumidores em mercados menores, como de municípios remotos da China, longe dos grandes centros econômicos como Pequim e Shangai, que são considerados de “terceiro ou quarto nível” na nomenclatura econômica chinesa, mas que juntos representam 70% da população e 60% do PIB.

O ministro notou que o mercado consumista chinês é o segundo maior do mundo por tamanho nominal, e o maior quando medido em termos de paridade do poder de compra, uma medida que leva em consideração fatores como taxas cambiais e diferenças nos níveis de preço, a fim de atingir dados mais precisos em comparações internacionais.

Para esse fim, o país manterá sua postura proativa em políticas fiscais, ao mesmo tempo que fortalecerá a cooperação de políticas, disse Lan Foan, o ministro das finanças. A China criou um pacote de ferramentas políticas para promover demanda doméstica, incluindo políticas fiscais, financeiras e industriais, disse Lan. Além disso, Pequim também alocará mais recursos de maneira eficiente para apoiar setores relacionados ao desenvolvimento de alta qualidade, o que reflete também no plano quinquenal, que prevê desenvolvimento mais lento, mas com maior qualidade.

“Enquanto alguns países usam mercados como armas e moedas de barganha protecionistas, a China é um poder responsável”, disse o ministro do comércio Wang Wentao durante a conferência.

Comércio

Navio cargueiro em Huai’an, na província de Jiangsu, leste da China (Costfoto/NurPhoto/Getty Images) (Costfoto/NurPhoto /Getty Images)

No ano passado, a China registrou um desempenho comercial “melhor do que o esperado”, batendo um recorde de US$ 1,2 trilhão em superávit de vendas, nota o ministro do comércio Wang. Para este ano, o ministro diz que Pequim promoverá mais comércio balanceado, apontando que a China já é o segundo maior mercado de importações do mundo.

Com uma classe média que se expande rapidamente na China e um mercado com alto potencial, o país continua abrindo seus mercados proativamente, diz Wang. Para esse ano, o plano é um esforço conjunto para aumentar importações e estabilizar exportações, adiciona, fazendo referência às figuras comerciais dos primeiros dois meses desse ano, que ainda não são públicas, mas que Wang diz serem melhores do que o esperado.

Hong Kong e abertura de mercado

Bandeiras de Hong Kong e da China (Peter Parks) (Peter Parks/AFP)

Por fim, os economistas reiteraram o compromisso de Pequim em ter um mercado aberto e sua forte oposição ao protecionismo, notando que as oportunidades apresentadas pelo grande mercado chinês podem ser valiosas para empresas estrangeiras, fazendo um forte contraste entre a filosofia comercial chinesa e a de outros países, conforme cada vez mais estados se fecham economicamente.

Para esse fim, o papel de Hong Kong como um centro financeiro internacional é importante. A “consolidação e aprimoramento” da região semiautônoma para esse propósito é fundamental para os novos objetivos econômicos da China, diz o diretor do banco central Pan Gongsheng.

 

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