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Coletivos chavistas se reagrupam após captura de Maduro

Os coletivos são temidos pela oposição, que os enxerga como uma tropa de choque motorizada usada para intimidar adversários

NEW YORK, NY - JANUARY 5: Nicolas Maduro and his wife, Cilia Flores, are seen in handcuffs after landing at a Manhattan helipad, escorted by heavily armed Federal agents as they make their way into an armored car en route to a Federal courthouse in Manhattan on January 5, 2026 in New York City.  (Photo by XNY/Star Max/GC Images) (XNY/Star Max /Getty Images)

NEW YORK, NY - JANUARY 5: Nicolas Maduro and his wife, Cilia Flores, are seen in handcuffs after landing at a Manhattan helipad, escorted by heavily armed Federal agents as they make their way into an armored car en route to a Federal courthouse in Manhattan on January 5, 2026 in New York City. (Photo by XNY/Star Max/GC Images) (XNY/Star Max /Getty Images)

Publicado em 10 de janeiro de 2026 às 14h52.

Quando as primeiras explosões atribuídas aos Estados Unidos atingiram Caracas, Jorge Suárez se despediu da família e seguiu para a linha de frente. Ele integra um dos chamados “coletivos”, grupos apontados como o braço armado da revolução chavista.

Foi “como um best-seller, coisa de cinema”, contou Suárez, de 50 anos.

No local, há munição de fuzil, uma granada de efeito moral e retratos do líder socialista Hugo Chávez, do influente ministro do Interior Diosdado Cabello e do herói da independência Simón Bolívar.

De óculos escuros, ele usa um boné com a frase “duvidar é traição”, slogan que ganhou força durante a mobilização militar americana no Caribe.

Segundo Suárez, a ofensiva aérea que culminou na captura do agora ex-presidente Nicolás Maduro surpreendeu o país e deixou uma série de dúvidas em aberto.

Mas, para ele, há uma certeza: “Não sabemos quem foi, mas sabemos que houve traição”, afirma o militante do bairro 23 de Enero, reduto histórico da esquerda na Venezuela.

Os “coletivos” reapareceram com força como parte do legado de Chávez, que governou o país antes de Maduro, entre 1999 e 2013.

Eles dizem atuar nas comunidades com iniciativas esportivas, culturais e educacionais, mas deixam claro — sem rodeios — que a prioridade é proteger a Revolução Bolivariana.

“Frustração”

Suárez relata que, com os primeiros estrondos, os grupos ocuparam as ruas e montaram barreiras de controle, “aguardando orientações de nossos líderes”.

Um integrante de outro coletivo, o Boina Roja, que se apresenta apenas como Willians, não esconde o incômodo. Ele diz ter ficado com “frustração, fúria e disposição para lutar” após 3 de janeiro.

“O que não entendemos é como a defesa antiaérea falhou. Não sabemos o que ocorreu com o sistema de lançadores de foguetes”, afirmou o militante de 43 anos, questionando a resposta venezuelana ao ataque que repercutiu mundialmente.

Willians concorda que houve traições — e “muitas” —, mas afirma que os coletivos não desconfiam de Delcy Rodríguez, que assumiu o poder e em torno de quem os grupos se alinham.

Vice-presidente de Maduro e filha de um dirigente histórico da esquerda morto sob custódia dos serviços de inteligência venezuelanos em 1976, Rodríguez tem um histórico ideológico que, segundo eles, gera confiança.

“Eu não acredito que alguém vá trair o próprio pai”, diz Alfredo Canchica, dirigente do coletivo Fundación 3 Raíces. “Você pode trair o povo, mas seu pai não.”

“Seguramos os morros”

Os coletivos são temidos pela oposição, que os enxerga como uma tropa de choque motorizada usada para intimidar adversários. Em seus bairros, porém, os grupos são vistos como peças importantes na organização comunitária e na redução da criminalidade.

Canchica contesta a imagem negativa construída ao longo dos anos.

“No dia 28 de julho, nós seguramos os morros”, afirma, em referência aos protestos após a contestada reeleição de Maduro em 2024, que terminou com milhares de prisões.

Eles também defendem manter projetos esportivos, articulação com hospitais e transporte local, além de fiscalizações em mercados populares para conter a especulação em um país que opera, na prática, dolarizado e há anos convive com um câmbio paralelo.

Ao mesmo tempo, os grupos não escondem o armamento nem a disposição de usá-lo, como relataram durante uma visita ao estádio “Chato” Candela, no coração do 23 de Enero — um retrato da dualidade que marca essas organizações.

Homens fortemente armados fazem a segurança do centro esportivo, usado simultaneamente por jovens da comunidade.

“Quem nos traiu”

Para Suárez, ver reconstituições da incursão militar “dá raiva”. Segundo o governo venezuelano, os Estados Unidos bombardearam Caracas e outros três estados em uma operação que matou mais de 100 pessoas, entre civis e militares. Não houve vítimas americanas.

“Como reagir em tempo real quando eles têm tecnologia mais avançada do que a nossa?”, questiona, sem abandonar a hipótese de cumplicidade interna.

A traição, afirma Canchica, “teve de partir de alguém muito próximo do nosso comandante”. “Queremos entender o que aconteceu”, diz.

“Foi tão perfeita [a incursão] que não percebemos. Até agora não sabemos quem nos traiu, como nos traiu. Foi tudo muito rápido…”, acrescenta.

Após a captura de Maduro, os dois países firmaram acordos energéticos e estudam retomar relações diplomáticas rompidas desde 2019.

O presidente Donald Trump afirmou que governa o país e disse que vai controlar as vendas de petróleo, mas os coletivos evitam especulações.

“Não acreditamos nessas ameaças de que [os americanos] vão vir, sentar e tomar nosso petróleo”, diz Canchica. “Para isso, vão ter que nos matar.”

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