Moradores caminham entre destroços no bairro Bolívar, em La Guaira, após ataques dos Estados Unidos atingirem a área portuária próxima a residências; explosões danificaram armazéns, casas e prédios públicos, segundo a AFP (Federico Parra/AFP)
Redação Exame
Publicado em 4 de janeiro de 2026 às 15h51.
Última atualização em 4 de janeiro de 2026 às 21h00.
O som da explosão ainda ecoa entre os moradores do bairro Bolívar, em La Guaira, região que abriga o porto e o aeroporto que atendem Caracas. “Vi a faísca e, em seguida, a explosão”, disse à AFP Alpidio Lovera, morador da área atingida por ataques dos Estados Unidos na madrugada de sábado, que culminaram na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro.
Ao menos dois mísseis atingiram a área portuária, alcançando armazéns e contêineres a cerca de 100 metros das casas do bairro popular. Parte das estruturas foi destruída, e horas depois ainda era possível ver fumaça saindo dos galpões.
Prédio danificado em La Guaira um dia após a captura de Maduro (AFP)
Equipes de bombeiros e funcionários iniciaram os trabalhos no local cerca de 12 horas após os ataques, com o apoio de uma escavadeira. Policiais armados, em motocicletas, faziam a vigilância da região para conter possíveis saques, enquanto moradores e curiosos registravam em vídeo os danos causados pelas explosões.
Fragmentos de vidro e pedaços de metal estavam espalhados pelo chão, lançados a dezenas de metros de distância. O impacto também atingiu prédios públicos ao longo da orla, estilhaçou janelas e arrancou telhados de zinco de casas antigas em uma rua nos fundos.
“Todo mundo se mobilizou para tirar as pessoas da comunidade e levá-las para o morro”, contou Lovera, de 47 anos, cuja esposa está grávida, em entrevista à AFP. “Se um míssil desses cai aqui, não sobra nada”, completou.
Estilhaços de míssil em Catia La Mar (Federico Parra/AFP)
Ainda segundo a AFP, a irmã dele, Linda Unamuno, de 39 anos, moradora do bairro há três décadas, não conseguiu conter o choro ao relembrar a madrugada. “Por volta das duas da manhã ouvi o primeiro barulho. Saí correndo para procurar minha filha”, disse, referindo-se à menina de 11 anos que dormia no quarto ao lado.
“O impacto arrancou todo o telhado da minha casa. Me encolhi em um canto para proteger minha filha. O barulho foi ensurdecedor. Não sabia o que estava acontecendo, achei que o morro estava desabando.” A região já havia sido duramente afetada pela tragédia de Vargas, no fim dos anos 1990, quando deslizamentos de terra deixaram mais de 10 mil mortos.
“Quando consegui sair, entendi o que estava acontecendo. Até agora estou chorando. É traumático. Não desejo isso a ninguém”, disse, emocionada. Para ela, a forma como a operação foi conduzida é injustificável. “Está tudo errado. Se queriam fazer o que fizeram, havia outras maneiras. Não precisavam nos assustar assim.”
Apartamento atingido durante ação dos EUA (AFP)
Um vizinho, Alirio Elista, de 68 anos, também ouvido pela AFP, teve a caixa-d’água destruída pela explosão e critica a escalada militar. “Só quem vive isso sabe. Quem diz que uma invasão resolve o problema não entende o que está falando. É preciso buscar uma saída pacífica”, afirmou.
Ele diz não se sentir representado nem pelo governo nem pela oposição. “Não quero nem Maduro nem María Corina. Quero alguém honesto, que goste do país”, declarou.
Ao lembrar do período de prosperidade impulsionado pelo petróleo, Elista contrasta com a realidade atual. “Hoje recebo 130 bolívares de aposentadoria, o equivalente a cerca de 2 reais. Não dá para nada. Passamos fome. Isso não se resolve de um dia para o outro. Vai levar uns 15 anos”, concluiu.
Moradores recuperam o que conseguem dos escombros (Federico Parra/AFP)