Mundo

Lula critica 'investidas neocoloniais' de Trump e elogia Roosevelt no Panamá

Presidente discursou em abertura de fórum de países latino-americanos, com a presença de outros líderes da região

O presidente Lula, ao chegar no Panamá, na tarde de terça, 27 (Ricardo Stuckert/PR/Divulgação)

O presidente Lula, ao chegar no Panamá, na tarde de terça, 27 (Ricardo Stuckert/PR/Divulgação)

Rafael Balago
Rafael Balago

Repórter de internacional e economia

Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 12h24.

O presidente Lula fez críticas às ações dos EUA na América Latina durante discurso no Panamá, nesta quarta-feira, 28. Sem citar nominalmente o presidente Donald Trump, ele disse que ações de intervenção no continente são algo do passado e elogiou o ex-presidente Franklin Roosevelt, que comandou os EUA durante a Segunda Guerra Mundial.

"A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos e retrocessos históricos", afirmou Lula, na abertura do Fórum Econômico Internacional da América Latina, realizado no Panamá a partir desta quarta-feira, 28.

"Entre tantos corolários e doutrinas que nos foram dedicadas ao longo da história, também houve momentos em que os Estados Unidos souberam ser um parceiro em prol dos nossos interesses de desenvolvimento", disse.

Em seguida, Lula passou a elogiar Roosevelt, que era do Partido Democrata, rival da legenda de Trump, o Partido Republicano.

"O presidente Franklin Roosevelt implementou uma política de boa vizinhança que tinha como objetivo substituir a intervenção militar pela diplomacia e sua política externa para a América Latina e Caribe. Roosevelt também defendia que deveríamos erigir um mundo com base em liberdades fundamentais para a defesa da democracia e dos direitos humanos", disse.

Lula também lamentou a falta de união no continente e a dificuldade dos blocos da região para agirem de forma conjunta.

"A única organização que engloba a totalidade dos países da América Latina e Caribe, a Celac, está paralisada, apesar dos esforços do nosso querido presidente Petro [da Colômbia]. A Celac, não consegue produzir nem mesmo uma única declaração contra intervenções militares e ilegais que abalam a nossa região", disse, em referência ao ataque americano à Venezuela, no dia 3, que capturou o presidente Nicolás Maduro.

Pedido de união

Em seguida, o presidente disse que a região precisa abrir mão de ideias mais antigas e criar novas formas de cooperação.

"Conquistar a confiança na integração é uma tarefa árdua, mas necessária. Dispomos de credenciais econômicas, geográficas, demográficas, políticas e culturais excepcionais para aspirar uma presença relevante no contexto mundial. Necessitamos de lideranças comprometidas com mecanismos institucionais, que articulem de forma equilibrada os destinos e os distintos interesses nacionais da nossa região", afirmou.

"Em um contexto global de ruptura da ordem liberal e do surgimento do protecionismo e do unilateralismo, os paradigmas e dogmas ligados ao pan-americanismo e ao bolivarianismo são insuficientes", afirmou Lula.

"Também não podemos nos valer de modelo de integração que poucos refletem as nossas realidades. Devemos olhar para a União Europeia como uma referência positiva, sem ignorar todas as diferenças históricas, econômicas e culturais. O peso das identidades nacionais torna inviável, a curto prazo, qualquer projeto de envergadura parecida com o europeu", prosseguiu.

Para Lula, os países da região precisam usar suas riquezas naturais, como as reservas de terras raras, petróleo e água para ampliar sua inserção global. "Guiados pelo pragmatismo, podemos superar divergências ideológicas e construir parcerias sólidas e positivas dentro e fora da região. Essa é a única doutrina que nos convém. Seguir divididos nos torna todos mais frágeis", afirmou.

"A proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é outra referência inescapável, seja pela sua presença ou pelo seu distanciamento, sobretudo num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas", isse, em referência aos EUA.

Fórum no Panamá

O Fórum Econômico Internacional da América Latina, realizado no Panamá a partir desta quarta-feira, 28, tem também a presença dos presidentes Gustavo Petro, da Colômbia, Rodrigo Paz, da Bolívia, Daniel Noboa, do Equador, e Bernardo Arévalo, da Guatemala, além de José Antonio Kast, presidente eleito do Chile, da primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley, e do primeiro-ministro da Jamaica, Andrew Holness.

Ainda nesta quarta, Lula deverá visitar o Canal do Panamá. O Brasil é o 15º maior usuário do canal, que liga os oceanos Atlântico e Pacífico, que também tem despertado a atenção do presidente Donald Trump. O americano pressiona o Panamá a reduzir a presença chinesa na região.

O evento é organizado pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF). São esperados representantes e 300 empresas exportadoras da América Latina e de 150 empresas compradoras de produtos da região, de países como EUA, Alemanha e Japão. A rodada de negócios ocorrerá até sexta-feira, 30. Também haverá debates com os vencedores do Prêmio Nobel de Economia de 2024 e 2025, James Robinson e Philippe Aghion.

Canal do Panamá: Trump quer ampliar poder dos Estados Unidos sobre uma das principais passagens marítimas (Arnulfo Franco/AFP/Getty Images)

Acordos entre Brasil e Panamá

No evento, chamado de "Davos latino-americana", as conversas entre os presidentes deverão tratar de diversos temas, incluindo desafios da geopolítica, a situação da Venezuela, comércio, energia, mineração, turismo e inteligência artificial.

Durante o Fórum, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, também deve assinar o Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos, que vai estabelecer as regras de proteção de investimentos entre os dois países.

“É uma forma de você incentivar a integração regional de uma maneira mais profunda e concreta, mirando ao longo prazo", disse Alexandre Ghisleni, diretor do Departamento de Política Econômica, Financeira e de Serviços do Itamaraty, em conversa com jornalistas antes da viagem.

"Faz parte de uma iniciativa brasileira de criar uma rede de acordos, sobretudo com países em desenvolvimento, de maneira a propiciar novas avenidas, novos caminhos para o desenvolvimento econômico, de ser uma espécie de versão econômica da cooperação Sul-Sul”, disse.

Em 2024, as trocas comerciais entre Brasil e Panamá subiram 78%, atingindo a marca de US$ 1,6 bilhão, segundo o governo brasileiro. A alta foi puxada pelas exportações brasileiras de petróleo e derivados, que subiram de US$ 300 milhões para US$ 1,6 bilhão.

Além disso, o Brasil vendeu quatro aeronaves Super Tucano, da Embraer, ao governo do Panamá, em um exemplo do avanço nas parcerias em defesa.

Acompanhe tudo sobre:Luiz Inácio Lula da SilvaPanamáAmérica Latina

Mais de Mundo

Amazon influenciou decisão de Trump sobre Anthropic, diz WSJ

Ataques de Israel no sul do Líbano deixam ao menos cinco mortes; EUA preparam cessar-fogo

Em meio a sanções dos EUA, Cuba lança pacote de reformas para reativar a economia

Suíça vai votar no domingo projeto que prevê 'limitar' população