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Irã diz que 'responderá como nunca antes' caso Trump faça novo ataque

Em resposta direta às ameaças recentes do presidente norte-americano, a Missão Permanente do Irã na ONU afirmou que o país 'se provocado, se defenderá'

Pessoas se reúnem para um protesto contra a onda de ataques israelenses contra o Irã no centro de Teerã, em 13 de junho de 2025 (Atta Kenare/AFP)

Pessoas se reúnem para um protesto contra a onda de ataques israelenses contra o Irã no centro de Teerã, em 13 de junho de 2025 (Atta Kenare/AFP)

Paloma Lazzaro
Paloma Lazzaro

Estagiária de jornalismo

Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 14h22.

Após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçar o Irã com ações militares nesta quarta-feira, 28, a Missão Permanente da República Islâmica na Organização das Nações Unidas (ONU) respondeu às declarações dele. "O Irã está pronto para o diálogo baseado no respeito mútuo e em interesses comuns — mas, se provocado, se defenderá e responderá como nunca antes!", afirmou o grupo diplomático.

Mais cedo, o republicano afirmou na rede social Truth que uma "enorme armada está a caminho do Irã", com "uma frota maior, liderada pelo magnífico porta-aviões Abraham Lincoln, do que a enviada à Venezuela."

As ameaças têm como justificativa declarada pressionar a República Islâmica a negociar o fim do seu programa nuclear. "O tempo está se esgotando, é realmente essencial! Como eu disse ao Irã uma vez, FAÇAM UM ACORDO!", disse Trump.

Teerã descarta se sentar à mesa de negociações sob a ameaça de operações militares e tenta obter apoio entre os países árabes. "Conduzir a diplomacia mediante ameaças militares não pode ser eficaz, nem útil", disse à TV o ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araqchi.

Guerra ao Terror das décadas de 2000 e 2010

A Missão Permanente iraniana fez menção a duas guerras que marcaram a política internacional norte-americana. Durante as décadas de 2000 e 2010, os  Estados realizaram agressivas campanhas militares em diversos pontos do Oriente Médio, cujo ápice foram as invasões e ocupações do Iraque (de 20 de março de 2003 a 15 de dezembro de 2011) e do Afeganistão (de 7 de outubro de 2001 a 30 de agosto de 2021).

O então presidente George W. Bush chegou a declarar uma "Cruzada contra o Terror" e contra o "Eixo do Mal", do qual o Irã fazia parte. A política ficou conhecida como Doutrina Bush.

'Reduzir a escalada'

Apesar das declarações recentes da Missão Permanente, a postura iraniana à escalada de tensões tem priorizado, sobretudo, negociações alternativas. O país mantém sua recusa em alterar seu programa nuclear, mas, oficialmente, busca soluções diplomáticas.

O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, teve uma ligação nesta terça-feira, 27, com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman.

Os sauditas não foram os únicos aliados dos EUA no Oriente Médio com quem o Irã entrou em contato recentemente. O secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Ali Larijani, conversou com o primeiro-ministro do Catar, xeque Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, também ministro das Relações Exteriores, informaram os dois países.

O xeque Mohammed ressaltou o apoio do Catar a "todos os esforços voltados para reduzir a escalada e alcançar soluções pacíficas, para reforçar a segurança e a estabilidade na região", informou o Ministério das Relações Exteriores catari.

A Turquia também se posicionou contra operações no Irã. O ministro turco das Relações Exteriores, Hakan Fidan, disse à emissora Al-Jazeera que "é errado atacar o Irã. É errado iniciar a guerra novamente". Ele pediu a Washington que reabra as negociações sobre o impasse nuclear.

De acordo com a AFP, a Turquia aconselhou os Estados Unidos a dialogarem com o Irã. A Arábia Saudita, que tem bases militares norte-americanas em seu território, prometeu ao Irã que não permitiria que ataques contra a República Islâmica fossem lançados de dentro de seu país.

Ataques norte-americanos no Irã

Se os ataques ocorrerem, não será a primeira vez que Trump lança ações militares no território iraniano. Em junho do ano passado, no contexto da guerra de 12 dias entre Irã e Israel, Washington bombardeou as três principais instalações do programa nuclear iraniano.

Mais recentemente, o Departamento de Segurança Interna (DHS) americano anunciou a deportação de três ex-membros da Guarda Revolucionária do Irã que entraram ilegalmente nos Estados Unidos.

Segundo analistas citados pela AFP, Washington poderia atacar instalações militares ou golpear seletivamente a liderança do aiatolá Ali Khamenei na tentativa de derrubar o regime que governa o Irã desde a Revolução Islâmica de 1979, que derrubou o xá.

O programa nuclear iraniano

O programa nuclear iraniano é centro de discussões há anos. Em outubro de 2025, o país voltou a estar sob sanções pela primeira vez em 10 anos por causa do programa. A ação foi aprovada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.

A justificativa para essa retomada das punições foi o acordo de 2015 assinado por Reino Unido, França e Alemanha, que visa impedir Teerã de obter armas nucleares em troca da interrupção de sanções. As três potências europeias afirmaram no ano passado que o Irã violou o tratado e intensificou suas atividades nucleares nos últimos anos.

Em 2018, Trump deixou o tratado, durante o seu primeiro mandato, o que abriu precedentes para outros países recuarem dos compromissos assumidos nele.

Em 2025, o programa nuclear passou por mais instabilidades. O exército israelense atacou o Irã, mirando suprimir suas capacidades ofensivas e defensivas. Entre os alvos, estavam diversas unidades que integram a infraestrutura nuclear do país. Após 12 dias de conflito, os EUA bombardearam as três principais instalações nucleares iranianas. Apesar dos ataques, Teerã diz que seu programa segue intacto.

Protestos no Irã e tensões internacionais

Atualmente, o Irã vive uma onda de protestos, com forte repressão militar do governo. Na mensagem desta quarta-feira, Trump não mencionou os protestos.

Em um balanço atualizado, a Agência de Notícias de Ativistas dos Direitos Humanos (HRANA), com sede nos Estados Unidos, disse ter verificado 6.221 mortes, em sua maioria de manifestantes atingidos por disparos das forças de segurança. O grupo acrescentou que pelo menos 42.324 pessoas foram detidas e investiga outras 17.091 possíveis mortes.

Segundo ativistas da HRANA, a repressão continua, com forças de segurança revistando hospitais em busca de manifestantes feridos e com "confissões forçadas" difundidas pela TV estatal.

*Com informações da AFP

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