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Bad Bunny x Trump: por que os dois representam visões opostas dos EUA

Cantor celebrou cultura latina em show na final do Super Bowl, o que gerou fortes críticas do presidente

Bad Bunny: cantor fez show do intervalo do Super Bowl com homenagens à América Latina
 (Kevin C. Cox/AFP)

Bad Bunny: cantor fez show do intervalo do Super Bowl com homenagens à América Latina (Kevin C. Cox/AFP)

Rafael Balago
Rafael Balago

Repórter de internacional e economia

Publicado em 9 de fevereiro de 2026 às 12h26.

Última atualização em 9 de fevereiro de 2026 às 14h17.

O show do cantor Bad Bunny no intervalo do Super Bowl, na noite de domingo, 8, deixou claro que há duas visões sobre os Estados Unidos em confronto aberto.

Na apresentação, Bunny falou e cantou em espanhol, celebrou a cultura latina e, ao final, citou todos os países das Américas, para deixar claro que os Estados Unidos são apenas mais um país do continente. E emendou: "continuamos aqui".

Após a apresentação, o presidente Donald Trump fez ataques. “O show do intervalo do Super Bowl é absolutamente terrível, um dos piores de todos os tempos! Não faz sentido nenhum, é uma afronta à grandeza da América e não representa nossos padrões de sucesso, criatividade ou excelência. Ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo”, escreveu na rede Truth Social. Antes do ataque, o presidente já havia feito críticas contra Bunny, e vários perfis de apoio a ele nas redes sociais vinham pregando um boicote ao show. 

A apresentação de Bunny teve duas mensagens claras: os imigrantes importam para os EUA e os países da América Latina merecem respeito. Ambas entram, em alguma medida, em conflito com o que Trump defende. O presidente fez da perseguição a imigrantes dentro dos EUA uma de suas principais bandeiras, sendo que muitos deles vêm da América Latina, e adotou uma doutrina segundo a qual os países vizinhos devem, na prática, se sujeitar aos Estados Unidos — a chamada "doutrina Donroe". 

O auge da pressão contra países da América Latina ocorreu no começo de janeiro, quando militares dos EUA invadiram a Venezuela e prenderam o presidente Nicolás Maduro. Em seguida, o governo americano passou a controlar a venda do petróleo venezuelano e deixou claro que outros países da região poderão perder sua autonomia se atuarem contra o que for considerado "interesse americano".

Arte Doutrina Donroe

Porto Rico, terra natal de Bunny, é um exemplo antigo de intervenção dos EUA no Caribe. O arquipélago é um território dos EUA, adquirido da Espanha em 1898, mas tem regras diferenciadas. Seus cidadãos são considerados norte-americanos e podem morar e trabalhar nos Estados Unidos, mas não votam para presidente nem têm representantes no Congresso. Como a ilha tem menos oportunidades, milhares de porto-riquenhos imigraram para cidades americanas, especialmente para Nova York ao longo do século 20, mas sofreram preconceito por falar espanhol, e não inglês.

Bunny, 31 anos, se tornou um dos principais artistas globais ao valorizar elementos da cultura latina em sua música e cantar sempre em espanhol. Ele foi o artista mais ouvido no Spotify no mundo em quatro dos últimos seis anos. No ano passado, optou por fazer uma série de 30 shows em Porto Rico, em vez de sair em turnê por estados americanos. Uma das razões foi o receio de que o ICE, a polícia anti-imigrantes dos EUA, usasse os shows para prender imigrantes. Esse não foi seu primeiro posicionamento político. Os apagões frequentes em Porto Rico foram retratados na música "El Apagón". Ele também fez críticas à falta de ajuda à região após um furacão devastar a ilha, em 2017, e criticou o ICE ao ganhar o Grammy, em janeiro deste ano.

Imigrantes como inimigos

Trump coloca os imigrantes como os principais inimigos internos dos Estados Unidos e os culpa por uma série de males, como a violência, a falta de empregos e o aumento do custo de vida. Ele chegou a dizer que os aluguéis estão ficando mais baratos no país porque os estrangeiros foram embora.

Essa caçada aos imigrantes sem documentos virou uma operação de guerra no país, com agentes do ICE mascarados e armados circulando pelas cidades em operações enormes. Trump foi eleito com a promessa de expulsar imigrantes, mas a forma rápida e agressiva como tem feito isso surpreendeu, especialmente porque não é comum nos EUA a realização de operações militares desse porte dentro do país.

A tensão ficou ainda maior depois que agentes do ICE mataram dois cidadãos americanos que protestavam contra as operações. O governo Trump quis retratar as vítimas como terroristas domésticos, mas depois recuou e reduziu as operações em Minneapolis, local de uma das mortes. A mudança veio após uma onda forte de protestos no país, onde o combate à imigração se tornou um tema central da política e do dia a dia. 

Os latinos representam cerca de 20% da população dos EUA e vinha crescendo. Entre 2000 e 2024, o número de latinos no país praticamente dobrou, com um crescimento de 35,3 milhões para 68 milhões.

Oposição cultural

Em um momento em que a oposição democrata ainda pena para conter o protagonismo de Trump no noticiário e nas redes sociais, as críticas ao presidente, mesmo que indiretas, ganham força no campo cultural, em momentos como o show de Bunny. Uma das próximas paradas dessa disputa envolve os filmes que disputam o Oscar. "Uma Batalha Após a Outra" mostra um grupo de rebeldes que combate a prisão de imigrantes e "Pecadores" aborda o racismo, por exemplo. 

Essas duas visões para os EUA, uma mais aberta a estrangeiros e à inclusão de minorias e outra que quer fechar as portas e reduzir essas políticas, estarão em disputa novamente nas urnas em novembro, com as eleições de meio de mandato, as Midterms. Os republicanos poderão perder o controle do Congresso se forem mal votados, e Trump terá menos força na reta final de seu mandato. Se vencer, terá ainda mais força para aplicar suas ideias. 

Até lá, tudo indica que os dois lados deverão seguir subindo o tom para defender a visão de país que defendem. 

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